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Importações de aço voltam a crescer e testam defesa comercial no mercado brasileiro

A siderurgia brasileira voltou a conviver em junho com um movimento conhecido, mas que ganha nova relevância diante do avanço recente das medidas de defesa comercial: a recuperação das importações de aço.

Depois de dois meses consecutivos de redução, as compras externas saltaram 52,4% em relação a maio, alcançando 476 mil toneladas e voltando a representar 22,1% do consumo aparente de aço no país.

O movimento ocorreu justamente em um mês no qual o consumo doméstico avançou, mas a produção brasileira de laminados recuou.

A combinação desses fatores revela uma dinâmica importante.

O mercado brasileiro consumiu mais aço, mas parte relevante dessa demanda foi atendida pela oferta importada.

Sob a ótica da Infomet, essa talvez seja a principal questão revelada pelos dados mais recentes do setor.

O aumento das importações não permite concluir que as medidas de defesa comercial adotadas pelo Brasil tenham perdido eficácia. No acumulado do primeiro semestre, as compras externas ainda apresentam retração expressiva.

Mas junho mostra que a pressão internacional permanece presente e pode voltar rapidamente quando as condições econômicas favorecem a entrada de material estrangeiro.

Segundo relatório setorial de agosto do BB Investimentos, a produção brasileira de aço bruto alcançou 2,8 milhões de toneladas em junho, crescimento de 2,5% sobre maio. A produção de laminados, entretanto, seguiu direção oposta e caiu 9,8%, para 1,8 milhão de toneladas. Entre os produtos planos, a retração chegou a 17,8%.

As vendas internas também recuaram 1,5%, ficando próximas de 1,8 milhão de toneladas.

Ao mesmo tempo, o consumo aparente cresceu 4,3%, alcançando 2,2 milhões de toneladas, movimento influenciado pelo avanço de 10,3% registrado nos produtos planos.

É justamente nesse intervalo entre produção, vendas e consumo que as importações ganham protagonismo.

O volume importado aumentou 52,4% em apenas um mês e chegou a 476 mil toneladas. A participação do aço estrangeiro no consumo aparente subiu sete pontos percentuais, para 22,1%, retornando a um patamar próximo da média de 22,8% observada nos 36 meses anteriores.

O crescimento ficou concentrado principalmente em laminados planos e semiacabados.

O próprio relatório chama atenção para o fato de que o movimento ocorreu mesmo após a adoção de medidas de defesa comercial no país.

Essa observação torna junho particularmente relevante.

O Brasil vem ampliando nos últimos anos o uso de instrumentos destinados a responder à entrada de produtos importados em condições consideradas prejudiciais à indústria doméstica. A expectativa econômica desses mecanismos é modificar as condições competitivas de determinados fluxos de comércio, e não necessariamente eliminar as importações.

Por isso, um único mês de crescimento não permite medir sua eficácia.

Os números acumulados reforçam essa cautela.

Entre janeiro e junho, as importações brasileiras de aço totalizaram 2,9 milhões de toneladas, queda de 17,6% em relação ao mesmo período de 2025.

A participação do produto importado no consumo aparente também diminuiu no semestre, passando de 23,3% para 19,5%.

A fotografia do primeiro semestre, portanto, é diferente da fotografia de junho.

No acumulado, houve redução da presença importada.

No dado mensal mais recente, houve forte reação.

É justamente essa diferença que precisa ser acompanhada nos próximos meses.

Se o aumento observado em junho tiver caráter pontual, a tendência acumulada poderá continuar indicando menor participação do produto estrangeiro.

Se, entretanto, volumes elevados se repetirem, o mercado terá um sinal de que a pressão importadora voltou a ganhar intensidade mesmo sob uma estrutura de defesa comercial mais ampla.

E o ambiente internacional ajuda a explicar por que esse risco permanece.

China mantém pressão sobre o mercado internacional

A China continua produzindo aço em volumes elevados em um momento no qual sua demanda doméstica apresenta menor dinamismo.

Em junho, a produção chinesa alcançou 83,7 milhões de toneladas, queda de 0,8% frente ao mês anterior, enquanto o consumo aparente recuou 0,9%, para 73,8 milhões de toneladas.

Na comparação anual, a produção ainda apresentou ligeira alta de 0,6%, enquanto o consumo diminuiu 0,2%.

O desequilíbrio ajuda a sustentar volumes elevados de exportação.

