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Como a China pode proibir qualquer país de participar da economia moderna

Os novos controles de exportação de terras raras de Pequim vão muito além de restringir o acesso a um insumo tecnológico crítico, de acordo com um ex-conselheiro da Casa Branca.

Na quinta-feira, 9/10, o ministério do comércio da China informou que, a partir de 1? de dezembro, será exigida uma licença para que empresas estrangeiras exportem produtos com mais de 0,1% de terras raras originárias da China ou que sejam fabricados com tecnologia de produção chinesa.

Isso levou o Presidente Donald Trump a anunciar na sexta-feira que imporia uma tarifa adicional de 100% sobre a China e limitaria as exportações de software dos EUA. Mas, embora parecesse ser apenas o mais recente “olho por olho” na guerra comercial EUA-China, há muito mais em jogo.

“Não devemos perder o ponto fundamental sobre as terras raras: a China elaborou uma política que lhe dá o poder de proibir qualquer país na Terra de participar da economia moderna”, escreveu Dean Ball, que serviu como conselheiro sênior no Gabinete de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca, no X no sábado.

“Eles podem fazer isso porque construíram diligentemente uma capacidade industrial que mais ninguém teve a coragem de construir. Eles estavam dispostos a tolerar custos — financeiros, ambientais e outros — para fazê-lo. Agora, o resto do mundo deve fazer o mesmo.”

A China detém um domínio sobre as terras raras, produzindo mais de 90% das terras raras processadas e ímãs de terras raras do mundo. Elas são usadas em todos os setores, desde o setor de tecnologia até montadoras de automóveis e empreiteiros de defesa.

Elas são tão críticas que as montadoras de carros dos EUA reduziram a produção devido à escassez de terras raras, já que a China tem usado o fornecimento como alavanca para contrapor as tarifas de Trump.

Embora as negociações em curso entre Washington e Pequim tivessem aliviado o acesso de alguma forma, as tensões comerciais estavam latentes antes do mais recente surto na sexta-feira.

Por exemplo, os EUA se moveram para restringir as exportações de produtos relacionados a semicondutores para a China por parte de outros países. E, na semana passada, os EUA anunciaram taxas portuárias sobre navios chineses, levando Pequim a impor uma taxa semelhante sobre navios americanos que atracam em portos chineses. A China também lançou uma investigação antitruste contra a fabricante de chips americana Qualcomm.

“Em outras palavras, os Estados Unidos podem cortar o acesso da China aos chips de hoje, mas a China pode tornar muito mais difícil construir os chips e outras tecnologias avançadas do amanhã”, disse Michael Froman, presidente do Council on Foreign Relations e ex-Representante Comercial dos EUA, em uma publicação no Substack na sexta-feira.

O economista Robin Brooks, membro sênior da Brookings Institution, observou que os mercados esperam que a nova ameaça de tarifas de Trump contra a China saia pela culatra para os EUA.

Mas ele rejeitou a ideia de que a China tem a vantagem sobre os EUA, dizendo em uma publicação no domingo que seus exportadores estão sofrendo quedas acentuadas nos lucros devido às tarifas de Trump.

“Isso significa que a China pode estar usando terras raras para escalar o impasse com os EUA porque não tem outra escolha”, explicou Brooks. “O impacto em seu setor de exportação é simplesmente muito considerável, tornando necessário aumentar as apostas em um esforço para derrubar as tarifas dos EUA.”

Por sua vez, Pequim manteve-se desafiante, com o ministério do comércio dizendo no domingo que a China não quer uma guerra de tarifas, mas também não tem medo de uma. Ele também afirmou que os controles de exportação não são uma proibição de remessas de terras raras, mas sim um direito soberano.

O ex-conselheiro da Casa Branca Ball, que agora é membro sênior da Foundation for American Innovation, disse que os rígidos controles de terras raras da China representam uma oportunidade para o resto do mundo construir uma nova cadeia de suprimentos que possa resistir à instrumentalização por qualquer país.

“Lembrem-se sempre que a oferta é elástica”, acrescentou. “Se nossas vidas dependerem disso, podemos superar muitos desafios muito mais rapidamente do que os planejadores de políticas em Pequim, Bruxelas e Washington percebem.”

