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Tarifaço: Brasil e EUA terão reunião na segunda (31)

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial do governo dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, vão se reunir na próxima segunda-feira (31). O encontro ocorrerá virtualmente dez dias após um novo telefonema entre os presidentes Lula (PT) e Donald Trump, na última sexta (21).

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Rosa e Greer devem tratar das tarifas adicionais impostas pelo governo norte-americano a exportações brasileiras. Somadas, as taxas chegam a uma alíquota de 37,5%.

Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), a ligação entre os mandatários durou 80 minutos e transcorreu "em tom amistoso e cordial".

"O presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível", disse a Secom sobre a conversa.

Os Estados Unidos aplicaram duas tarifas sobre produtos nacionais: uma de 25% após uma investigação concluir que o Brasil emprega práticas consideradas desleais ao comércio norte-americano, com menção ao Pix e a decisões judiciais envolvendo plataformas digitais; e outra de 12,5% após uma apuração apontar suposta falha na fiscalização de trabalho escravo.

A longa lista de exportações isentas da taxação reúne itens como aeronaves, café solúvel, carne bovina, celulose, mel orgânico, petróleo e suco de laranja. Por outro lado, o tarifaço atingiu calçados, etanol, máquinas agrícolas, vestuário e diversos itens industriais e manufaturados.

 
Fonte: SBT News
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 26/08/2026

 

Mercado de aço não prevê aumento de preços no curto prazo

O mercado brasileiro de aço entra no segundo semestre sem perspectiva de aumento de preços no curto prazo, diante de uma demanda ainda enfraquecida e de estoques elevados nas distribuidoras. Segundo o presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), José Carlos Loureiro, as usinas não sinalizaram reajustes para setembro. A recomendação é ter cautela na formação dos estoques. Os dados foram apresentados em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (20).

“Não vejo, nas minhas conversas com pessoas de usina, nenhuma disposição de baixar preço”, afirmou Loureiro. Para ele, também não há indicação de aumentos no próximo mês. A possibilidade de redução, embora não esteja no radar das usinas, tampouco pode ser totalmente descartada, especialmente em negócios pontuais envolvendo lotes específicos ou estoques.

A avaliação do presidente do Inda é baseada no fato de que as vendas das distribuidoras ainda estão abaixo do registrado no ano passado. Em julho, as vendas cresceram 3,9% na comparação com junho, mas o resultado acumulado de janeiro a julho ainda aponta queda de 1,5%. Para Loureiro, a situação permanece difícil e a expectativa é, na melhor hipótese, terminar o ano com o mercado praticamente estável. “A gente tem um grande problema com a nossa indústria, em condições muito difíceis. Então, dificilmente nós vamos ver um crescimento do aço esse ano”, afirmou.

As compras das distribuidoras também avançaram em julho, mas o acumulado do ano permanece negativo, com retração de 2,9%. A perspectiva, segundo Loureiro, é de avanço de aproximadamente 1,5% nas vendas de agosto em relação a julho. Porém, mesmo com esse crescimento, o acumulado deverá continuar em queda.

Um dos principais sinais de pressão sobre o mercado está nos estoques. O nível das distribuidoras permanece em 3,6 meses, patamar considerado elevado pelo Inda. Segundo Loureiro, o nível considerado mais saudável seria entre 2,9 e 3 meses.

A manutenção de estoques elevados se tornou ainda menos atrativa diante do custo Brasil. Com juros básicos em torno de 14% ao ano, manter recursos parados em produtos estocados representa um custo significativo para as empresas. “Seria saudável, e é o que a gente recomenda aos nossos associados, que diminuam esses estoques”, afirmou.

O movimento também está relacionado à expectativa frustrada de aumentos de preços. Segundo Loureiro, os estoques chegaram a subir porque havia uma percepção no mercado de que as usinas poderiam elevar os preços. Diante dessa possibilidade, os distribuidores aumentaram as compras para garantir produtos pelos valores anteriores. Como essa perspectiva de grandes aumentos de preços não se concretizou, a estratégia perdeu atratividade.

Indústria perde espaço

Além da demanda interna mais fraca, o mercado de aço ainda enfrenta a concorrência da importação indireta, incorporada aos produtos industrializados comprados pelo Brasil. De acordo com Loureiro, a importação de produtos industrializados cresceu 19% neste ano em relação ao ano passado, reduzindo o mercado disponível para a indústria nacional.

O fenômeno afeta diretamente segmentos consumidores de aço, como os setores automotivo, de máquinas e equipamentos e de equipamentos agrícolas. No setor automotivo, por exemplo, o aumento das vendas de veículos ocorre, em parte, com maior participação de modelos importados. “Os nossos consumidores estão perdendo mercado. Então, fica muito difícil a gente crescer”, afirmou.

Para Loureiro, essa perda de espaço da indústria ajuda a explicar por que o consumo brasileiro de aço permanece praticamente estagnado, apesar de alguns indicadores positivos das usinas.

Em julho, as vendas das usinas somaram cerca de 1,1 milhão de toneladas, alta de 7% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No acumulado de janeiro a julho, o avanço foi de 2,5%. O resultado, no entanto, é atribuído principalmente à redução das importações, e não a um crescimento efetivo do consumo.

O consumo aparente de aço, segundo os dados apresentados pelo Inda, caiu 3,7%, mesmo com o aumento das vendas das usinas. A importação direta de aço também recuou, com queda de 31% em julho e de 24% no acumulado de janeiro a julho. “A diminuição da importação fez a usina crescer, mas o consumo não cresceu”, comentou.

