Notícias

Sob tarifaço, exportação aos EUA têm maior queda desde pandemia

Sob tarifaço americano, as exportações brasileiras aos Estados Unidos caíram 6,6% em 2025 ante 2024, maior queda desde 2020, quando o comércio global foi fortemente afetado pela pandemia. A queda veio em um ano em que Brasil bateu recorde na receita total de embarques, com crescimento de 3,5%. As exportações brasileiras aos EUA de bens que escaparam da sobretaxa da política tarifária americana caíram 5,1%. Os atingidos, 7,4%. Os submetidos a imposto de importação de 40% ou 50% recuaram ainda mais, à taxa de 9,5%. Considerando somente agosto a dezembro, período em que o tarifaço já estava em vigor, a exportação dos produtos sob carga maior de imposto de importação nos EUA caiu 21,6% contra igual período de 2024.

Os dados são da Câmara Americana de Comércio (Amcham) e consideram as duas listas de isenção do tarifaço americano de: a de julho e a de novembro de 2025. Também foram incluídos entre os sobretaxados itens atingidos pela Seção 232.

Para Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, é preciso aproveitar a atual janela de tempo para negociar os produtos ainda afetados. Segundo cálculos da Amcham, 35,9% do que o Brasil exporta aos EUA está submetido às tarifas específicas contra o Brasil, pela IEEPA (lei de poderes econômicos de emergência internacional, na sigla em inglês), e outros 11,9% são sobretaxados pela chamada Seção 232. Desse universo, 7,8 pontos percentuais são de aço e alumínio, destaca Fabrizio Panzini, diretor de políticas públicas e relações governamentais da Amcham Brasil.

“A negociação tem maior probabilidade de gerar bons resultados agora, neste início de ano”, diz Abrão Neto. Com o transcorrer do tempo, a discussão, avalia, fica mais complexa, e outros assuntos passam a concorrer, como as eleições à presidente da República no Brasil e, nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato e a revisão da UMSCA, o acordo entre EUA, México e Canadá.


"Negociação tem mais chance de ter bom resultado neste início de ano”
— Abrão Neto

A IEEPA e a 232 têm impactos diversos e demandam negociações diferentes, ressalta Abrão Neto. “As tarifas de 40% ou 50% afetam exclusivamente o Brasil, o que nos coloca numa situação de competitividade mais comprometida nesses produtos em relação aos demais competidores.”

Na Seção 232, em regra, a condição é a mesma frente aos demais, compara. Ele observa que existem negociações que os EUA têm feito de forma bilateral com parceiros comerciais e que têm dado indicação de acesso diferenciado na 232, com melhores condições. “O Reino Unido foi o primeiro, mas não há ainda detalhamento específico de qual é essa condição mais privilegiada.”

Panzini lembra que, além de específicas ao Brasil, as tarifas da IEEPA são muito mais generalizadas e por isso abrangem um volume de exportação muito mais elevado.

Para Abrão Neto, o quadro atual coloca “mais ênfase e urgência em se buscar uma solução para as tarifas da IEEPA, que singularizam o Brasil, mas sem deixar de lado a tentativa de se buscar avançar também nos produtos da Seção 232, que são muito importantes para a produção e exportação brasileiras, como os setores siderúrgico e de madeira.”

As tarifas via IEEPA devem ser julgadas pela Suprema Corte americana, mas, para Abrão Neto, o melhor desfecho para o Brasil é buscar uma solução via negociação e não esperar eventual decisão do Judiciário derrubando a IEEPA. “Existem outras fundamentações jurídicas e legislações que os EUA podem adotar para estabelecer aumentos tarifários.”

A chamada Seção 301 é um exemplo, diz Abrão Neto. Ele lembra que já há “investigação iniciada e relativamente avançada” envolvendo o Brasil com base no dispositivo. “Um julgamento sobre a IEEPA não é definitivo em relação à situação brasileira, muito embora esse resultado possa servir como gatilho para a revisão das tarifas em relação ao Brasil. Mas o caminho da negociação é inescapável.”
 

 
 

A ação dos EUA na Venezuela, avalia ele, não deve tensionar as negociações sobre tarifas. “O governo brasileiro já deixou clara sua posição. O Brasil tem importância considerável na região latino-americana e tem laços importantes na Venezuela. Pode ser um ator para ajudar no processo de transição.”

Abrão Neto explica que a queda da exportação brasileira aos americanos em 2025 não resultou somente de itens sobretaxados. Também houve redução, diz, de 18,9% nas vendas de petróleo bruto, que não ficou sujeito a tarifas adicionais. Em 2025 o Brasil exportou total de US$ 37,74 bilhões aos EUA, US$ 2,65 bilhões a menos que em 2024. Contribuíram para a queda US$ 1,5 bilhão em produtos sobretaxados a 40% ou 50% e US$ 350 milhões em itens da 232. Também foi relevante o recuo de US$ 1,1 bilhão em petróleo, explica Panzini.