 
Fonte: Infomoney
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 14/10/2025

 

CSN (CSNA3) sinaliza recuperação com suporte técnico e preços do aço

As ações da CSN (BOV:CSNA3) abriram a semana com leve valorização, refletindo tanto fatores técnicos quanto fundamentos do setor siderúrgico. No gráfico diário, a formação de Doji em 10/10 indica indecisão do mercado, mas o preço encontra suporte sólido próximo de R$ 6,72.

No intraday de 15 minutos, o ativo apresentou Alicates de Fundo e consolidação lateral, mostrando que compradores e vendedores buscam equilíbrio após recentes quedas acentuadas.

O Parabólico SAR aponta início de sinal de compra no curto prazo, enquanto médias móveis de 9 e 21 períodos indicam leve reversão, mas ainda sem confirmação de tendência definitiva.

O setor siderúrgico vem reagindo positivamente à expectativa de aumento da demanda interna e à estabilização do preço do aço. A CSN, com produção diversificada em aço e mineração, tende a se beneficiar desse cenário.

Recentes relatórios da companhia mostraram melhora na margem de EBITDA, refletindo ajuste nos custos e aumento da eficiência operacional. Isso reforça a visão de que CSNA3 tem fundamentos sólidos, mesmo em cenários de volatilidade.

No gráfico diário, indicadores como o RSI em sobrevendido e o rompimento da mínima recente sugerem potencial para retomada da alta, principalmente se o preço se manter acima do suporte.

No intraday, os movimentos de compra indicados pelo Momento e pelo SAR podem oferecer oportunidades para traders buscando operações de scalping ou day trade.

Apesar do cenário favorável, investidores devem monitorar preços internacionais do aço e variações no câmbio, que impactam diretamente nos custos de insumos e competitividade da CSN.

Analistas destacam que a combinação de suporte técnico, sinais de reversão e fundamentos robustos cria um cenário interessante para quem busca exposição às siderúrgicas, com atenção a níveis-chave de resistência.

O risco de pressão vendedora permanece caso ocorra frustração nos resultados trimestrais ou mudanças na política econômica que afetem o setor de commodities.

Em resumo, CSNA3 apresenta sinais técnicos de recuperação e fundamentos sólidos no setor siderúrgico, tornando-a um ativo atrativo tanto para traders de curto prazo quanto para investidores posicionais.

 
Fonte: ADVFN
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 14/10/2025

 

Instituto Aço Brasil preocupado com proposta da União Europeia

A proposta da União Europeia em reduzir as cotas de importações de aço pela metade e aumentar as tarifas em 50% preocupa o Instituto Aço Brasil. A medida eleva o grau de urgência com que o Brasil deve reagir, buscando tornar mais efetiva a aplicação de mecanismos de defesas comerciais em relação ao segmento. “Trata-se de mais um grande ator global do aço que recorre a uma dura medida para tentar preservar a capacidade de suas usinas, de investir e gerar empregos, depois dos Estados Unidos e do Canadá”, afirma o instituto. A proposta da União Europeia é capaz de acentuar o risco de desvios de comércio e o desequilíbrio do já sobreofertado mercado internacional.

A medida tem consequência imediata para o Brasil, como o aumento da vulnerabilidade da indústria do aço frente à onda predatória de importações, tornando ainda mais delicada sua já preocupante situação. Sem dispor de defesa comercial condizente com a gravidade do quadro global de guerra comercial desleal no setor, o Brasil vai se consolidando cada vez mais como destino preferencial do aço vendido abaixo do preço de custo, que não encontra mais espaço em mercados com defesas aplicadas de forma mais efetiva. Atualmente, as importações corroem um terço do mercado brasileiro de aço. Nos oito primeiros meses de 2025, as importações de aço laminado ao Brasil cresceram 30% em relação a igual período de 2024, e a previsão é de aumento de 32,2% no ano, o triplo da média histórica. A alta ocorre mesmo após o Brasil ter reforçado as defesas comerciais em relação a 14 NCMs (Nomenclaturas Comuns do Mercosul), de 273 disponíveis, com a renovação do mecanismo Cota-Tarifa.

