A indústria do aço no Brasil entrou em 2026 com um paradoxo na mesa: o humor dos executivos melhora de forma expressiva, impulsionado pelo anúncio e pela expectativa de novas medidas antidumping, mas os números do mercado seguem enviando sinais mistos — produção que cresce na margem, vendas internas em queda e importações ainda relevantes.
Em fevereiro, o Indicador de Confiança da Indústria do Aço (ICIA), do Instituto Aço Brasil, subiu 8,4 pontos e chegou a 57,6, ultrapassando a marca de 50 — linha que separa pessimismo de otimismo — pela primeira vez desde novembro de 2024. O avanço ocorre após um mês marcado pelo anúncio de medidas para proteger o mercado brasileiro do aço importado da China, tema que dominou o debate setorial nos últimos trimestres.
Ao mesmo tempo, janeiro traz um retrato ambivalente: na comparação com dezembro, a produção de aço bruto subiu 6,8% (2,7 milhões de toneladas), mas as importações avançaram 34,8%. Na comparação com janeiro do ano anterior, porém, a produção caiu 1,4% (2,732 milhões de toneladas) e as importações recuaram 6,5% (516 mil toneladas). Em outras palavras: o setor parece respirar melhor, mas ainda não virou a página.
O que mudou no humor do setor?
O ICIA não subiu por acaso — ele reflete uma virada de expectativa. O Aço Brasil atribui a alta tanto à melhora na percepção da situação atual quanto ao aumento do otimismo para os próximos seis meses:
Índice de situação atual: +11,0 pontos, para 53,0
Situação atual da economia brasileira: +9,7 pontos, para 49,4
Condições atuais da empresa: +11,7 pontos, para 54,8
Expectativas para seis meses: +7,2 pontos, para 59,9
Expectativas sobre a própria empresa: +9,5 pontos, para 65,9
O pano de fundo é a crença de que a defesa comercial vai ganhar corpo. A leitura corrente entre CEOs é que novas medidas antidumping podem chegar entre junho e julho, quando investigações em andamento avançarem para fases mais decisivas. O tema ganhou reforço público recentemente com declarações de executivos do setor — inclusive com a visão de que as medidas podem reduzir gradualmente a pressão do aço chinês.
Esse “choque de confiança”, porém, ainda convive com a realidade do chão de fábrica.
Produção sobe na margem, cai no ano: a fotografia de janeiro
Os dados de janeiro precisam ser lidos em duas camadas — e é aí que mora boa parte do aparente “conflito”:
1) Comparação mensal (janeiro vs. dezembro)
Produção de aço bruto: +6,8% (para 2,7 milhões t)
Importações: +34,8% (para 516 mil t)
Vendas internas: -2,3% (para 1,6 milhão t)
Consumo aparente: +4,1% (para 2,0 milhões t)
Exportações: estáveis (cerca de 1,2 milhão t)
Aqui, aparece um mercado que reaquece após sazonalidade — mas com importação crescendo forte.
2) Comparação anual (janeiro 2026 vs. janeiro 2025)
Produção: -1,4%
Vendas internas: -6,3% (para 1,555 milhão t)
Exportações: +34,2% (para 1,218 milhão t)
Importações: -6,5% (para 516 mil t)
Consumo aparente: -7% (para 2,003 milhões t)
Utilização da capacidade instalada: 64,3% (queda de 0,9 p.p.)
Essa segunda leitura revela algo mais estrutural: o consumo aparente caiu e as vendas internas encolheram, ao mesmo tempo em que as exportações subiram forte — um desenho compatível com indústria buscando escoamento externo e ainda operando longe do “ideal” de utilização de capacidade.
Importação: caiu no ano, mas subiu no mês — e a pressão continua
A importação é o centro da narrativa do aço brasileiro. Em janeiro, o volume importado recuou 6,5% na comparação anual, mas saltou 34,8% frente a dezembro. Isso alimenta uma interpretação clara no setor: medidas anunciadas podem ter melhorado expectativas, mas ainda não reduziram de forma consistente a presença do produto importado no mercado.