Os embarques chineses permaneceram acima de 10 milhões de toneladas, patamar descrito pelo relatório como historicamente elevado. Paralelamente, os estoques continuaram crescendo e, no caso dos laminados planos, terminaram julho 29,2% acima do nível registrado no mesmo período de 2025.

A combinação é particularmente relevante para países importadores.

Consumo interno fraco, produção elevada e estoques crescentes aumentam a necessidade de direcionar parte da oferta chinesa ao mercado internacional.

E a consequência aparece nos preços.

As cotações da bobina laminada a quente na China recuaram 2,3% em julho, ficando em média em US$ 486 por tonelada, segundo os dados apresentados no relatório.

Isso mantém a competitividade da oferta chinesa no mercado internacional e aumenta a pressão sobre produtores instalados em outras regiões.

A situação contrasta fortemente com os Estados Unidos.

No mercado norte-americano, a bobina laminada a quente avançou 2,7% em julho e encerrou o mês em US$ 1.191 por tonelada, acumulando valorização superior a 40% em doze meses.

A produção norte-americana também permaneceu elevada, com crescimento anual de 8,7%, enquanto as importações recuaram 22,9%, para 2,1 milhões de toneladas.

Formam-se, assim, dois mercados siderúrgicos bastante diferentes.

De um lado, os Estados Unidos apresentam preços elevados, produção crescente e menor participação das importações.

Do outro, a China convive com demanda doméstica mais fraca, estoques elevados, preços pressionados e exportações historicamente altas.

O Brasil encontra-se exposto justamente a essa reorganização do comércio internacional.

Defesa comercial entra em nova fase

O cenário ajuda a mostrar por que a discussão brasileira sobre defesa comercial não termina com a criação de uma medida antidumping ou de outro mecanismo de proteção.

O verdadeiro teste ocorre posteriormente.

É necessário observar se as medidas conseguem alterar de maneira persistente a composição da oferta no mercado doméstico e reduzir distorções sem comprometer o abastecimento dos consumidores industriais.

Junho mostra que esse equilíbrio permanece em construção.

A participação de 22,1% das importações no consumo aparente praticamente devolveu o indicador à sua média recente, mesmo depois da redução observada nos meses anteriores.

Isso não significa que todo o aço importado esteja sujeito às mesmas medidas ou que o crescimento mensal possa ser atribuído exclusivamente a um país.

Produtos, origens e enquadramentos comerciais são diferentes.

Esse cuidado é fundamental.

Mas o ambiente chinês cria uma pressão estrutural sobre o comércio internacional de aço que não pode ser ignorada.

Enquanto o consumo doméstico chinês permanecer relativamente fraco e a produção continuar elevada, o excedente precisará encontrar mercados.

O desafio brasileiro, portanto, não consiste simplesmente em reduzir qualquer importação.

Está em assegurar condições competitivas equilibradas para a indústria nacional diante de uma oferta internacional que pode responder rapidamente às diferenças de preço e demanda entre regiões.

Esse ambiente também ajuda a explicar outro indicador apresentado pelo BB Investimentos.

A confiança do empresário da indústria brasileira do aço caiu 2,2 pontos em julho, para 45,6 pontos, permanecendo abaixo da linha de 50 pontos. Enquanto isso, o Índice de Preços ao Produtor da metalurgia apresentou pequena alta mensal de 0,29% em junho.

A combinação sugere um setor que ainda encontra dificuldade para construir uma percepção mais positiva sobre os próximos meses.

Mercado spot também mostra pouca pressão de alta

Essa leitura encontra correspondência no comportamento recente dos Índices dos Aços da Infomet para o mercado spot brasileiro.

Em julho, o Índice do Aço Laminado à Quente (BQ) recuou 0,14% em relação a junho, passando de 364,55 para 364,05.

O Índice do Aço Laminado à Frio (BF) caiu 0,20%, de 353,70 para 353,00.

No galvanizado, a retração foi mais intensa, de 1,08%, enquanto chapa grossa permaneceu estável.

Entre os produtos longos e derivados acompanhados pela Infomet, o vergalhão apresentou queda de 0,34%, a cantoneira recuou 0,02% e a telha registrou retração de 4,84%.

Os indicadores da Infomet não são cotações diretas de preços de usinas, mas índices destinados a acompanhar a variação acumulada do mercado spot do aço.