O Aço Brasil afirma reconhecer os esforços do governo para conter as importações predatórias, mas, lamentavelmente, o produto vendido a preços desleais continua entrando no mercadobrasileiro, facilitado por acordos comerciais, regimes especiais, incentivos estaduais e fraudes na classificação de produtos. O Instituto Aço Brasil encerra a nota defendendo a necessidade imediata de o Brasil reagir, por entender que a situação “ameaça não só a indústria do aço, mas toda a cadeia produtiva metalmecânica, bem como sua capacidade de contribuir para o desenvolvimento do País, por meio dos investimentos realizados e empregos gerados, e para a segurança nacional”.

 
Fonte: Brasil Mineral
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 10/10/2025

 

Consórcio de máquinas agrícolas ultrapassa caminhões e movimenta bilhões no país

O segmento de consórcio de máquinas agrícolas assumiu, pela primeira vez, a liderança entre os veículos pesados no Brasil, ultrapassando os caminhões na preferência dos produtores rurais. O resultado reflete o fortalecimento do agronegócio e o aumento do interesse por alternativas de investimento mais acessíveis e planejadas.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), referentes a julho de 2025, o consórcio de máquinas agrícolas passou a representar 51% das cotas ativas, superando os caminhões, com 41%, e outros equipamentos, com 8%.

Entre janeiro e julho deste ano, o segmento movimentou R$ 14,03 bilhões em créditos, alta de 14% em relação ao mesmo período de 2024. O volume de créditos disponibilizados avançou 43,3%, totalizando R$ 6,38 bilhões. Também houve crescimento nas contemplações, que chegaram a 27,9 mil consorciados — um aumento de 15,2%.

Entre as empresas que acompanham esse movimento está a Agritech, com um portfólio que inclui tratores, microtratores e implementos agrícolas. Segundo o coordenador-geral do Consórcio Nacional Agritech, Elcio Guelere, entre janeiro e setembro deste ano a modalidade registrou crescimento de 42% nos créditos comercializados e de 38% nos créditos disponibilizados, além de um aumento de 51% no número de contemplações.

Para Guelere, o avanço está diretamente ligado à percepção do pequeno e médio produtor da importância da mecanização do campo com equipamentos modernos e que atendam sua demanda.

“O consórcio se tornou um instrumento eficiente para garantir acesso à inovação no campo, oferecendo uma alternativa robusta frente aos custos elevados do crédito tradicional”, afirma.

A série de tratores 1155 Plus foi desenvolvida para atender às demandas do produtor familiar e é a mais adquirida pelos consorciados do Consórcio Nacional Agritech. Os modelos se destacam pela versatilidade no uso em diferentes culturas, pela compatibilidade com Biodiesel B8 e pela leveza que reduz a compactação do solo.

Equipados com motores Yanmar, oferecem potência e baixo nível de ruído. O raio de giro de 2.250 mm, o menor da categoria, facilita manobras em áreas reduzidas. A linha está disponível nas versões standard, cabinado, cafeeiro estreito, cafeeiro super estreito, super tração, parreira, parreira super estreito, arrozeiro e cultivo.

O gerente de Vendas e Marketing da Agritech, Cesar Roberto Guimarães de Oliveira, ressalta que o Consórcio Nacional Agritech tem ganhado relevância entre pequenos e médios produtores.

Segundo ele, o consórcio amplia o acesso aos equipamentos da marca e se firma como uma ótima alternativa em meio a um cenário de pressões sobre os custos e imprevisibilidade do mercado. “O mecanismo oferece previsibilidade e flexibilidade ao agricultor familiar, fatores decisivos para manter a produtividade e a sustentabilidade do negócio”, avalia.

 
Fonte: Portal Máquinas Agrícolas
Seção: Agro, Máquinas & Equipamentos
Publicação: 10/10/2025

 

UE apresenta medidas para 'salvar' seu setor do aço

A União Europeia apresentou, nesta terça-feira (7), propostas para dobrar as tarifas aduaneiras à importação de aço, imitando o presidente americano, Donald Trump, em uma tentativa de proteger a indústria do bloco - em dificuldades - da concorrência chinesa de baixo custo.

"Em 2024, foram eliminados 18 mil postos de trabalho diretos na indústria siderúrgica, o que é excessivo e devia cessar", ressaltou o vice-presidente da Comissão Europeia (braço executivo do bloco), Stéphane Séjourné, ao apresentar estas medidas à imprensa.

Em primeiro lugar, a Comissão pretende reduzir em 47% as cotas de aço estrangeiro que podem ser importadas a cada ano para a UE livres de tarifas.