“A exportação de petróleo depende de ciclos. Em alguns anos os países podem colocar mais refinarias em manutenção, o que eleva a importação. Foi o que aconteceu nos EUA nos últimos anos. Já se previa, em razão de investimentos e da parte técnica das refinarias, que em 2025 os EUA produziriam mais petróleo internamente e demandariam menos importações. Houve efeito de preços, mas muito mais dessa retomada da produção americana”, destaca Panzini.

Além de petróleo, registraram quedas importantes no ano passado celulose, semimanufaturados de ferro e aço, equipamentos de engenharia, madeira e motores de pistão. Desses produtos, apenas celulose não é atualmente alvo de tarifas de 40% ou 50%.

Se as negociações permitirem redução das tarifas adicionais aplicadas ao Brasil, diz Abrão Neto, a tendência é de retomada do crescimento das exportações brasileiras, sobretudo de produtos industriais. A indústria de transformação é responsável por 80,6% de tudo o que o Brasil vende aos americanos. Dos dez principais itens exportados aos EUA, oito são da indústria de transformação. Em sentido contrário à tendência geral do setor, aeronaves, sucos e carne bovina tiveram alta nas vendas aos americanos em 2025, contendo a queda do setor manufatureiro.

Em 2025, mostra o estudo da Amcham, as exportações industriais do Brasil aos EUA caíram 4,2% ante 2024, a primeira queda de vendas do setor desde 2020. Mesmo assim o mercado americano permanece como o principal destino das exportações da indústria brasileira, com 16% do total, à frente da UE e do Mercosul.

Com a redução, a participação dos Estados Unidos na exportação brasileira caiu de 12% em 2024 para 10,8% no ano passado. Mesmo assim os EUA mantiveram o posto de segundo maior destino brasileiro, depois da China, que ficou com fatia de 28,7% dos embarques. As vendas brasileiras ao país asiático cresceram 6% no ano passado. Para a União Europeia, que absorve 14% da exportação, a alta foi de 3,2%.

Mesmo com a queda de embarques, a corrente de comércio entre Brasil e EUA, que é a soma de importações e exportações, cresceu em 2025, destaca Abrão Neto. Isso porque a compra externa brasileira de produtos americanos cresceu 11,3% e alcançou US$ 45,2 bilhões, segundo maior valor da série histórica oficial. Entre os principais produtos que puxaram a alta, estão motores e máquinas não elétricas, óleos combustíveis, aeronaves e outros medicamentos.

“O comércio entre Brasil e EUA tem perfil muito saudável, de complementariedade. A importação mostrou resiliência e respondeu à demanda do Brasil em 2025 e ao posicionamento consolidado das empresas americanas no país”, diz Abrão Neto. Ele destaca, porém, que no comércio bilateral cerca de um terço vem de trocas entre empresas do mesmo grupo econômico que atuam no Brasil e nos EUA. “Se houver redução reiterada nas exportações, haverá impacto nas importações também.”

Com recuo nas exportações e elevação das importações, o déficit do Brasil com os EUA se aprofundou em 2025, para US$ 7,5 bilhões, ante US$ 249,5 milhões de 2024. O saldo negativo, porém, ficou abaixo do de 2021 e 2022, quando os déficits foram de US$ 8,2 bilhões e US$ 13,9 bilhões, nessa ordem.

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 12/01/2026

Setor da construção civil vive 'melhor momento de sua história'

O setor da construção civil não tem motivos para reclamar. Aliás, com exceção da taxa básica de juros em 15%, apontada como alta pela maioria dos empresários, a perspectiva é positiva para esse mercado. O Produto Interno Bruto (PIB) do setor deve encerrar 2025 com crescimento de 1,8%, segundo estimativas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP). Para especialistas do setor, essa “boa maré” se deve, principalmente, ao avanço do Minha Casa, Minha Vida (MCMV).

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o setor avançou 1,3% no terceiro trimestre de 2025, depois de recuar 0,7% no primeiro trimestre do ano e 0,3% no segundo. “O mercado da construção segue em um momento positivo. Isso se deve aos contratos de infraestrutura e ao bom desempenho do Minha Casa, Minha Vida. É uma boa notícia para o emprego e para a renda no país”, aponta Renato Correia, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

Um dos fatores que impulsionou o programa social foi a mudança da Faixa 1, que era limitada a famílias com renda de até R$ 2.850 e deverá contemplar quem ganha aproximadamente dois salários mínimos a partir deste mês. O ministro das Cidades, Jader Filho, projetou a contratação de 1 milhão de novas unidades até o final deste ano. Com isso, o programa deve encerrar 2026 com 3 milhões de unidades financiadas.