Observados em conjunto com o cenário de importações, ajudam a compor uma leitura de mercado na qual ainda não existe pressão generalizada de valorização.

É importante não atribuir diretamente as variações dos índices ao crescimento das importações de junho.

Existem diversos fatores atuando simultaneamente sobre o mercado spot, incluindo demanda, estoques, negociações entre compradores e fornecedores, condições de crédito e disponibilidade dos diferentes produtos.

Mas o aumento da oferta importada acrescenta um componente competitivo importante a esse ambiente.

Quanto maior a disponibilidade de alternativas internacionais economicamente viáveis, maior tende a ser a dificuldade para sustentar movimentos generalizados de valorização no mercado doméstico.

Produção doméstica enfrenta o paradoxo da demanda

Talvez o aspecto mais importante dos dados brasileiros esteja justamente na combinação entre aumento do consumo aparente e queda da produção de laminados.

Em tese, maior consumo representa uma condição favorável à indústria.

Mas a origem do material que atende esse crescimento é determinante para definir quanto dessa expansão se transforma efetivamente em atividade industrial no país.

Em junho, enquanto o consumo aparente avançou 4,3%, a produção de laminados caiu 9,8%.

Nos planos, a retração da produção chegou a 17,8%, justamente em um mês marcado por forte crescimento das importações dessa categoria.

Essa divergência merece ser acompanhada.

Se o consumo continuar crescendo e a produção nacional recuperar espaço, a expansão da demanda poderá contribuir para elevar a utilização das capacidades instaladas.

Se uma parcela crescente desse consumo for atendida pelo exterior, o efeito industrial doméstico será menor.

Para siderúrgicas brasileiras, portanto, a discussão sobre importações não envolve apenas participação de mercado.

Envolve utilização das usinas, diluição de custos fixos, rentabilidade e capacidade de investir.

E os efeitos descem pela cadeia.

Distribuidores, centros de serviços e consumidores industriais também precisam administrar diferenças entre produto nacional e importado em termos de preço, prazo de entrega, estoques, câmbio, financiamento e previsibilidade de fornecimento.

Por isso, a dinâmica das importações continuará sendo uma das principais variáveis do mercado brasileiro de aço no segundo semestre.

Perspectivas

Junho, isoladamente, não permite concluir que as medidas de defesa comercial adotadas pelo Brasil tenham perdido eficácia. No primeiro semestre, as importações ainda acumulam queda de 17,6% e sua participação no consumo aparente diminuiu de 23,3% para 19,5%.

O salto mensal de 52,4%, entretanto, funciona como um alerta.

Ele mostra que a pressão externa não desapareceu e que a oferta internacional continua capaz de recuperar rapidamente participação no mercado brasileiro.

A China será uma variável central nessa equação. Com exportações mensais acima de 10 milhões de toneladas, estoques elevados, consumo interno enfraquecido e preços pressionados, o país permanece como importante fonte de oferta para o mercado internacional.

Para a siderurgia brasileira, o teste da defesa comercial entra agora em uma etapa mais complexa.

Não será suficiente observar se as importações diminuem em determinado mês ou semestre.

Será necessário verificar se as medidas conseguem produzir uma mudança mais duradoura na dinâmica competitiva, especialmente em períodos nos quais o consumo doméstico brasileiro aumenta.

O dado de junho deixa uma pergunta importante para o segundo semestre: se o mercado brasileiro consumir mais aço, quanto desse crescimento será atendido pelas usinas nacionais e quanto continuará encontrando no produto importado sua principal porta de entrada?

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 11/08/2026

 

Além do preço e da dimensão, indústria amplia atenção à especificação dos tubos de aço

Um tubo de aço pode parecer, à primeira vista, um produto relativamente simples de especificar. Diâmetro, espessura, comprimento e preço costumam estar entre as primeiras informações consideradas em uma compra industrial.

Na prática, entretanto, essas características não são suficientes para determinar se um tubo é adequado a determinada aplicação.

Produtos com dimensões semelhantes e aparência praticamente idêntica podem ter sido fabricados segundo normas diferentes, possuir propriedades mecânicas distintas e atender a condições de operação que não são intercambiáveis.

É justamente nesse ponto que as normas técnicas ganham importância crescente na especificação e aquisição de tubos de aço utilizados pela indústria.

Sob a ótica da Infomet, a questão vai além do cumprimento formal de uma norma.