Estas cotas livres de impostos seriam reduzidas, assim, a 18,3 milhões de toneladas, ou seja, o volume total de aço que a União Europeia importava em 2013, antes que o mercado se visse desequilibrado de forma duradoura pelo desenvolvimento de um importante excesso de capacidade de produção.

"Em nome de todos os funcionários da AcelorMittal na Europa, me sinto sinceramente aliviado", disse Aditya Mittal, diretor da gigante da siderurgia, agradecendo à UE por "ter compreendido a gravidade da situação e agido com firmeza e de forma adequada".

"O excesso de capacidade mundial é cinco vezes superior ao consumo anual de aço da UE", lembrou o Comissário do Comércio, Marcos Sefcovic.

Além disso, as importações que superarem as cotas terão as tarifas dobradas, passando de 25% a 50%.

Deste modo, vão atingir níveis similares aos impostos por Estados Unidos e Canadá, segundo as propostas da Comissão, que deverão ser validadas pelos 27 países-membros da UE e pelo Parlamento Europeu.

Por último, os importadores de produtos de aço transformado serão obrigados a declarar em qual país o metal inicial "foi fundido e moldado", uma cláusula que visa a evitar evasões das barreiras tarifárias.

"À beira do colapso" 

Este novo plano para "salvar nossas siderúrgicas e empregos", segundo Séjourné, substituirá a "cláusula de salvaguarda" estabelecida em 2019 pela UE para ajudar os produtores europeus, que expira em meados de 2026.

"A indústria siderúrgica europeia estava à beira do colapso. Vamos protegê-la para que possa investir, se descarbonizar e se tornar competitiva", havia prometido anteriormente o vice-presidente da Comissão antes dos anúncios.

O setor siderúrgico recebeu imediatamente com satisfação o plano e pediu que seja aplicado o quanto antes. A organização profissional do setor, a Eurofer, o qualificou de um "salva-vidas".

Bruxelas quer implementar estas medidas o quanto antes e no mais tardar antes de expirarem as medidas de proteção existentes, em 1º de julho de 2026.

"Devemos agir agora", insistiu, em um comunicado, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, pedindo aos 27 membros da UE e aos eurodeputados que aprovem as medidas "rapidamente".

Bruxelas está negociando em paralelo com Washington uma isenção das tarifas ao aço europeu, a fim de que Estados Unidos e União Europeia se apoiem mutuamente para resistir à pressão da China.

Indústria desestabilizada 

Os números falam por si: no ano passado, a China fabricou mais de 1 bilhão de toneladas de aço, ou seja, mais da metade da produção mundial, muito acima da Índia (149 milhões), do Japão (84 milhões) e dos Estados Unidos (79 milhões), segundo dados da organização profissional World Steel.

Comparativamente, os países europeus ficaram muito atrás: a Alemanha produziu apenas 37 milhões de toneladas; a Espanha, 12; e a França, menos de 11.

A indústria europeia há anos sofre forte desestabilização pela concorrência das fábricas chinesas, que recebem muitas subvenções.

E também sofrem com as enormes capacidades de produção do gigante asiático, que derrubam os preços mundiais.

Juntamente com o aumento dos preços da energia provocada pela guerra na Ucrânia e a frágil demanda na Europa (que reflete as dificuldades de setores como o automobilístico e da construção), estas práticas que a UE considera desleais fizeram as siderúrgicas europeias mergulharem em números negativos.

Como resultado, estas últimas estão multiplicando seus planos de proteção ao emprego e o fechamento de instalações, o que gera o temor de uma reação em cadeia em um setor que conta com 300 mil empregos diretos e 2,5 milhões de indiretos na UE.

Na Alemanha, o conglomerado Thyssenkrupp está considerando inclusive vender sua divisão de aço para a indiana Jindal Steel, enquanto na França, a ArcelorMittal acaba de suprimir 600 postos de trabalho e ameaçou abandonar um importante projeto de descarbonização.

 
Fonte: AFP
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 08/10/2025

 

Após dois meses de tarifaço, efeito nas exportações brasileiras foi menor do que o esperado

Dois meses após a entrada em vigor do tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o impacto na economia brasileira é menor do que o estimado inicialmente. Da pauta de exportações, 44,6%, ou seja, menos da metade dos produtos, estão sob impacto do percentual máximo, de 50%. Outros 29,5% são sobretaxados em menor carga. E há 25,9% de itens que estão isentos.