"O MCMV vem exibindo forte ritmo de crescimento. Em novembro do ano passado, foram registrados 80 mil novos financiamentos, acima da média mensal de 60 mil observada até outubro. Uma a cada três contratações tem sido direcionada à Faixa 1", afirma. O programa também passou a contar com a Faixa 4, criada para atender famílias com renda entre R$ 8 mil e R$ 12 mil.

Esse movimento se reflete no desempenho das empresas que atuam em larga escala dentro do MCMV. No Grupo Direcional, que engloba as empresas mineiras Direcional Engenharia e Riva Incorporadora, os resultados do terceiro trimestre de 2025 mostram a força da demanda.

“Na Direcional, a receita líquida chegou a R$ 1,2 bilhão, um aumento de 27% na comparação com o mesmo período de 2024. As vendas líquidas somaram R$ 1,6 bilhão, crescimento de 10% sobre o ano anterior, e setembro se destacou como o melhor mês da história da empresa, totalizando R$ 832 milhões em vendas brutas”, detalha Paulo Sousa, diretor financeiro e de relações com investidores do Grupo Direcional. Na Riva, a outra marca do grupo, os lançamentos atingiram R$ 1,2 bilhão no terceiro trimestre de 2025, alta de 186% em relação ao mesmo período de 2024.

Thiago Correa Ely, diretor executivo comercial da MRV&CO, afirma que “o setor está vivendo o melhor momento de sua história” e que a empresa está otimista em relação aos próximos meses. “Com um déficit habitacional ainda significativo no país, nosso mercado conta com uma demanda constante”, diz.

Nos três primeiros trimestres de 2025, a MRV lançou mais de 31 mil unidades, sendo 97% delas enquadradas no programa federal Minha Casa, Minha Vida. Em Minas Gerais, foram lançados sete empreendimentos, totalizando mais de 1,9 mil apartamentos. “O programa habitacional ajudou a empresa a driblar o cenário de juros altos e impulsionou a receita operacional em 17,6%, além de estimular um aumento de 35,5% no lucro bruto”, revela.

Uma das consequências desse bom momento é que a construção manteve saldo positivo de contratações formais. No acumulado dos últimos 12 meses, até outubro de 2025, o emprego com carteira no setor cresceu 2,84% - somando mais de 3 milhões de trabalhadores no Brasil. Segundo dados da CBIC, São Paulo (23.006), Belo Horizonte (9.727) e Fortaleza (5.881) foram as três cidades que mais criaram novos empregos na construção civil de janeiro a agosto de 2025.

Alta nas vendas do cimento

Matéria-prima essencial na construção civil, o cimento também foi beneficiado pelo aquecimento do setor. De acordo com balanço divulgado pelo Sindicato Nacional da Indústria de Cimento (SNIC), as vendas de cimento em dezembro somaram 4,9 milhões de toneladas, um aumento de 4,7% em relação ao mesmo mês de 2024.

Com esse resultado, o setor encerrou 2025 com um total de 67 milhões de toneladas comercializadas, acumulando uma alta de 3,7% em 2025 — o que representa 2,4 milhões de toneladas a mais sobre o ano anterior.

O balanço também revela que todas as regiões apresentaram crescimento anual acumulado, com liderança do Nordeste (7,2%), seguido por Norte (4,0%), Sul (3,1%), Sudeste (2,7%) e Centro-Oeste (1,9%).

"O desempenho corrobora a trajetória de expansão, embora o volume total ainda permaneça distante do recorde histórico de 2014, de 73 milhões de toneladas", afirma o texto do balanço enviado à imprensa. 

Desaceleração e desafios

Apesar do clima positivo, o setor deve começar 2026 com um ritmo mais lento de crescimento. O PIB do setor, projetado para 1,8% em 2025, ficou abaixo da estimativa anterior, que era de 2,2%. Foi o segundo corte no ano, que começou com expectativa de alta de 3%. Vale lembrar que, em 2024, o setor encerrou com alta de 4,3% no PIB.

Segundo Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), o principal motivo da revisão é a queda no consumo de materiais de construção pelas famílias.

“Juros elevados, renda comprimida e endividamento frearam reformas e pequenas obras, impactando diretamente o setor. Até setembro, apenas 47% da demanda por materiais veio do segmento familiar. Com isso, o crescimento de 1,8% do PIB da construção será puxado pelas construtoras", explica.

A escassez de mão de obra qualificada também segue como maior entrave, de acordo com o Sondagem da Construção. O mercado de trabalho atingiu pleno emprego em 2025, e o custo com pessoal deve fechar o ano com alta próxima de 10% - pressão que pode comprometer o crescimento se não houver resposta estrutural.

O presidente do Sinduscon-SP, Yorki Estefan, afirmou que a construção demandará uma mão de obra mais especializada e cara. Para ele, o Programa Reforma Casa Brasil vai competir com as construtoras, por absorver mão de obra informal.