China amplia pressão sobre o mercado

Loureiro destacou ainda a diferença entre a evolução da produção siderúrgica brasileira e a de grandes produtores mundiais. Em 2004, o Brasil produzia cerca de 33 milhões de toneladas de aço, enquanto a China fabricava 273 milhões de toneladas. No ano passado, o Brasil continuava próximo das 33 milhões de toneladas, enquanto a produção chinesa havia alcançado 961 milhões de toneladas.

A Índia, outro país em desenvolvimento, também apresentou forte expansão, passando de cerca de 33 milhões para 165 milhões de toneladas no período.

Para o presidente do Inda, essa disparidade ajuda a explicar a pressão exercida pelo aço chinês sobre os mercados internacionais. “Essa é a razão por que a China está inundando o mercado com aço”, afirmou.

O cenário coloca a indústria brasileira diante de condições consideradas difíceis para ampliar a produção e recuperar participação no mercado. Na avaliação de Loureiro, dificilmente o consumo de aço no Brasil terá crescimento expressivo neste ano: “Provavelmente, veremos um crescimento entre 1% e 2%, mantendo as cerca de 33 mil toneladas”.

Importações mudam de perfil

O presidente do Inda chamou a atenção para outro ponto: houve mudança nas origens das importações. Em julho, o Vietnã passou a liderar os embarques para o Brasil, com 53 mil toneladas, seguido pela China, com 40 mil toneladas, e pelo Egito, com 26 mil toneladas.

No entanto, Loureiro destacou a possibilidade de haver uma triangulação de produtos chineses por meio do Vietnã, algo que, segundo ele, merece atenção.

Exportações seguem limitadas

As exportações brasileiras de aço continuam relativamente fracas, conforme os dados apresentados. Até julho, foram embarcadas 847 mil toneladas, crescimento de 2,8% em relação ao mesmo período (janeiro a julho) do ano anterior. Na comparação anual, a alta ficou em apenas 0,4%.

O principal produto exportado é a placa, tendo os Estados Unidos como principal destino. Em proporções menores, também houve embarques para países europeus, como Espanha, França e Alemanha.

Nesse ponto, Loureiro destacou a diferença entre os preços praticados. As bobinas brasileiras estão sendo exportadas por valores superiores a US$ 550 por tonelada, enquanto a bobina laminada a quente importada pelo Brasil chega ao mercado nacional por menos de US$ 500 por tonelada. Para ele, o quadro evidencia a pressão competitiva enfrentada pela siderurgia brasileira.

 
Fonte: Diário do Comércio
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 21/08/2026

 

Queda das importações abre espaço para aço nacional, mas demanda ainda limita recuperação

A pressão das importações sobre o mercado brasileiro de aço começou a diminuir. Em julho, as entradas de produtos siderúrgicos recuaram 38% na comparação anual, para 383 mil toneladas, e 27% frente ao mês anterior, abrindo espaço para maior participação da produção nacional.

O movimento já aparece na penetração dos importados. Nos aços planos, a participação do produto estrangeiro caiu de 21% para 16% em um ano, enquanto nos longos passou de 13% para 11%. A redução dá algum alívio às siderúrgicas brasileiras depois de um período de forte avanço das compras externas.

A pressão, porém, permanece relevante. No primeiro semestre, a penetração média dos produtos importados ainda ficou em 22,5%, apesar de as importações terem recuado mais de 30% no segundo trimestre, tanto frente aos três primeiros meses de 2026 quanto na comparação anual. A Gerdau continua apontando a concorrência do aço importado como um dos fatores que afetam a rentabilidade de suas operações brasileiras.

A redução das importações também encontra um mercado interno ainda moderado. Segundo a Gerdau, a construção civil permaneceu estável, enquanto segmentos industriais continuaram pressionados. Houve, entretanto, recuperação dos aços planos e retomada gradual da demanda dos setores eólico e naval, contribuindo para que as vendas da operação brasileira avançassem 2,1% frente ao primeiro trimestre, para 1,35 milhão de toneladas. Na comparação anual, o volume permaneceu praticamente estável.

Para a cadeia do aço, a menor presença dos importados reduz uma fonte importante de pressão competitiva e pode favorecer produtores nacionais, distribuidores e o mercado spot. O efeito, contudo, dependerá da evolução do consumo: sem uma recuperação mais firme da demanda, a redução da oferta estrangeira não significa automaticamente maior volume de vendas ou recuperação mais forte do mercado.

O cenário passa, portanto, a combinar menor pressão das importações com demanda doméstica ainda contida. A continuidade da queda das entradas de aço estrangeiro e a reação dos principais setores consumidores serão determinantes para saber quanto desse espaço poderá efetivamente ser ocupado pela produção nacional.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 20/08/2026

Exportações de aço sobem em julho frente a junho, mas caem na base anual

O Brasil exportou 383 mil toneladas de aço ao longo do mês de julho. O montante representa ampliação de 9,8% ante o verificado em junho, mas redução de 2,6% frente ao reportado no sétimo mês do ano passado. Os dados são do Instituto Aço Brasil.

De acordo com a instituição, o país produziu 2,8 milhões de toneladas de aço bruto no mês passado, um volume praticamente estável na comparação com igual mês de 2025, com uma variação positiva de apenas 0,1%. Na comparação com junho, porém, houve recuo de 1,3%.

As importações, porém, caíram nas duas bases de comparação: foram 383 mil toneladas em julho, quedas mensal de 19,9% e anual de 37,8%, influenciadas pela ampliação de medidas antidumping do governo brasileiro nos primeiros meses do ano.