Os dados são de um monitoramento da Câmera Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), com base na análise da relação comercial dos dois países em 2024, detalhado ao GLOBO a partir de números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

A radiografia do impacto do tarifaço mostra que os produtos-alvo de alíquota máxima são commodities, como café, carne e açúcar, que têm mais facilidade para redirecionar as vendas a outros mercados, explica Fabrizio Panzini, diretor de Políticas Públicas e Relações Governamentais da Amcham Brasil. É esse ponto que reforça o impacto menor que o previsto, a capacidade de escoar produção a outros países.

Efeito setorial e regional

No setor de café, as exportações para o mercado americano, o maior do mundo para a bebida, despencaram 56% em setembro em relação a 2024, e devem zerar nos próximos dias, enquanto países como a Alemanha se consolidam como destinos alternativos.

Marcos Matos, diretor executivo do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), diz que o tarifaço provocou forte alta nos preços para o consumidor americano. Em 30 de julho, o preço do café era de 284 centavos de dólar por libra-peso. Atualmente, está em torno de 380 centavos:

— Isso causou uma grande realocação do mercado. A Colômbia exporta 40% para os EUA e 20% para a Europa. O Brasil, 16% para os EUA e 50% para a Europa. Aqueles 20% da Colômbia para a Europa vão reduzir e eles vão focar nos EUA. E o Brasil vai focar em outros países. Vamos ver o volume de vendas aos EUA cair abruptamente. Tende a zerar neste início de mês.

Em outros setores, porém, o impacto das tarifas pesa e se traduz em estoques lotados, pressão nos custos e demissões enquanto se busca crédito e novos mercados. Na indústria da madeira, já são mais de 4 mil trabalhadores dispensados. Em outras áreas, que dependem menos das exportações aos EUA, a saída é ampliar as vendas no mercado interno.
 

 
 

— O impacto é muito importante principalmente quando se olha setorial e regionalmente. Fora das commodities, o restante acaba ficando muito mais fragilizado, como o mel do Nordeste, a madeira e os móveis do Sul e as máquinas e equipamentos do Sudeste. É um grupo que a tarifa vai derrubar as exportações caso não seja feita alguma ação — avalia Panzini, da Amcham Brasil.

Quando se observa o total de exportações brasileiras aos EUA no ano passado, é possível verificar que 74,1% se tornaram alvo este ano de algum tipo de sobretaxa. O grupo formado por commodities foi atingido duplamente, tanto pela tarifa recíproca de 10% anunciada por Trump em abril junto de uma grande tabela de países e números diante das câmeras, quanto pela sobretaxa adicional de 40% que entrou em vigor a partir de agosto. O somatório destas duas categorias resulta na alíquota máxima de 50%.

O grupo formado por produtos como ferro fundido, aviões e suco de laranja foi alvo somente da tarifa recíproca de 10%. E um conjunto minoritário foi onerado com a sobretaxa anunciada em agosto, de 40%, como medicamentos e filé de peixe.

No xadrez tarifário de Trump, há espaço para produtos que foram impactados por tarifas setoriais específicas, previstas no âmbito da Seção 232 da Lei de Expansão do Comércio dos EUA, que permite a imposição de tarifas sobre bens considerados críticos para a segurança nacional. É nesta categoria que se encontram aço, alumínio e cobre, com percentual de 50%, e automóveis e autopeças, com taxa de 25%. Somados, os produtos atingidos por tarifas setoriais chegam a 9,8% da pauta.

Estatísticas mostram o impacto da avalanche de tarifas. Dados do governo federal mostram que, de janeiro a agosto, as exportações aos EUA subiram 1,6% na comparação com o ano passado. A alta, porém, é puxada pelo primeiro semestre: em agosto, as vendas desabaram 18,5%.

No setor de maquinário, os EUA representaram 26,9% das exportações no ano passado. Dados de agosto indicam que a queda nas vendas para o país ainda não afetou todo o setor. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) chegou a prever que as exportações fossem zeradas em setembro, mas as expectativas agora são um pouco mais otimistas.

— Empresas que direcionavam a maior parte das suas exportações para os EUA vão distribuir esses produtos para outros países. Existe essa reestruturação no mercado internacional — destaca Cristina Zanella, diretora de Competitividade, Economia e Estatística da entidade.