Felipe Boaventura, vice-presidente de política, relações trabalhistas e recursos humanos do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), afirma que levantamentos internos indicam a escassez de mão de obra como o principal desafio do segmento. “O problema é reportado por mais de 90% das empresas”, afirma.

Até 2030, o Brasil poderá ter um déficit de um milhão de engenheiros para atuar em obras ligadas a programas governamentais, como o MCMV. O cálculo é do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e a estimativa é feita a partir de um cenário de queda, nos últimos dez anos, do número de estudantes que concluíram a graduação em alguma área da engenharia no país, segundo o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

 
Fonte: O Tempo
Seção: Construção, Obras & Infraestrutura
Publicação: 12/01/2026

Intervenção dos EUA na Venezuela pode gerar efeitos setoriais no Brasil

A pesada intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tende a ter implicações no Brasil, porém os impactos potenciais devem ocorrer em diferentes escalas, dependendo do segmento.

Enquanto, na macroeconomia esses efeitos tendem a ser pouco sentidos no curto prazo, na esfera política e em setores como energia e mineração, no médio e longo prazo, os impactos podem ser mais relevantes.

Desde a captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças de segurança dos Estados Unidos, a administração do presidente Donald Trump tem feito uma série de anúncios indicando que, além da captura de Maduro, a intenção é controlar, no longo prazo, a produção e a exportação de petróleo da Venezuela. 

Os EUA também sinalizam diretrizes sobre como o país latino-americano deve utilizar os recursos financeiros obtidos com a venda de petróleo, sugerindo que sejam destinados à compra de produtos norte-americanos.

"Em termos práticos, a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tem efeito nulo para a macroeconomia do Brasil, porque há anos a Venezuela já apresentava indicadores muito ruins e a relação comercial com o Brasil era praticamente inexistente. Por isso, para o PIB do Brasil, o que acontece na Venezuela agora não terá impacto esse ano", disse à BNamericas Roberto Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Petróleo

Troster, porém, alertou que esse cenário pode mudar no longo prazo, à medida que avancem os planos dos Estados Unidos no setor petrolífero venezuelano.

A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, com 303 bilhões de barris, à frente da Arábia Saudita, com 267 bilhões de barris. Mas, em termos de qualidade, o petróleo venezuelano é considerado pesado ou extrapesado, o que limita seu uso e eleva os custos de produção.

Dependendo do avanço dos planos dos Estados Unidos, o Brasil poderia ser afetado tanto em termos de atração de investimentos pro seu segmento de petróleo, com mais empresas globais direcionando recursos para projetos na Venezuela em detrimento de outros países, quanto em caso de um aumento expressivo da produção de petróleo venezuelano, o que poderia exercer pressão baixista sobre os preços internacionais.

Uma pressão baixista nos preços do petróleo afetaria de forma importante a balança comercial brasileira. Em 2025, o petróleo foi o produto mais exportado pelo Brasil, superando a soja e também o minério de ferro.

Mineração

Outro segmento que pode sentir efeitos no longo prazo é o setor de mineração. 

Analistas têm observado que, além do petróleo, as reservas minerais da Venezuela, hoje pouco exploradas, também podem entrar no radar dos Estados Unidos. Isso ocorre em um momento em que o presidente Trump tem reiterado interesse em anexar a Groenlândia aos Estados Unidos, região conhecida também por suas elevadas reservas minerais, inclusive de terras raras.

"A Venezuela interessa aos Estados Unidos por causa de suas reservas de petróleo, mas também é preciso lembrar que os EUA têm demonstrado interesse crescente no setor mineral da América Latina, especialmente em elementos de terras raras. Esse movimento sinaliza que os Estados Unidos querem reafirmar a região como parte de sua esfera de influência e conter a crescente presença da China nas últimas décadas", disse à BNamericas André Pereira César, analista político da consultoria Hold Consultoria.

A China exerce um papel-chave na mineração brasileira. O país asiático é o principal comprador de commodities minerais produzidas no Brasil e, além disso, nos últimos anos, empresas chinesas têm realizado uma série de aquisições de ativos e projetos de mineração no país.

"Por tudo que estamos vendo nos últimos dias, não dá para descartar que, em algum momento, os Estados Unidos queiram impor algum tipo de sanção a países que fazem negócios com a China, o que afetaria o Brasil. Isso, claro, para reduzir a influência da China na região, " disse César.

Eleições no Brasil

A crescente influência dos Estados Unidos na América Latina também coloca analistas em alerta para uma potencial interferência no cenário político. 

No Brasil, o tema é particularmente sensível, à medida que, em outubro, o país terá eleições para presidente, governadores, deputados e senadores.

O atual presidente de esquerda do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, já anunciou intenção de se candidatar à reeleição. Enquanto isso, partidos de direita no país, desde a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado nas eleições anteriores, têm encontrado dificuldades para articular um nome de consenso.

