Importações de aço voltam a crescer e testam defesa comercial no mercado brasileiro
A siderurgia brasileira voltou a conviver em junho com um movimento conhecido, mas que ganha nova relevância diante do avanço recente das medidas de defesa comercial: a recuperação das importações de aço.
Depois de dois meses consecutivos de redução, as compras externas saltaram 52,4% em relação a maio, alcançando 476 mil toneladas e voltando a representar 22,1% do consumo aparente de aço no país.
O movimento ocorreu justamente em um mês no qual o consumo doméstico avançou, mas a produção brasileira de laminados recuou.
A combinação desses fatores revela uma dinâmica importante.
O mercado brasileiro consumiu mais aço, mas parte relevante dessa demanda foi atendida pela oferta importada.
Sob a ótica da Infomet, essa talvez seja a principal questão revelada pelos dados mais recentes do setor.
O aumento das importações não permite concluir que as medidas de defesa comercial adotadas pelo Brasil tenham perdido eficácia. No acumulado do primeiro semestre, as compras externas ainda apresentam retração expressiva.
Mas junho mostra que a pressão internacional permanece presente e pode voltar rapidamente quando as condições econômicas favorecem a entrada de material estrangeiro.
Segundo relatório setorial de agosto do BB Investimentos, a produção brasileira de aço bruto alcançou 2,8 milhões de toneladas em junho, crescimento de 2,5% sobre maio. A produção de laminados, entretanto, seguiu direção oposta e caiu 9,8%, para 1,8 milhão de toneladas. Entre os produtos planos, a retração chegou a 17,8%.
As vendas internas também recuaram 1,5%, ficando próximas de 1,8 milhão de toneladas.
Ao mesmo tempo, o consumo aparente cresceu 4,3%, alcançando 2,2 milhões de toneladas, movimento influenciado pelo avanço de 10,3% registrado nos produtos planos.
É justamente nesse intervalo entre produção, vendas e consumo que as importações ganham protagonismo.
O volume importado aumentou 52,4% em apenas um mês e chegou a 476 mil toneladas. A participação do aço estrangeiro no consumo aparente subiu sete pontos percentuais, para 22,1%, retornando a um patamar próximo da média de 22,8% observada nos 36 meses anteriores.
O crescimento ficou concentrado principalmente em laminados planos e semiacabados.
O próprio relatório chama atenção para o fato de que o movimento ocorreu mesmo após a adoção de medidas de defesa comercial no país.
Essa observação torna junho particularmente relevante.
O Brasil vem ampliando nos últimos anos o uso de instrumentos destinados a responder à entrada de produtos importados em condições consideradas prejudiciais à indústria doméstica. A expectativa econômica desses mecanismos é modificar as condições competitivas de determinados fluxos de comércio, e não necessariamente eliminar as importações.
Por isso, um único mês de crescimento não permite medir sua eficácia.
Os números acumulados reforçam essa cautela.
Entre janeiro e junho, as importações brasileiras de aço totalizaram 2,9 milhões de toneladas, queda de 17,6% em relação ao mesmo período de 2025.
A participação do produto importado no consumo aparente também diminuiu no semestre, passando de 23,3% para 19,5%.
A fotografia do primeiro semestre, portanto, é diferente da fotografia de junho.
No acumulado, houve redução da presença importada.
No dado mensal mais recente, houve forte reação.
É justamente essa diferença que precisa ser acompanhada nos próximos meses.
Se o aumento observado em junho tiver caráter pontual, a tendência acumulada poderá continuar indicando menor participação do produto estrangeiro.
Se, entretanto, volumes elevados se repetirem, o mercado terá um sinal de que a pressão importadora voltou a ganhar intensidade mesmo sob uma estrutura de defesa comercial mais ampla.
E o ambiente internacional ajuda a explicar por que esse risco permanece.
China mantém pressão sobre o mercado internacional
A China continua produzindo aço em volumes elevados em um momento no qual sua demanda doméstica apresenta menor dinamismo.
Em junho, a produção chinesa alcançou 83,7 milhões de toneladas, queda de 0,8% frente ao mês anterior, enquanto o consumo aparente recuou 0,9%, para 73,8 milhões de toneladas.