As vendas internas ficaram em 1,9 milhão de toneladas, estáveis na comparação anual. Já em relação ao mês de junho, houve alta de 4,1%. O consumo aparente somou 2,2 milhões de toneladas de aço, redução anual de 4,7%. Frente ao mês de junho, houve expansão de 2,6%.

De acordo com o superintendente da instituição, Marcelo de Ávila, no acumulado do ano, a produção de aço bruto recuou 1,2%, as exportações avançaram 2,4% e as importações recuaram 20,3%, todos na comparação com igual período de 2025. As vendas internas ficaram estáveis no mesmo período, enquanto o consumo aparente recuou 5%, na mesma base de comparação.

Na ocasião, o Aço Brasil divulgou o Índice de Confiança da Indústria do Aço (Icia) referente ao mês de agosto. Segundo a instituição, o indicador recuou 2,6 pontos frente ao mês anterior e atingiu 43 pontos, acumulando a terceira retração seguida da confiança dos CEOs da indústria do aço.

“Como ocorreu em julho, a queda do Icia em agosto se deu principalmente pela diminuição das expectativas em relação ao futuro, visto que o indicador de situação atual aumentou em relação ao mês anterior”, completou Ávila.

 
Fonte: Valor
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 19/08/2026

 

A América Latina não escolhe lado: vende minerais críticos aos EUA e à China

Uma onda de governos conservadores na América Latina renovou as expectativas de um maior impulso ao setor de mineração, enquanto EUA e China disputam o acesso aos minerais críticos exigidos pela transição energética. 

A BNamericas conversou com Theodore Kahn, diretor de Geopolítica e Risco País da Control Risks, consultoria britânica de gestão de riscos com presença global, sobre como a região está posicionada e as oportunidades e riscos que enfrenta.

BNamericas: Levando em conta a expansão da China, o senhor acha que a América Latina poderia se tornar um bloco estratégico diante da concorrência global por minerais críticos entre esse país e os Estados Unidos?

Kahn: A região já tem um papel estratégico: basta ver os números: Chile e Peru concentram mais de 40% da produção mundial de cobre; Argentina, Bolívia e Chile formam o triângulo do lítio com boa parte das reservas globais; e o Brasil tem uma proporção importante de terras raras. Aqui o importante será se a América Latina pode atuar como bloco para negociar frente aos outros eixos de poder, ou se cada país se alinha mais com os Estados Unidos ou com a China. Isso eu vejo como difícil.

Os esforços de cooperação regional na América Latina têm sido contínuos, mas nunca prosperaram nem se consolidaram de forma sustentada. Isso se reflete no fato de que os governos não querem tomar partido: vemos isso até mesmo em governos de direita muito alinhados com os Estados Unidos, que ainda assim mantêm e ampliam suas relações comerciais com a China.

Quanto ao que os Estados Unidos propõem com suas alianças de minerais críticos, não sei quanto vai se concretizar nos próximos dois anos, sobretudo até que o presidente Donald Trump saia e vejamos a abordagem do próximo governo.

Temos visto avanços concretos —o financiamento de projetos de minerais críticos por parte da Corporação para o Financiamento para o Desenvolvimento dos Estados Unidos (DFC) e do Exim Bank, que provavelmente vai continuar crescendo—, mas não vejo que vá se formar uma aliança permanente ou exclusiva da região com os Estados Unidos ou com a China. Acho que é justamente isso que convém à região: aproveitar o interesse em seus ativos minerais fazendo negócios com todos.

BNamericas: Quais tendências estão marcando o rumo da mineração na região?

Kahn: Estamos em um momento de muita oportunidade para dinamizar o investimento minerador pela confluência de dois fatores principais: o crescente interesse em minerais críticos e o fato de que já se reconhece o papel estratégico que a região pode desempenhar por seus recursos e sua proximidade com os Estados Unidos e a Europa.

Também estamos vendo em vários países a guinada política em direção a governos de direita mais favoráveis ao investimento, com clara intenção de aproveitar esta janela estratégica que representa o setor de mineração.

Como resultado, esperamos mais financiamento privado e multilateral para a indústria.

Há exemplos concretos dessa tendência: o RIGI na Argentina gerou bastante interesse; os Estados Unidos estão modernizando seus mecanismos de financiamento para apoiar projetos na região. No Brasil, os Estados Unidos já concederam mais de US$600 milhões (mi) em financiamento para projetos e veem potencial para apoiar mais de 50 projetos; em fevereiro os Estados Unidos e o Peru assinaram um memorando de entendimento sobre minerais críticos e em março entregaram à Minera Cerro Verde o Prêmio “Bicentenario Estados Unidos-Perú”; em abril os Estados Unidos e o Chile assinaram um memorando de entendimento para impulsionar o desenvolvimento de exploração, explotação e processamento de minerais críticos.

Entre os aspectos positivos também é preciso destacar o nível tecnológico.

BNamericas: Também há grandes desafios, quais são os principais?

Kahn: É isso. Por melhores que sejam as condições políticas e financeiras, todo projeto tem que passar pelo processo de licenciamento —não só ambiental, mas também social— e pelo processo administrativo, que continua sendo a grande barreira em quase todas as jurisdições latino-americanas.

Parte da agenda dos novos governos do Peru e da Colômbia é agilizar esses processos, mas a grande pergunta é quanta influência real têm os governos nacionais sobre essa matéria.