"Hoje, trabalhamos com uma probabilidade de cerca de 60% de reeleição do presidente Lula, que segue como favorito", disse à BNamericas Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria de risco político Eurasia Group. 

"A questão venezuelana pode ter alguma ressonância no discurso da oposição do Brasil e pesquisas mostram apoio relevante à intervenção americana na América Latina. Isso pode ajudar taticamente a oposição no curto prazo, mas não deve alterar de forma estrutural o cenário eleitoral," disse.

Lula, que historicamente foi um apoiador de Maduro, criticou a operação dos Estados Unidos na Venezuela. Já políticos de direita no Brasil, como o governador do estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, cotado como potencial candidato às eleições presidenciais, comemoraram a captura.

As relações políticas entre Brasil e Estados Unidos têm sido marcadas por uma série de nuances desde que Trump assumiu o governo. Em meados do ano passado, Trump impôs uma tarifa de 50% sobre exportações brasileiras aos Estados Unidos, sob a alegação de que o processo judicial contra Bolsonaro representava uma perseguição política.

Com o tempo, o tom tenso deu espaço a uma relação mais equilibrada, com Trump e Lula abrindo espaço para diálogo, o que resultou em uma série de exceções às tarifas. Atualmente, mesmo após condenar a captura de Maduro pelos Estados Unidos, Lula evitou fazer críticas diretas a Trump.

Analistas veem isso como uma tática de Lula para tentar evitar que a administração Trump atue de forma direta nas eleições no Brasil, apoiando candidatos de direita.

Tal tática de Lula ganha força à medida que a administração Trump dá sinais recentes de que não é necessariamente sensível a apoiar políticos de direita, mostrando-se aberta a trabalhar junto com membros da então administração de Maduro, que agora estão assumindo a Venezuela.

Infraestrutura

Enquanto isso, um dos setores mais dinâmicos do Brasil em termos de investimentos e novos contratos, a infraestrutura, deve perceber pouco impacto das questões geopolíticas.

"Não temos registrado, neste momento, nenhuma sinalização de dificuldades no avanço da agenda de leilões, que já está bastante robusta para o primeiro trimestre deste ano", Roberto Guimarães, diretor de Planejamento e Economia da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib),  disse à BNamericas.

"Os investimentos em infraestrutura são decisões que olham para horizontes de vinte a trinta anos, por isso há uma maior resiliência desses investidores", acrescentou Guimarães.

O país terá pelo menos 11 leilões de concessões e PPPs, com destaque para os setores de infraestrutura e saneamento, ao longo do primeiro trimestre deste ano. Até agora, os leilões já agendados devem gerar investimentos projetados de cerca de R$34 bilhões (bi).

 
Fonte: BN Americas
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 09/01/2026

 

2025: o ano em que o aço virou arma geopolítica nas Américas (e além)

O ano de 2025 marcou uma virada estrutural para a indústria siderúrgica nas Américas, impulsionada principalmente pelo retorno agressivo da política “America First” de Donald Trump. Tarifas deixaram de ser apenas instrumentos comerciais e passaram a funcionar como ferramentas centrais de reengenharia das cadeias globais de suprimento.

Desde o início do ano, o mercado já antecipava um endurecimento. Executivos de siderúrgicas norte-americanas defendiam abertamente tarifas mais severas, especialmente contra Canadá e México. Em março, essa expectativa se materializou: os EUA reinstauraram tarifas de 25% sobre todo o aço e alumínio, eliminando exceções regionais sob a Seção 232. Poucos meses depois, o patamar dobrou para 50%, fechando de fato o mercado americano às importações.

A escalada não parou aí. Automóveis passaram a ser tarifados, produtos derivados de aço foram incluídos em massa, e tarifas “recíprocas” foram impostas a quase todos os parceiros comerciais, sob poderes emergenciais raramente usados. O efeito imediato foi uma elevação artificial dos preços internos — sustentada por proteção, não por demanda.

EUA: proteção máxima, demanda fraca

Apesar do discurso de fortalecimento da indústria doméstica, a realidade foi mais ambígua. Mesmo com tarifas recordes, empresas como a Cleveland-Cliffs paralisaram usinas por falta de demanda. O setor de tubos OCTG, o automotivo e o agrícola sentiram o impacto direto dos custos mais altos e da retração do consumo.

As montadoras americanas sofreram perdas relevantes em 2025, num setor que responde por quase metade da demanda de aços planos e longos especiais. Ao mesmo tempo, projetos de reshoring avançaram — como o investimento bilionário da Hyundai na Geórgia — evidenciando que as tarifas funcionaram mais como indutoras de localização industrial do que como motor de crescimento imediato.

Canadá e México: danos colaterais severos

Se nos EUA os efeitos foram mistos, no Canadá foram devastadores. Tarifas de 50% praticamente expulsaram o aço canadense do mercado americano. A Algoma Steel tornou-se símbolo da crise: prejuízo bilionário, custos tarifários elevados e paralisação de altos-fornos. O episódio culminou em litígios comerciais e no colapso de contratos históricos.