Algumas empresas já reduziram as entregas e registraram cancelamentos. A indústria teve aumento de empregos em setembro, já que parte das companhias depende mais do mercado doméstico, mas há casos de quem teve de demitir em razão da redução de contratos e projetos.

Enquanto se aguarda um encontro entre o presidente Lula e Trump, Panzini aponta que há outros caminhos para contornar os efeitos das sobretaxas. Nos EUA, empresas americanas que dependem de produtos brasileiros tentam comover o governo. E representantes do setor produtivo daqui se mobilizaram, como celulose e ferro-gusa, que entraram na lista de isenções.

‘Mais danoso para os EUA’

No início de setembro, o empresário Joesley Batista, acionista da J&F, se encontrou com Trump para discutir a taxação de 50% à carne.

Mas há outras estratégias. Segundo fontes, em móveis e máquinas e equipamentos há casos de empresas se instalando em outros países da América Latina para processar e enviar produtos aos EUA.

Para o tributarista Leonardo Briganti, sócio do escritório Briganti Advogados, o tarifaço foi prejudicial no curtíssimo prazo. China e outros mercados na Ásia e Europa absorveram parte da demanda, mas ainda não se sabe se é movimento pontual. Para o Brasil, diz, a principal preocupação está nos próximos meses:

— O efeito foi mais danoso para os EUA. A ideia de reindustrializar os EUA não aconteceu. Houve alta de custo e há pequeno e médio importador sofrendo.

Nos EUA, de outro lado, o governo Trump discute um socorro de cerca de US$ 10 bilhões ao agronegócio, principalmente aos produtores de soja, que viram o custo aumentar com a guerra tarifária.

Busca de novos clientes

Indústrias de madeira tentam buscar clientes em outros países, mas em algumas empresas fatia importante da produção é dedicada aos EUA. Na paranaense Randa, 100% das molduras fabricadas iam para os EUA, assim como metade do compensado produzido. Com as sobretaxas, o faturamento caiu 30%.

Cerca de 200 funcionários foram dispensados, e os 600 restantes passam por rodízio de férias coletivas de 30 dias. Metade da produção está parada. Além de buscar mercado na América do Sul e Europa, a Randa tenta escoar a produção no mercado interno, mas a oferta é grande e o preço caiu 20%.

— Os estoques estão lotados, e estamos pagando armazéns nos portos, o que traz custo maior. Estamos sangrando o caixa e o empréstimo via BNDES não sai. A pergunta é até quando vamos conseguir segurar — diz o CEO Guilherme Ranssolin.

Na Engemasa, empresa de fundição e usinagem de aços inoxidáveis e ligas especiais que tinha 60% do faturamento vinculado a clientes americanos, os estoques estão parados. Em agosto, ela cortou 10% do quadro de 500 funcionários, e prevê férias coletivas até o fim do ano. A saída foi recorrer ao pacote de socorro do governo federal para empresas afetadas pelo tarifaço. Sócia e diretora administrativa e financeira da Engemasa, Paula Sverzut Stecca explica que realocar produtos é difícil porque são equipamentos feitos sob encomenda e com poucos fabricantes.

— Tentamos produzir para escoar antes do início das taxas, mas vários projetos ficaram para trás. Estamos colocando mercadorias num campo de futebol porque não temos onde armazenar. Tentamos negociar, mas, para essas empresas, um dia parado representa milhões. Podem encontrar um concorrente— diz.

A paulista Fider Pescados vem expandindo as vendas no país, alcançando mais clientes em São Paulo e regiões próximas, além de supermercados e atacadões que antes não atendia. Mas os EUA, destino de 5% das tilápias da empresa, seguem relevantes: a saída para manter o canal de vendas aberto com clientes americanos foi baixar os preços em até 15 %.

As exportações para o país caíram de 150 para 20 toneladas por mês. O restante foi absorvido pelo Brasil e pelo Canadá, que aumentou sua compra de 10 a 15 toneladas para 50 toneladas.

— Começamos a buscar clientes no país que não estavam na nossa carteira. Como é um período de crescimento de consumo, já que o peixe é mais consumido em períodos mais quentes, começamos a ter clima favorável e a demanda no mercado interno cresceu — conta o diretor da Fider, Juliano Kubitza.

 
Fonte: O Globo
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 07/10/2025