Se alguém observa a agenda de José Antonio Kast no Chile, a de Abelardo de la Espriella na Colômbia e de Keiko Fujimori no Peru, eles falam em facilitar licenças, usar inteligência artificial para ter processos mais rápidos, mas há limitações importantes.

Essas limitações decorrem de reações negativas que podem surgir das comunidades se perceberem que os governos buscam impulsionar projetos ignorando alguns dos processos formais estabelecidos ou direitos constitucionais como a consulta prévia.

Os governos e as empresas precisam ter muito cuidado na forma como lidam com as tensões legítimas das comunidades, pois podem surgir demandas e riscos jurídicos decorrentes dessas tensões.

No Chile, na Colômbia e no Peru vimos vários casos em que os Tribunais foram muito ativos e firmes ao respaldar os direitos ambientais e das comunidades frente à indústria mineradora.

Os litígios sim afetam projetos. O caso de Tía María, no Peru, com um estudo ambiental de 15 anos atrás que continua sendo questionado, é um exemplo. Na Colômbia, uma tentativa do governo de Iván Duque de acelerar a consulta prévia por via executiva foi derrotada nas altas cortes.

As Altas Cortes, nesse sentido, serão um limitador na região. Os governos e as empresas precisam lidar com cuidado com essa tensão entre agilizar projetos e respeitar as preocupações legítimas das comunidades.

A esse risco regulatório e social soma-se o de segurança: a mineração ilegal é um desafio complexo na maioria dos países da região.

BNamericas: Quão difícil será desmantelar as redes criminosas que operam na mineração ilegal?

Kahn: Desmantelá-las e restabelecer o controle do Estado nessas zonas, na maioria dos casos remotas, é um desafio muito grande e, pelo menos, de médio prazo, não de curto prazo.

Nos últimos três a cinco anos, a incursão de grupos criminosos organizados e mais sofisticados na mineração ilegal tornou-se muito mais forte em quase todos os países.

Antes eram redes de garimpeiros artesanais ou redes criminosas muito pouco sofisticadas, mas as dinâmicas da mineração ilegal informal mudaram e hoje estão enquadradas em uma lógica de crime organizado, atraídas pela alta rentabilidade do ouro pelos preços atuais e por sua utilidade como ferramenta para a lavagem de ativos. Seu controle sobre a mineração nem sempre é direto ou tão evidente: às vezes controlam a própria mina, mas com mais frequência controlam o acesso ao território e o movimento de insumos, combustível, produtos químicos e explosivos, como parte de sua expansão territorial e econômica.

BNamericas: Como vê a estratégia contra este delito que será aplicada pelos novos governos da Colômbia e do Peru?

Kahn: Claramente existe a intenção de adotar uma postura mais agressiva e um uso contundente da força militar.

Vamos ver uma resposta dos grupos criminosos que buscarão preservar suas rendas, e o ouro ilegal é uma de suas principais fontes de renda. Por isso, em algumas partes da região poderíamos ver esses grupos reforçarem seu controle sobre a mineração ilegal precisamente como reação à maior pressão militar, ainda mais se houver pressão contra o narcotráfico por parte dos Estados Unidos.

BNamericas: Se a pressão militar aumentar, seria possível ver os mineradores ilegais migrarem para outros países, talvez mais ao sul?

Kahn: Sim, é possível; poderiam pensar talvez no Chile, mas é preciso levar em conta que o ouro é o principal atrativo, embora haja cada vez mais afetação às operações de cobre e furto desse mineral.

Quando aumenta a pressão militar em uma jurisdição, é habitual que esses grupos procurem escapar para zonas com menor presença do Estado; o Chile, com o presidente Kast, estará atento a esse risco.

Veremos mudanças na presença e na distribuição territorial dos grupos criminosos. As zonas mais vulneráveis a sofrer deterioração são as mais remotas, como a fronteira entre Ecuador e Peru, onde já vemos uma presença crescente de grupos armados vinculados à mineração ilegal.

BNamericas: Nos casos específicos da Colômbia e do Peru, a margem de vitória dos novos governos foi muito estreita. Como isso pode influenciar a estratégia de desenvolvimento minerário, considerando que a esquerda continua forte nos dois países?

Kahn: De fato, em ambos os casos as vitórias são muito apertadas, de modo que ambos os governos vão enfrentar muita pressão. No caso do Peru, o vínculo entre a oposição política e as dinâmicas do setor mineral é mais direto: a zona mineradora do sul andino votou com amplas maiorias em Juntos por Perú (JPP) [o partido do candidato de esquerda Roberto Sánchez], e nessas eleições a Confemin [associação nacional de pequenos mineradores e mineradores artesanais] financiou ativamente as campanhas para as eleições de congressistas, apoiou muito fortemente o JPP e fará o mesmo, certamente, nas eleições regionais [de October 4].

BNamericas: Esse apoio será determinante para continuar ou não com o Reinfo?

Kahn: Sim. Esse vínculo permite prever que a reforma do Reinfo [Registro Integral de Formalización Minera] para avançar para outro esquema como a Lei Mape [Lei de Pequena Mineração e Mineração Artesanal] será difícil, pois enfrentará a mesma resistência de sempre por parte dos interesses vinculados à mineração informal que se beneficiam do statu quo.

BNamericas: Poderíamos ver, como já aconteceu no passado, que operações sejam paralisadas ou que minas em produção sejam afetadas no corredor mineiro do sul?