No setor automotivo canadense, decisões estratégicas das montadoras passaram a privilegiar os EUA, colocando milhares de empregos em risco em Ontário. As relações comerciais entre Washington e Ottawa se deterioraram rapidamente, culminando na suspensão de negociações e novas tarifas adicionais.

Consolidação e sobrevivência

Com margens comprimidas e volatilidade extrema, fusões e aquisições aceleraram. Distribuidores e centros de serviços buscaram escala e proteção, enquanto siderúrgicas recorreram a parcerias estratégicas como tábua de salvação financeira. A aliança Cleveland-Cliffs–POSCO exemplificou esse movimento.

O efeito dominó: Europa e América Latina

O protecionismo americano reverberou globalmente. A União Europeia respondeu com um pacote ainda mais rígido de salvaguardas, cortes drásticos em cotas de importação e uma rede crescente de medidas antidumping. O CBAM adicionou uma camada extra de custo e complexidade, tornando a importação de aço um exercício quase proibitivo.

No Brasil e na América Latina, o temor de desvio de comércio reacendeu políticas defensivas. Ainda assim, o aço chinês continuou a aparecer, muitas vezes por vias informais ou com documentação manipulada — um problema que líderes regionais passaram a tratar como estrutural.

Descarbonização: ambição encontra realidade

Enquanto governos exigem aço verde, a conta não fecha. Custos elevados de energia, permissões de carbono acima de €80/t e hidrogênio verde a preços proibitivos levaram siderúrgicas europeias a rever ou cancelar projetos de DRI. A transição energética segue no discurso, mas o ritmo desacelerou drasticamente.

2026 no horizonte: mais regras, menos clareza

Com novas salvaguardas, CBAM em pleno funcionamento e demanda real ainda frágil, o mercado europeu entra em 2026 mais protegido — e mais caro. Os preços sobem não por consumo, mas por medo regulatório. A pergunta central permanece sem resposta: os produtores vão aumentar a utilização de capacidade, mesmo pagando mais por carbono e energia?

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 09/01/2026

 

Trump ordena saída dos EUA de mais de 60 organizações internacionais

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quarta-feira (7) uma proclamação que determina a retirada do país de 35 organizações não vinculadas às Nações Unidas e de outras 31 entidades que integram o sistema da ONU.

De acordo com comunicado divulgado pela Casa Branca, a decisão foi tomada porque, na avaliação do governo americano, esses organismos “operam contrariamente aos interesses nacionais dos Estados Unidos”.

A maioria das entidades afetadas é composta por agências, comissões e painéis consultivos ligados à ONU que atuam em áreas como mudanças climáticas, direitos trabalhistas e políticas sociais. O governo Trump classifica essas iniciativas como alinhadas a pautas de diversidade e ao que define como agenda “woke”.

Entre as organizações das quais os EUA anunciaram a saída estão a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

O governo americano já havia suspendido anteriormente o apoio a outras instituições internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Desde o início do atual mandato, Trump tem adotado uma postura mais seletiva em relação ao pagamento das contribuições financeiras à ONU, priorizando operações e agências que considera alinhadas à sua agenda política e deixando de financiar aquelas que, segundo o governo, não atendem mais aos interesses dos Estados Unidos.

“Acho que o que estamos vendo é a cristalização da abordagem dos EUA ao multilateralismo, que é ‘ou do meu jeito ou nada feito’”, afirmou Daniel Forti, analista sênior sobre a ONU no International Crisis Group. Segundo ele, trata-se de uma visão que busca a cooperação internacional exclusivamente nos termos de Washington.

 
Fonte: Diário Indústria & Comércio
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 08/01/2026

 

Como o Brasil pode se tornar protagonista global na corrida dos minerais críticos?

Para ser protagonista na produção de minerais e metais críticos, o Brasil tem de acelerar medidas de apoio e regulamentações. Só assim poderá tirar proveito do ciclo de bonança de demanda global que se projeta para os próximos cinco a dez anos. Essa categoria de minerais ganhou evidência no mundo devido a suas aplicações estratégicas na indústria de alta tecnologia e na transição energética. O País está qualificado, pois detém reservas importantes de terras raras, nióbio, lítio e grafite e, em menor peso, níquel e cobre.

Eis a visão de especialistas, como Patrícia Seoane, sócia e líder do setor de Mineração e Siderurgia da PwC no Brasil. “O Brasil está bem atrasado na pauta de minerais críticos”, disse em entrevista ao Estadão. Quem também compartilha essa visão é Frederico Bredan, que tem longa vivência na área de mineração e foi nomeado diretor executivo da Associação de Minerais Críticos (AMC).

A entidade, criada em novembro, começou reunindo nove empresas desse segmento no País, a maioria estrangeiras e praticamente todas com projetos em fase pré-operacional no Brasil.