E há mais nuance: em Minas Gerais, por exemplo, o Aço Brasil aponta que a China reduziu envios em 8,6% (para 304 mil t) — um sinal positivo na comparação anual, embora insuficiente para dissipar a sensação de competição “assimétrica” que as siderúrgicas vêm denunciando.
O desafio, para os próximos meses, será entender se o antidumping muda o comportamento do importador (volume, preço, mix de produtos e triangulações) e em que ritmo o mercado doméstico reabsorve a produção local.
Minas Gerais: líder nacional, mas em queda pelo 3º mês seguido
Minas Gerais segue como principal polo siderúrgico do país — mas começou 2026 no vermelho.
Produção de aço bruto em MG: 822 mil t em janeiro (-6,9% em relação a janeiro de 2025)
Participação nacional: 30,1% (1º lugar)
Queda interanual é a 3ª consecutiva (após -0,6% em novembro e -4,4% em dezembro)
No recorte de semiacabados para venda e laminados, Minas teve leve alta:
762 mil t (+0,8%), com 30,6% de participação nacional
O contraste sugere uma indústria mineira tentando sustentar parte da cadeia de produção, mas ainda sentindo o peso do ambiente competitivo e da dinâmica de demanda.
Exportações disparam, mas há um asterisco importante
O dado mais “surpreendente” de janeiro é a disparada das exportações: +34,2% na comparação anual, chegando a 1,2 milhão de toneladas. Para a América Latina, o salto é ainda mais expressivo: 544 mil t, alta de 366,3%.
Mas o próprio Aço Brasil faz um alerta técnico relevante: parte do número pode estar inflado por “embarque antecipado”, uma prática que registra volumes acima do efetivamente exportado e pode ser corrigida em divulgações futuras do Comex.
Ou seja: a leitura é positiva, mas o mercado precisará acompanhar se o movimento se confirma como tendência.
O que o ICIA está dizendo, na prática?
Com confiança acima de 50 e expectativas para seis meses próximas de 60, o setor está essencialmente afirmando:
Defesa comercial virou variável central de planejamento (produção, preços e investimento)
O mercado acredita mais em resposta do governo do que acreditava em 2024–2025
A melhora ainda é “de percepção”, não de resultado, porque vendas internas e consumo aparente seguem fracos no comparativo anual
O timing é tudo: a indústria mira o meio do ano como ponto de inflexão
A questão é se o otimismo se converterá em números melhores antes que novas ondas de importação neutralizem o efeito.
O que observar daqui para frente?
1) Junho–julho como marco
Se novas medidas antidumping vierem no meio de 2026, o setor deve monitorar:
queda do volume importado (e não só mudança de origem)
reação de preços no mercado interno
retomada de utilização de capacidade
2) Vendas internas e consumo aparente
Sem melhora nesses dois termômetros, o otimismo tende a virar frustração, mesmo com importações ligeiramente menores.
3) Utilização de capacidade
O patamar de 64,3% no Brasil indica ociosidade relevante. Recuperar isso é crucial para margens e competitividade.
4) O caso Minas
Por concentrar grande parte da produção, MG vira “termômetro”: se o Estado continuar caindo, é sinal de que o reequilíbrio ainda não chegou ao coração industrial do país.
Bastidores: por que confiança sobe antes do resultado?
Porque a indústria opera com ciclo longo. Medidas antidumping costumam demorar a produzir efeito real: até o mercado entender o novo custo de importar, ajustar contratos, trocar origens e repassar preços, há meses de transição. Assim, o ICIA pode antecipar uma virada — mas também pode “se empolgar” e exigir confirmação mais adiante.
Por ora, a siderurgia brasileira parece viver um começo de inflexão no discurso, ainda sem a mesma inflexão no caixa.
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 25/02/2026
25-02-2026 Siderurgia & Mineração
Ler mais