Kahn: É um risco latente. Fujimori provavelmente terá um período inicial tranquilo, como costuma acontecer, mas começa com um déficit de apoio ou legitimidade nessas regiões. Se insistir em encerrar o Reinfo, isso pode desencadear protestos que afetem o corredor minerador.

Teremos de ver como Fujimori se sai, pois também falou em compartilhar 40% dos royalties com as comunidades locais —proposta que deve passar pelo Congresso— que busca justamente suavizar essa reação social, mas depende de quanto capital político ela tenha para impulsioná-la.

BNamericas: Além das eleições regionais — que serão uma espécie de teste para medir quanto se erosiona o capital político de Keiko Fujimori —, que outros riscos é preciso acompanhar de perto no Peru?

Kahn: Em matéria de riscos, além da mineração ilegal —que não é um fenômeno generalizado em todo o país, mas sim importante— há duas frentes-chave a ter em conta.

É preciso entender as expectativas tanto das comunidades quanto das autoridades locais. As empresas enfrentam uma expectativa alta de contribuição para o desenvolvimento local em infraestrutura, emprego, água e energia, e é fundamental deixar claro desde o início o que vão fazer e o que não vão fazer, sem deixar um cheque em branco que gere exigências indefinidas. Gerir essa relação é fundamental.

BNamericas: Deveria haver preocupação em torno da relação Executivo–Legislativo pelas experiências passadas e porque Fujimori não controla o Congresso?

Kahn: A governabilidade legislativa é incerta porque Fujimori não controla o Congresso; as maiorias dependerão muito das negociações.

Fuerza Popular tem uma bancada importante, mas continua sendo minoria e nem mesmo com o apoio do partido de Rafael López Aliaga [Renovación Popular] se alcança uma maioria. Isso ficou evidente nas eleições das duas câmaras, que mostraram o bloco de oposição desde a esquerda até partidos mais de centro, numa espécie de advertência de que é preciso negociar. A questão do Reinfo entrará aí e faz parte da complexidade.

BNamericas: Como vê o cenário eleitoral que se apresenta no momento no Brasil e como uma mudança de governo pode modificar a relação com investidores?

Kahn: O que agora se vê é que parece que Lula continua como favorito para vencer um quarto período.

Quanto aos riscos, um dos mais ativos é a relação entre Brasil e Estados Unidos, que está se deteriorando dia a dia. Estados Unidos voltou a mostrar sua intenção de influenciar o processo eleitoral e a pergunta é até que ponto isso vai chegar, e se Lula, depois de todas essas tensões, poderá reconstruir a relação.

No fim, o que vimos é uma mistura de pragmatismo e de uma postura mais ideológica por parte dos Estados Unidos. A área de pragmatismo são justamente os minerais críticos. O Brasil é o país onde vimos o maior movimento de investimento em minerais críticos por parte de empresas norte?americanas, com apoio das entidades financeiras do governo dos Estados Unidos. Essa parte da relação parece estar, até certo ponto, blindada frente ao deterioro diplomático, embora dependa claramente da manutenção da relação com Lula.

Se houver uma mudança de governo, a dinâmica pode mudar. Com Lula, não se fechou a porta ao investimento privado, ao contrário do que ocorreu com Gustavo Petro na Colômbia; é uma postura mais pragmática. 

Mas poderíamos ver uma dinâmica parecida com a de outros governos de direita —já vimos isso com Bolsonaro e sua tentativa de abrir a fronteira mineradora na Amazônia—, e isso poderia exacerbar alguns riscos: já vimos expansão da mineração ilegal nessa região, e facilitar mais investimento ali poderia gerar reações das comunidades e até mesmo um aumento da criminalidade nessas regiões. No caso do Brasil, a Amazônia é o foco principal desse risco.

 
Fonte: BN Americas
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 17/08/2026

América Latina importa menos aço, mas dependência externa permanece acima de 40%

A América Latina começou 2026 importando menos aço.

À primeira vista, o movimento poderia indicar uma recuperação de espaço para as siderúrgicas instaladas na região, especialmente depois da ampliação das medidas de defesa comercial adotadas por diferentes países para responder à elevada oferta internacional.

Os números, entretanto, contam uma história mais complexa.

Mesmo com a redução dos volumes importados, o aço estrangeiro continuou representando 40,5% do consumo aparente latino-americano nos primeiros cinco meses de 2026.

Em outras palavras, mais de quatro em cada dez toneladas consumidas na região continuaram vindo do exterior.

A participação permanece praticamente no mesmo patamar dos 41% registrados em 2025 e significativamente acima dos 35,9% observados em 2022.

Sob a ótica da Infomet, essa talvez seja a principal questão revelada pelos dados mais recentes do mercado siderúrgico latino-americano.

Importar menos não significa necessariamente depender menos das importações.

A região reduziu suas compras externas, mas ainda não conseguiu alterar de maneira significativa o papel estrutural desempenhado pelo aço estrangeiro em seu abastecimento.

E existe outro movimento que torna esse cenário ainda mais complexo.

No Brasil, onde a penetração das importações caiu de maneira mais significativa, a pressão externa não desapareceu. Ela começa a mudar de composição, tanto entre produtos quanto entre países fornecedores.

Mais de quatro em cada dez toneladas vêm do exterior

Segundo os dados da Alacero, a América Latina importou 12,8 milhões de toneladas de aço entre janeiro e maio de 2026, queda de 3% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Em maio, as compras externas alcançaram 2,2 milhões de toneladas, retração de 18,5% na comparação anual.

O consumo aparente regional, entretanto, permaneceu praticamente estável.