Na avaliação de Seoane, o país que detém reservas desses minerais terá no futuro grande poder político, se criar um arcabouço estratégico e dispor de condições para avançar na cadeia produtiva. Não à toa, vimos durante 2025 um grande embate entre Estados Unidos e China pelo controle da oferta de minerais estratégicos, caso de ímãs obtidos de elementos de terras raras.

O país asiático domina mais de 60% da produção e cerca de 85% da capacidade global de processamento de terras raras e grande parte das etapas intermediárias de minerais como grafita, vanádio e lítio, aponta estudo da PwC. A República Democrática do Congo, por sua vez, responde por mais de 60% da produção mundial de cobalto. E a Indonésia se tornou um player mundial de peso em níquel.

O Brasil é dono da segunda maior reserva de terras raras, porém só conta com uma mina em estágio inicial de produção, no norte de Goiás. Do concentrado, para se obter os principais ETR, tem de enviar o material para a separação e o refino serem feitos em instalações chinesas que dispõem da tecnologia.

O País está entre os dez principais produtores de níquel, manganês, nióbio, ferro e bauxita — e tem ampliado sua relevância com o crescimento acelerado da produção de lítio (já figura como o quinto maior produtor e tem vários outros projetos a caminho), grafita natural, terras raras (23% das reservas), vanádio e cobre.

Bedran, da AMC, diz ser este um momento — geopolítico e econômico — oportuno para alavancar os projetos em curso no País. “O grande desafio é dar celeridade a esses projetos. Temos um ciclo de três a quatro anos para começar a ofertar esse material ao mercado”, afirma.

Segundo o executivo da AMC, países da África, o Canadá e a Austrália dão maior previsibilidade ao investidor, enquanto no Brasil não é possível saber quando uma licença (prévia ou de instalação) vai sair. “É crucial que, em 2029, todas as empresas com investimento em curso estejam produzindo.”

Desde 2024, no Congresso Nacional está em discussão projetos de lei para criar uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, visando incentivar a exploração e o beneficiamento de minérios como lítio, terras raras e grafite, essenciais para a transição energética e tecnologia. Há propostas de benefícios fiscais, fundos de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e um marco regulatório para agilizar licenciamentos. Estão em tramitação na Câmara o PL 2780/2024 e no Senado o PL 4443/2025.

Um fundo para o segmento de minerais críticos e estratégico (Fundo de Investimento em Participações-FIP), no valor de R$ 1 bilhão, foi criado pelo BNDES, com a Vale, no ano passado. É voltado para empresas júnior e de médio porte que atuam na pesquisa, desenvolvimento e implantação de minas de minerais essenciais à transição energética e descarbonização.

O banco aprovou R$ 250 milhões; e a mineradora, o mesmo valor. Duas gestoras foram selecionadas para fazer a captação dos demais R$ 500 milhões e atrair projetos de investidores.

Seoane destaca a definição de uma lista essencial de minerais críticos dentro de uma política pública voltada ao setor. “É chave a determinação de um direcionamento, sob o ponto de vista de uma cadeia produtiva, para avançar além da extração e produção de concentrado”. Avalia que tem de atrair investimentos nas etapas de separação e refino, que estão sob o controle da China.

Por exemplo, uma tonelada de minério de lítio (espodumênio) com teor de 6% pode ser exportada por cerca de US$ 800, enquanto o hidróxido de lítio grau bateria pode ultrapassar US$ 8 mil. “A escolha entre exportar minério e exportar inovação define a receita de curto prazo e o posicionamento estratégico”, afirma a especialista.

A executiva e sócia da PwC cita o exemplo da Indonésia. Era um mero produtor de níquel. Ao se montar plano estratégico, com atração de investimentos e restrições à exportação de concentrado do metal, tornou-se um participante de peso no mercado mundial. De 2019 a 2024, houve investimentos de US$ 2,3 bilhões e saiu de duas para 60 unidades industriais de processamento do níquel extraído. A Indonésia, atualmente, responde por cerca de dois terços da oferta mundial.

Iniciativas como o fundo do BNDES, de financiamento a baixo custo, a aprovação de um Plano Nacional de Mineração-2050 e regulamentações legais são consideradas essenciais para se ter um setor competitivo, além de segurança jurídica, capacitação de mão de obra, malha logística para escoamento da produção, mapeamento geológico e menor burocracia nos licenciamentos ambientais. “Um plano estratégico é crucial para oferecer maior segurança ao investidor”, afirma Seoane.

A nova onda mineral

A demanda global por minerais como lítio, grafita, cobalto, níquel e terras raras deverá crescer de forma acentuada até 2040, diz o estudo da PwC, citando dados da Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês). Para alguns minerais, a previsão é multiplicar-se até quatro vezes em relação aos níveis atuais de consumo.

