Siderurgia latino-americana entra em ano de transição enquanto disputa espaço com importações e excesso global de aço
A indústria siderúrgica da América Latina inicia um período decisivo para seu futuro. Depois de anos marcados por baixo crescimento, aumento das importações e forte pressão sobre a produção regional, o setor entra em 2026 como um ano de transição, preparando terreno para uma recuperação mais consistente prevista para 2027.
A avaliação é da Associação Latino-Americana do Aço (Alacero), que identifica sinais de estabilização do consumo na região, mas alerta que o principal desafio deixou de ser a demanda e passou a ser a capacidade da indústria local de disputar espaço em um mercado cada vez mais pressionado pelo excesso global de produção e pela concorrência de aço subsidiado.
Segundo as projeções da entidade, o consumo aparente de aço na América Latina deverá crescer apenas 0,5% em 2026, alcançando 75,6 milhões de toneladas. Em 2027, a expectativa é de expansão de 2,5%, chegando a 77,5 milhões de toneladas, impulsionada principalmente por investimentos em infraestrutura, recuperação industrial e crescimento das economias da região.
Apesar da melhora esperada, o cenário ainda exige cautela.
O problema não é o consumo, mas a produção
Na avaliação da Alacero, o comportamento do mercado latino-americano vem sendo frequentemente interpretado de forma equivocada.
O consumo de aço permaneceu relativamente estável nos últimos anos, oscilando em torno de 75 milhões de toneladas anuais.
A produção regional, entretanto, perdeu competitividade.
Em 2025, a fabricação de aço bruto na América Latina caiu para aproximadamente 55,7 milhões de toneladas, um dos menores volumes registrados nos últimos quinze anos e inferior inclusive aos níveis observados durante a pandemia.
Ao mesmo tempo, as importações cresceram de forma acelerada.
Hoje, cerca de 41% de todo o aço consumido na região é importado — participação recorde que preocupa produtores locais.
Na prática, quatro de cada dez quilos de aço utilizados na América Latina já vêm do exterior.
Para a entidade, esse movimento pressiona margens, reduz utilização da capacidade instalada e dificulta novos investimentos industriais.
Excesso global continua sendo principal ameaça
O maior desafio identificado pela siderurgia latino-americana permanece fora da região.
Estimativas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que o excesso mundial de capacidade produtiva poderá atingir aproximadamente 721 milhões de toneladas até 2027.
Grande parte desse excedente está concentrada na Ásia, especialmente na China, que responde por mais da metade da produção mundial de aço.
Com a desaceleração da demanda doméstica chinesa, volumes crescentes acabam direcionados aos mercados internacionais, aumentando a competição e pressionando preços.
Além da China, a Alacero também observa crescimento das exportações provenientes de países como Vietnã, Coreia do Sul, Egito e Turquia, ampliando ainda mais a concorrência enfrentada pelas usinas latino-americanas.
Defesa comercial ganha protagonismo
Diante desse cenário, mecanismos de defesa comercial passam a ocupar posição central na estratégia dos países da região.
Brasil, México, Colômbia e Peru vêm adotando medidas destinadas a conter a entrada de produtos considerados objeto de concorrência desleal.
No caso brasileiro, a manutenção do sistema de cotas tarifárias para determinados produtos siderúrgicos é apontada como um dos instrumentos utilizados para preservar parte da competitividade da produção nacional.
Segundo a Alacero, esse tipo de política não busca restringir o comércio internacional, mas criar condições de concorrência mais equilibradas diante de um mercado fortemente impactado por subsídios e excesso de capacidade produtiva.
A preocupação é que, sem mecanismos de proteção, o crescimento futuro da demanda seja atendido principalmente por aço importado, reduzindo ainda mais a participação da indústria regional.
Brasil permanece como principal mercado
Mesmo em um ambiente de crescimento moderado, o Brasil continua ocupando posição de destaque dentro da siderurgia latino-americana.
A previsão é que o consumo aparente brasileiro alcance aproximadamente 27 milhões de toneladas em 2026, com expansão adicional em 2027.
O México também deverá manter trajetória positiva, enquanto a Argentina tende a registrar recuperação mais forte apenas no próximo ano, impulsionada por investimentos em energia e mineração.
Na avaliação da associação, infraestrutura, construção civil, indústria automotiva e fabricação de máquinas continuarão sendo os principais motores da demanda regional.
Gerdau exemplifica estratégia da nova fase
A própria estratégia adotada pela Gerdau ilustra o momento vivido pela siderurgia brasileira.
A companhia definiu 2026 como um ano voltado à redução estrutural de custos, aumento de eficiência operacional e preservação de caixa.
Ao mesmo tempo, mantém expectativa de melhora mais significativa a partir de 2027, quando os efeitos das medidas de defesa comercial deverão aparecer de forma mais consistente e novos projetos industriais, como a expansão da operação de mineração em Minas Gerais, passarão a contribuir para os resultados.
O movimento demonstra que parte das empresas do setor trabalha atualmente com horizonte de recuperação de médio prazo, priorizando disciplina financeira durante a fase de transição.
Infraestrutura pode mudar o cenário
Apesar dos desafios, a Alacero mantém uma visão relativamente otimista para os próximos anos.
O consumo per capita de aço na América Latina permanece próximo de 100 quilos por habitante, significativamente abaixo dos níveis observados em economias desenvolvidas e em países asiáticos durante seus ciclos de industrialização.
Esse diferencial indica amplo potencial de crescimento.
A entidade acredita que investimentos em infraestrutura, habitação, energia, mobilidade e reindustrialização poderão ampliar significativamente a demanda regional ao longo da próxima década.
O principal desafio será garantir que essa expansão beneficie a produção local e fortaleça toda a cadeia siderúrgica latino-americana.
Perspectivas
Para a Alacero, 2026 representa um período de reorganização da indústria.
Empresas concentram esforços na redução de custos, fortalecimento das estratégias comerciais e adaptação a um ambiente internacional marcado por excesso de oferta e crescente competição.
A expectativa é que 2027 marque o início de um novo ciclo de crescimento, sustentado pela recuperação econômica, pelo avanço dos investimentos em infraestrutura e pela maior integração industrial da região.
Mas o sucesso dessa trajetória dependerá de um fator decisivo: transformar o crescimento da demanda em expansão efetiva da produção latino-americana.
Caso contrário, a região corre o risco de assistir ao aumento do consumo de aço sem fortalecer sua própria indústria, ampliando a dependência de importações justamente em um momento em que busca recuperar competitividade e protagonismo industrial no cenário global.
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 25/06/2026