Nos cinco primeiros meses, chegou a 31,7 milhões de toneladas, avanço de apenas 0,4%.

Em maio, houve queda de 2,7%, para 6,2 milhões de toneladas.

Essa combinação exige cuidado na interpretação.

Se as importações diminuem enquanto o mercado consumidor cresce fortemente, pode existir um sinal de substituição do produto estrangeiro pela produção regional.

Mas não é exatamente esse o quadro apresentado pelos números atuais.

O consumo latino-americano praticamente não cresceu.

Parte da redução das importações ocorre, portanto, dentro de um ambiente caracterizado por demanda moderada, estoques suficientes e maior cautela dos compradores.

Por isso, ainda é cedo para interpretar a queda dos volumes como uma recuperação estrutural da participação das siderúrgicas latino-americanas.

A persistência da penetração em 40,5% reforça essa leitura.

Dependência aumentou em relação a 2022

A comparação histórica torna o movimento ainda mais relevante.

Em 2022, as importações correspondiam a 35,9% do consumo aparente de aço da América Latina.

Agora representam 40,5%.

São aproximadamente 4,6 pontos percentuais adicionais em quatro anos.

Isso significa que, apesar da redução observada em 2026, o aço estrangeiro continua ocupando uma parcela significativamente maior do mercado regional do que alguns anos atrás.

A dependência também precisa ser entendida dentro da estrutura industrial latino-americana.

Os países possuem capacidades siderúrgicas muito diferentes.

Brasil e México contam com bases produtoras relevantes e diversificadas.

Outros mercados possuem capacidade doméstica menor ou dependem estruturalmente das importações para determinados produtos.

Essa diferença torna difícil imaginar uma única política regional para o aço.

Países que não possuem capacidade suficiente para produzir determinadas categorias precisam equilibrar a defesa da indústria doméstica com outro objetivo: garantir matéria-prima competitiva para suas próprias cadeias consumidoras.

Uma barreira muito elevada pode reduzir importações.

Mas também pode aumentar os custos de fabricantes locais que dependem desse material.

É uma das razões pelas quais a elevada participação estrangeira na América Latina não pode ser explicada exclusivamente pela concorrência asiática.

Existe também uma dimensão estrutural de oferta.

Brasil apresenta uma fotografia diferente

O mercado brasileiro mostra um movimento mais pronunciado de redução das importações.

Entre janeiro e junho de 2026, o país importou 2,90 milhões de toneladas de aço, queda de 17,6% em relação ao mesmo período de 2025.

Em junho, foram 475,96 mil toneladas, retração de 20,1% na comparação anual.

Como consequência, a participação das importações no consumo aparente brasileiro caiu de 23,3% no primeiro semestre de 2025 para 19,1% em 2026.

Nos produtos planos, a penetração passou de 26,7% para 22,1%.

É uma redução relevante.

E coloca o Brasil em uma situação estruturalmente diferente daquela observada no conjunto da América Latina.

A comparação precisa considerar que os dados regionais abrangem janeiro a maio e os brasileiros, janeiro a junho.

Ainda assim, a diferença ajuda a mostrar a importância da capacidade produtiva instalada no país.

O Brasil possui uma siderurgia doméstica capaz de abastecer parcela significativamente maior de seu mercado interno.

Isso também proporciona maior espaço para adoção de instrumentos de defesa comercial sem criar automaticamente uma dependência ainda maior de determinadas categorias importadas.

Defesa comercial começa a alterar os fluxos

Nos últimos anos, o Brasil ampliou os mecanismos destinados a responder ao crescimento das importações siderúrgicas.

Entre eles estão cotas tarifárias e medidas antidumping aplicadas a determinados produtos e origens.

A lógica desses instrumentos não é necessariamente eliminar o aço importado.

É alterar as condições econômicas sob as quais determinados fluxos entram no país e responder a situações consideradas prejudiciais à indústria doméstica.

Os números de 2026 sugerem que houve mudança importante.

Mas o efeito está longe de ser uniforme.

E é justamente quando os dados são observados produto por produto que aparece uma das características mais interessantes do atual mercado.

Queda total esconde comportamentos completamente diferentes

As importações brasileiras de produtos planos recuaram 36% em junho na comparação anual, para aproximadamente 269 mil toneladas.

No primeiro semestre, a queda foi de 20,7%, para 1,74 milhão de toneladas.

Dentro dessa categoria, entretanto, existem movimentos radicalmente diferentes.

As importações de bobinas laminadas a quente apresentaram queda de 83,5% em junho, para 16,3 mil toneladas.

No acumulado do primeiro semestre, recuaram 39,3%, para aproximadamente 242 mil toneladas.

Nos galvanizados por imersão a quente aconteceu o contrário.

As compras externas aumentaram 74,1% em junho, alcançando aproximadamente 55,9 mil toneladas.

No semestre, cresceram 16,7%, para cerca de 296,4 mil toneladas.

A diferença é fundamental para compreender o mercado.

As importações não estão simplesmente desaparecendo. Estão mudando de composição.

Enquanto determinados produtos perdem espaço rapidamente, outros continuam avançando.

Por isso, observar apenas a tonelagem total pode esconder pressões competitivas importantes em segmentos específicos.

Galvanizados mostram que pressão permanece

O crescimento dos galvanizados merece atenção especial porque esses produtos abastecem importantes cadeias industriais.

Construção civil, indústria automobilística, linha branca, centros de serviços e diferentes fabricantes utilizam aços revestidos em aplicações que exigem proteção contra corrosão e determinadas características de conformação e acabamento.