Para chegar ao protagonismo no mercado de minerais críticos, exige-se mais do que riqueza mineral. Há desafios logísticos, regulatórios e tecnológicos, apontam os especialistas da PWC, além de agregar valor à produção, superando o modelo de exportação primária.

Qual é o papel desses recursos minerais?

De forma sucinta, esses recursos minerais classificados como críticos, estratégicos e raros são associados a suprimento e importância industrial decisiva; uso em aplicações sensíveis à segurança nacional e autonomia tecnológica; e abundância relativa na natureza (os raros). São bens essenciais na transição para uma economia de baixo carbono, que depende de inovação tecnológica, decisões políticas, capital financeiro e recursos minerais, destaca o estudo.

Na transição energética, o lítio é elemento-chave das baterias de íon-lítio, utilizadas em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia estacionária. O cobalto vai nos cátodos das baterias de íon-lítio devido à alta densidade energética e estabilidade térmica, enquanto o cobre está presente na eletrificação, em geral, em razão da alta condutividade elétrica — de motores elétricos à infraestrutura de recarga.

Menos conhecida, a grafita (natural ou sintética) é o principal material para fabricação de ânodos de baterias de íon-lítio. O velho conhecido manganês, presente em pilhas e em ligas de aço, ganhou evidência ao ser empregado em químicas emergentes de baterias de carros elétricos que têm lítio ou níquel-cobalto.

O níquel está em ligas metálicas e, com destaque, em baterias de alta performance para carros elétricos. O vanádio sobressai pelo uso em baterias de longa vida útil para armazenamento estacionário de energia renovável.

As terras raras, mineral alvo de disputa entre as duas grandes potências do mundo, EUA e China, e cobiçado por outras de alta relevância (as europeias) têm quatro dos 17 elementos considerados mais críticos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. São usados na produção de ímãs permanentes, os quais têm aplicações na fabricação de turbinas eólicas, além de equipamentos sensíveis de defesa militar e diversas outras aplicações industriais.

O futuro da mineração será determinado por quem conseguir antecipar as grandes transformações já em curso. Segundo análise da PwC, sete megatendências moldarão o setor até 2035:

Crescimento populacional e urbanização;
Transição energética;
Impactos ambientais e climáticos;
Tecnologia, inovação e automação;
Capital humano;
Acesso a financiamento; e
Política e regulação governamental.
“As nações industrializadas têm promovido políticas voltadas à independência estratégica de recursos, buscando diversificar fornecedores e fomentar cadeias de valor locais ou regionais com maior valor agregado. É dentro dessa nova lógica que o valor dos minerais críticos migra da lavra para o refino, a transformação e a integração tecnológica”, destaca o estudo.

O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) estima que projetos de minerais críticos deverão receber cerca de R$ 100 bilhões de investimentos entre 2025 e 2029 no Brasil. Para a PwC, o País está diante de uma oportunidade rara: ser ao mesmo tempo potência mineral e ator relevante na construção de cadeias industriais de baixo carbono. Porém, conclui, isso exige estratégia, coordenação e ambição industrial.

Nova porta-voz no setor

A AMC, que reúne empresas com investimentos em minerais críticos no Brasil, terá um papel de porta-voz desse segmento, com a experiência técnica de que dispõe, afirma o diretor executivo, Frederico Bredan.

Ele elege três pautas prioritárias: acesso a linhas de financiamento (o BNDES dispõe de linhas, mas empresas em fase pré-operacional não conseguem dar as garantias exigidas); agregar valor na cadeia de produção (uma forma são benefícios fiscais para atrair investimento) e discussão sobre o processo de licenciamento ambiental, envolvendo todas as entidades ( de órgãos estaduais a institutos ligados ao meio ambiente).

A entidade foi formada com empresas em fase de investimento na exploração: em terras raras, Aclara, em Goiás, e Meteoric e Viridis, em Minas Gerais; em lítio (PLS, da Austrália, e Lithium Ionic, do Canadá); em níquel, Atantic Nickel e Centaurus; e em grafite, Grapchcoa e Graph+. A Atlantic Nickel é a única companhia em produção, de níquel sulfetado, e tem um projeto de expansão da capacidade nas suas operações na Bahia.

Na avaliação de Bedran, o cenário internacional para os minerais críticos é positivo. “A demanda é três a quatro vezes o volume ofertado. Em ETR, há uma disputa por suprimento por parte de consumidores”, afirma, lembrando que o Ocidente está tentando se posicionar para ser mais protagonista nesse mercado.

O lítio vive um momento de dificuldade no que se refere a preços, com queda superior a 80% desde meados de 2023 devido à entrada de novos ofertantes e à desaceleração na fabricação de carros elétricos.

A AMC previa, em dezembro, a adesão de mais seis empresas à entidade, como a australiana St. George Mining, que tem um projeto para extração de nióbio e terras raras em Araxá (MG).

 
Fonte: Estadão
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 08/01/2026