Na comparação anual, a produção ainda apresentou ligeira alta de 0,6%, enquanto o consumo diminuiu 0,2%.
O desequilíbrio ajuda a sustentar volumes elevados de exportação.
Os embarques chineses permaneceram acima de 10 milhões de toneladas, patamar descrito pelo relatório como historicamente elevado. Paralelamente, os estoques continuaram crescendo e, no caso dos laminados planos, terminaram julho 29,2% acima do nível registrado no mesmo período de 2025.
A combinação é particularmente relevante para países importadores.
Consumo interno fraco, produção elevada e estoques crescentes aumentam a necessidade de direcionar parte da oferta chinesa ao mercado internacional.
E a consequência aparece nos preços.
As cotações da bobina laminada a quente na China recuaram 2,3% em julho, ficando em média em US$ 486 por tonelada, segundo os dados apresentados no relatório.
Isso mantém a competitividade da oferta chinesa no mercado internacional e aumenta a pressão sobre produtores instalados em outras regiões.
A situação contrasta fortemente com os Estados Unidos.
No mercado norte-americano, a bobina laminada a quente avançou 2,7% em julho e encerrou o mês em US$ 1.191 por tonelada, acumulando valorização superior a 40% em doze meses.
A produção norte-americana também permaneceu elevada, com crescimento anual de 8,7%, enquanto as importações recuaram 22,9%, para 2,1 milhões de toneladas.
Formam-se, assim, dois mercados siderúrgicos bastante diferentes.
De um lado, os Estados Unidos apresentam preços elevados, produção crescente e menor participação das importações.
Do outro, a China convive com demanda doméstica mais fraca, estoques elevados, preços pressionados e exportações historicamente altas.
O Brasil encontra-se exposto justamente a essa reorganização do comércio internacional.
Defesa comercial entra em nova fase
O cenário ajuda a mostrar por que a discussão brasileira sobre defesa comercial não termina com a criação de uma medida antidumping ou de outro mecanismo de proteção.
O verdadeiro teste ocorre posteriormente.
É necessário observar se as medidas conseguem alterar de maneira persistente a composição da oferta no mercado doméstico e reduzir distorções sem comprometer o abastecimento dos consumidores industriais.
Junho mostra que esse equilíbrio permanece em construção.
A participação de 22,1% das importações no consumo aparente praticamente devolveu o indicador à sua média recente, mesmo depois da redução observada nos meses anteriores.
Isso não significa que todo o aço importado esteja sujeito às mesmas medidas ou que o crescimento mensal possa ser atribuído exclusivamente a um país.
Produtos, origens e enquadramentos comerciais são diferentes.
Esse cuidado é fundamental.
Mas o ambiente chinês cria uma pressão estrutural sobre o comércio internacional de aço que não pode ser ignorada.
Enquanto o consumo doméstico chinês permanecer relativamente fraco e a produção continuar elevada, o excedente precisará encontrar mercados.
O desafio brasileiro, portanto, não consiste simplesmente em reduzir qualquer importação.
Está em assegurar condições competitivas equilibradas para a indústria nacional diante de uma oferta internacional que pode responder rapidamente às diferenças de preço e demanda entre regiões.
Esse ambiente também ajuda a explicar outro indicador apresentado pelo BB Investimentos.
A confiança do empresário da indústria brasileira do aço caiu 2,2 pontos em julho, para 45,6 pontos, permanecendo abaixo da linha de 50 pontos. Enquanto isso, o Índice de Preços ao Produtor da metalurgia apresentou pequena alta mensal de 0,29% em junho.
A combinação sugere um setor que ainda encontra dificuldade para construir uma percepção mais positiva sobre os próximos meses.
Mercado spot também mostra pouca pressão de alta
Essa leitura encontra correspondência no comportamento recente dos Índices dos Aços da Infomet para o mercado spot brasileiro.
Em julho, o Índice do Aço Laminado à Quente (BQ) recuou 0,14% em relação a junho, passando de 364,55 para 364,05.