A expansão das importações nesse segmento, simultaneamente à queda acentuada observada em outros planos, mostra que a defesa comercial pode produzir resultados bastante diferentes dependendo do produto.

Também reforça a necessidade de acompanhar não apenas quanto aço entra no Brasil, mas qual aço está entrando.

Para siderúrgicas e distribuidores, a composição pode ser tão importante quanto o volume agregado.

China perde participação, mas Ásia continua dominante

Outra mudança importante está acontecendo na origem do aço importado.

A Ásia respondeu por 82,8% das importações brasileiras no primeiro semestre, mesmo depois de seus embarques para o país recuarem 19,5% na comparação anual.

A China continua sendo o principal fornecedor, mas perdeu participação.

Sua fatia passou de 63,6% no primeiro semestre de 2025 para 55,4% no mesmo período deste ano.

Em volume, as importações brasileiras de aço chinês recuaram 28,2%, para 1,61 milhão de toneladas.

A redução é significativa.

Mas existe um detalhe fundamental.

A participação chinesa caiu muito mais do que a participação asiática.

Isso sugere que parte do espaço competitivo começa a ser ocupada por outros fornecedores da região.

E os relatos de mercado apresentados no material analisado apontam exatamente nessa direção.

Índia, Vietnã e Indonésia entram com maior frequência nas negociações

Participantes do mercado sul-americano passaram a relatar com maior frequência ofertas provenientes da Índia, Vietnã e Indonésia.

A Índia, em particular, começa a aparecer mais nas negociações, embora questões logísticas e exigências de volumes mínimos maiores ainda possam limitar determinadas operações.

Esse movimento é importante porque muda a maneira de interpretar a pressão importadora.

Durante muito tempo, grande parte da discussão regional esteve concentrada na China.

A China continua central.

Mas reduzir a importação chinesa não significa necessariamente reduzir na mesma proporção a competição asiática.

Compradores internacionais procuram alternativas.

Fornecedores procuram novos mercados.

Fluxos comerciais se reorganizam.

E novas origens podem tornar-se competitivas.

O desafio da defesa comercial passa, assim, a ser mais complexo do que simplesmente responder ao maior país exportador.

Barreiras podem alterar rotas antes de alterar a intensidade do comércio

Essa talvez seja uma das principais consequências do cenário atual.

Quando um país estabelece uma medida de defesa comercial, os agentes econômicos se adaptam.

Compradores podem mudar fornecedores.

Exportadores podem buscar outros mercados.

Outras origens podem ocupar parte do espaço deixado por determinado país.

E o mix de produtos importados pode mudar.

Não significa que toda alteração observada atualmente seja causada pelas medidas brasileiras.

Os dados disponíveis não permitem estabelecer essa relação de causalidade para cada fluxo.

Frete, câmbio, disponibilidade, demanda, estoques, especificações técnicas e condições comerciais também interferem nas decisões.

Mas a diversificação recente da oferta asiática mostra que o comércio siderúrgico possui elevada capacidade de adaptação.

Em determinadas situações, portanto, a defesa comercial pode modificar a geografia e a composição das importações antes de alterar estruturalmente sua presença no mercado.

Classificações tarifárias também entram no debate

Essa capacidade de adaptação ajuda a explicar outra preocupação recorrente no mercado brasileiro: mudanças no enquadramento das mercadorias importadas.

Quando medidas comerciais abrangem códigos específicos da Nomenclatura Comum do Mercosul, produtos tecnicamente próximos, mas enquadrados em classificações diferentes, podem ganhar relevância nas compras externas.

O tema exige especial cuidado.

Não é correto concluir automaticamente que toda mudança de classificação represente tentativa de evasão de uma medida.

Diferenças técnicas entre produtos podem justificar códigos tarifários distintos.

Ao mesmo tempo, a ampliação posterior da cobertura de determinadas medidas mostra a necessidade de monitoramento constante sobre como os fluxos comerciais se reorganizam.

Para o governo e a indústria, portanto, defesa comercial deixa de ser apenas a publicação de uma tarifa.

Passa a exigir acompanhamento contínuo de produtos, origens e classificações.

América Latina não se comporta como um único mercado

O próprio desempenho das importações regionais demonstra essa diversidade.

Brasil, Chile, Argentina e México apresentaram redução dos volumes importados entre janeiro e maio.

Colômbia e Peru, em sentido contrário, registraram crescimento superior a 20%.

A diferença reflete mercados com estruturas produtivas e momentos econômicos distintos.

Também aparece no consumo.

Entre os setores consumidores de aço, automotivo e construção apresentaram os sinais mais positivos no período.

A atividade automobilística avançou 3,5%, com contribuição importante do Brasil.

A construção cresceu 0,8%, puxada principalmente por Colômbia e Peru, além de alguns sinais positivos na Argentina.

Esses movimentos ajudam a explicar por que a demanda por aço importado não responde da mesma maneira em todos os países.

Menos importação também pode significar menos apetite por estoque

Outro aspecto precisa ser considerado.

Os compradores sul-americanos continuam realizando aquisições de maneira seletiva.

Estoques considerados suficientes e consumo downstream ainda moderado reduzem a disposição de distribuidores para ampliar exposição.

Isso significa que parte da queda das importações pode estar relacionada à própria estratégia de estoques.

Se a demanda recuperar força, a resposta das compras externas será um dos principais indicadores a acompanhar.

É nesse momento que ficará mais claro quanto da redução atual representa mudança estrutural e quanto reflete simplesmente um mercado consumidor ainda cauteloso.

Essa distinção é fundamental.

Uma queda das importações causada por menor demanda possui significado industrial muito diferente de uma queda provocada por recuperação consistente da produção regional.

A América Latina enfrenta um paradoxo siderúrgico

A elevada participação das importações revela ainda uma questão estrutural mais ampla.

A América Latina possui grandes reservas minerais.

Produz minério de ferro em escala mundial.

Possui siderúrgicas relevantes.

Conta com grandes mercados consumidores de aço.

Abriga indústrias automobilísticas, fabricantes de máquinas e equipamentos, construção civil, linha branca e outras cadeias metalmecânicas.

Mesmo assim, mais de quatro em cada dez toneladas de aço consumidas na região são importadas.

Essa aparente contradição mostra que possuir matéria-prima não significa possuir capacidade industrial adequada para produzir competitivamente todo o mix demandado pelo mercado.

Escala.
Tecnologia.
Energia.
Logística.
Custos.
Mix de produtos.
Investimento.
Política comercial.
Todos esses fatores interferem na equação.

Por isso, reduzir estruturalmente a dependência externa exigiria algo maior do que simplesmente aumentar tarifas.

Exigiria ampliar competitividade e, onde economicamente justificável, capacidade produtiva.

Defesa comercial possui limites diferentes em cada país

Esse ponto também ajuda a explicar por que medidas adotadas no Brasil não podem simplesmente ser replicadas em toda a América Latina.

Em países com produção doméstica relevante, barreiras podem redirecionar demanda para fabricantes locais.

Em países sem produção suficiente de determinada categoria, uma restrição excessiva pode simplesmente elevar o custo da matéria-prima para a indústria consumidora.

Imagine uma fabricante local de eletrodomésticos, autopeças ou equipamentos que dependa de um aço não produzido internamente em volume adequado.

Para essa empresa, importação não representa necessariamente concorrência.

Pode representar abastecimento industrial.

Esse equilíbrio entre siderurgia e consumidores de aço será uma das questões centrais para as políticas comerciais latino-americanas.

Carbono adiciona uma nova camada à disputa

A indústria siderúrgica regional também começa a incorporar outro argumento ao debate.

Produtores latino-americanos sustentam que diferenças ambientais e de intensidade de carbono entre rotas produtivas deveriam ser consideradas na comparação com determinados materiais importados.

A questão precisa ser tratada com precisão.

Não é possível afirmar genericamente que todo aço produzido na América Latina possua menor pegada de carbono do que qualquer aço importado.

A intensidade depende da usina, tecnologia, matriz energética, carga metálica e processo utilizado.

Mas a descarbonização tende a acrescentar uma nova variável à competição.

No futuro, o mercado poderá comparar não apenas:

produto + qualidade + prazo + custo,
mas também:

carbono incorporado.
Isso poderá alterar novamente a competitividade entre diferentes origens.

O Brasil mostra que o resultado não pode ser medido apenas pelo total

A experiência brasileira em 2026 talvez seja a melhor demonstração dessa nova complexidade.

No agregado, as importações caíram 17,6% no primeiro semestre.

A participação estrangeira no consumo também recuou.

São movimentos relevantes.

Mas, abaixo desses números, a situação é muito mais heterogênea.

HRC caiu fortemente.

Galvanizados avançaram.

China perdeu participação.

Ásia permaneceu dominante.

Novos fornecedores começaram a aparecer com maior frequência.

E, como observado recentemente no mercado brasileiro, junho ainda registrou forte recuperação das importações em relação a maio, embora o volume permanecesse inferior ao de junho de 2025.

As duas comparações são verdadeiras.

O mercado pode apresentar recuperação na margem e retração no acumulado ou na comparação anual ao mesmo tempo.

Por isso, a eficácia das medidas de defesa comercial não deve ser avaliada por um único mês.

Nem apenas pela tonelagem total.

Perspectivas

Os primeiros dados de 2026 mostram uma América Latina importando menos aço, mas ainda profundamente dependente da oferta estrangeira.

A participação de 40,5% no consumo aparente permanece praticamente inalterada em relação a 2025 e significativamente acima do nível observado em 2022.

Isso sugere que a redução recente dos volumes ainda não modificou estruturalmente a presença das importações no abastecimento regional.

O Brasil apresenta sinais mais claros de redução da penetração estrangeira, mas seu próprio mercado mostra que essa transformação não ocorre de maneira uniforme.

Alguns produtos perderam fortemente participação importada.

Outros avançaram.

A China continua dominante, mas perde espaço enquanto Índia, Vietnã, Indonésia e outros fornecedores asiáticos começam a aparecer com maior frequência nas negociações.

A pressão externa, portanto, não desaparece necessariamente quando determinado fluxo diminui.

Ela pode mudar de produto.

Pode mudar de fornecedor.

Pode mudar de origem.

E pode encontrar novas rotas comerciais.

Sob a ótica da Infomet, esse talvez seja o principal desafio da siderurgia latino-americana nesta nova etapa da defesa comercial.

Não basta acompanhar quanto aço é importado. Será cada vez mais necessário entender qual produto entra, de onde vem, quais cadeias dependem dele e como o comércio internacional se reorganiza diante de cada nova barreira.

A América Latina começou 2026 importando menos aço.

Mas, enquanto mais de quatro em cada dez toneladas consumidas continuarem vindo do exterior, a dependência da oferta estrangeira permanecerá como uma das forças centrais do mercado siderúrgico regional.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 13/08/2026