O Índice do Aço Laminado à Frio (BF) caiu 0,20%, de 353,70 para 353,00.
No galvanizado, a retração foi mais intensa, de 1,08%, enquanto chapa grossa permaneceu estável.
Entre os produtos longos e derivados acompanhados pela Infomet, o vergalhão apresentou queda de 0,34%, a cantoneira recuou 0,02% e a telha registrou retração de 4,84%.
Os indicadores da Infomet não são cotações diretas de preços de usinas, mas índices destinados a acompanhar a variação acumulada do mercado spot do aço.
Observados em conjunto com o cenário de importações, ajudam a compor uma leitura de mercado na qual ainda não existe pressão generalizada de valorização.
É importante não atribuir diretamente as variações dos índices ao crescimento das importações de junho.
Existem diversos fatores atuando simultaneamente sobre o mercado spot, incluindo demanda, estoques, negociações entre compradores e fornecedores, condições de crédito e disponibilidade dos diferentes produtos.
Mas o aumento da oferta importada acrescenta um componente competitivo importante a esse ambiente.
Quanto maior a disponibilidade de alternativas internacionais economicamente viáveis, maior tende a ser a dificuldade para sustentar movimentos generalizados de valorização no mercado doméstico.
Produção doméstica enfrenta o paradoxo da demanda
Talvez o aspecto mais importante dos dados brasileiros esteja justamente na combinação entre aumento do consumo aparente e queda da produção de laminados.
Em tese, maior consumo representa uma condição favorável à indústria.
Mas a origem do material que atende esse crescimento é determinante para definir quanto dessa expansão se transforma efetivamente em atividade industrial no país.
Em junho, enquanto o consumo aparente avançou 4,3%, a produção de laminados caiu 9,8%.
Nos planos, a retração da produção chegou a 17,8%, justamente em um mês marcado por forte crescimento das importações dessa categoria.
Essa divergência merece ser acompanhada.
Se o consumo continuar crescendo e a produção nacional recuperar espaço, a expansão da demanda poderá contribuir para elevar a utilização das capacidades instaladas.
Se uma parcela crescente desse consumo for atendida pelo exterior, o efeito industrial doméstico será menor.
Para siderúrgicas brasileiras, portanto, a discussão sobre importações não envolve apenas participação de mercado.
Envolve utilização das usinas, diluição de custos fixos, rentabilidade e capacidade de investir.
E os efeitos descem pela cadeia.
Distribuidores, centros de serviços e consumidores industriais também precisam administrar diferenças entre produto nacional e importado em termos de preço, prazo de entrega, estoques, câmbio, financiamento e previsibilidade de fornecimento.
Por isso, a dinâmica das importações continuará sendo uma das principais variáveis do mercado brasileiro de aço no segundo semestre.
Perspectivas
Junho, isoladamente, não permite concluir que as medidas de defesa comercial adotadas pelo Brasil tenham perdido eficácia. No primeiro semestre, as importações ainda acumulam queda de 17,6% e sua participação no consumo aparente diminuiu de 23,3% para 19,5%.
O salto mensal de 52,4%, entretanto, funciona como um alerta.
Ele mostra que a pressão externa não desapareceu e que a oferta internacional continua capaz de recuperar rapidamente participação no mercado brasileiro.
A China será uma variável central nessa equação. Com exportações mensais acima de 10 milhões de toneladas, estoques elevados, consumo interno enfraquecido e preços pressionados, o país permanece como importante fonte de oferta para o mercado internacional.
Para a siderurgia brasileira, o teste da defesa comercial entra agora em uma etapa mais complexa.
Não será suficiente observar se as importações diminuem em determinado mês ou semestre.
Será necessário verificar se as medidas conseguem produzir uma mudança mais duradoura na dinâmica competitiva, especialmente em períodos nos quais o consumo doméstico brasileiro aumenta.
O dado de junho deixa uma pergunta importante para o segundo semestre: se o mercado brasileiro consumir mais aço, quanto desse crescimento será atendido pelas usinas nacionais e quanto continuará encontrando no produto importado sua principal porta de entrada?
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 11/08/2026