Comprar um tubo industrial não significa adquirir apenas uma geometria.

Significa adquirir um produto capaz de apresentar determinado desempenho nas condições previstas pelo projeto.

Pressão, temperatura, tipo de fluido, ambiente de instalação, carregamento estrutural, propriedades mecânicas, tolerâncias dimensionais, processo de fabricação e requisitos de inspeção podem alterar completamente a especificação necessária.

Essa diferença ajuda a explicar a existência de diversas famílias normativas utilizadas no mercado brasileiro.

Entre os exemplos encontrados nos materiais técnicos analisados estão normas brasileiras, norte-americanas, alemãs e especificações destinadas a setores específicos. NBR 5580, NBR 5590, ASTM A53, ASTM A106, ASTM A178, ASTM A214, ASTM A500 e API 5L, entre outras, aparecem associadas a aplicações que vão de estruturas e instalações comuns de condução até caldeiras, trocadores de calor e sistemas ligados à indústria de petróleo e gás.

Isso não significa que uma norma seja, de maneira abstrata, superior a outra.

Elas atendem a requisitos e aplicações diferentes.

A questão central para o comprador industrial é identificar qual especificação corresponde às condições reais do projeto.

A NBR 5580 ajuda a demonstrar essa lógica.

O material técnico analisado descreve a norma como destinada a tubos de aço-carbono para condução de fluidos, incluindo aplicações envolvendo água, gás, vapor e ar comprimido. Os produtos são classificados em diferentes classes e a especificação estabelece requisitos relacionados a dimensões, fabricação, revestimento, fornecimento e controle de qualidade.

Um aspecto importante é o ensaio hidrostático.

Segundo o material, os tubos enquadrados na NBR 5580 devem passar por ensaio de pressão hidrostática de 5 MPa durante pelo menos cinco segundos.

Esse exemplo mostra por que a norma interfere diretamente na função do produto.

Não se trata apenas de determinar quanto mede o tubo.

Há requisitos destinados a verificar se ele possui características compatíveis com a utilização prevista.

Em aplicações mais exigentes, as diferenças tornam-se ainda mais evidentes.

A ASTM A106, por exemplo, é apresentada nos materiais como especificação para tubos de aço-carbono sem costura destinados a serviços em altas temperaturas. Além da composição química, são estabelecidos requisitos relacionados às propriedades mecânicas e às condições necessárias para utilização em sistemas industriais submetidos a temperatura e pressão elevadas.

Entre as aplicações mencionadas estão sistemas industriais de condução, instalações de energia e equipamentos submetidos a condições operacionais mais severas.

Já a API 5L aparece associada a tubos com ou sem costura utilizados na condução de petróleo, gás natural e outros fluidos relacionados às atividades de refino e petroquímica.

A diferença torna-se ainda mais clara quando a condução de fluidos é comparada às aplicações estruturais.

A NBR 8261 é descrita nos materiais como aplicável a tubos de aço-carbono formados a frio destinados a estruturas soldadas, parafusadas ou rebitadas, podendo ser fornecidos em seções circulares, quadradas ou retangulares. A norma diferencia graus de acordo com composição química, tratamento e propriedades mecânicas.

A ASTM A500 aparece com finalidade estrutural semelhante, também contemplando seções circulares, quadradas e retangulares e diferentes graus do material.

A consequência para a área de compras é relevante.

Dois tubos podem possuir dimensões externas próximas e ainda assim terem sido concebidos para funções diferentes.

Um pode ser destinado principalmente a uma estrutura.

Outro, à condução de um fluido.

Outro, a condições de temperatura elevada.

Outro, a equipamentos que exigem tolerâncias dimensionais mais restritas.

Por isso, comparar produtos apenas pelo diâmetro, espessura aparente e preço pode produzir uma falsa equivalência.

Essa é provavelmente uma das questões mais importantes para o mercado spot.

Em uma negociação industrial, uma oferta de menor valor só representa efetivamente uma alternativa competitiva se o produto atender às exigências técnicas da aplicação.

Caso contrário, não se está comparando o mesmo produto.

A especificação passa, portanto, a fazer parte da própria comparação econômica.

Isso não significa que todo projeto necessite do tubo tecnicamente mais sofisticado disponível.

O raciocínio correto é justamente o contrário.

A especificação deve ser compatível com a aplicação.

Utilizar um produto com requisitos desnecessariamente elevados pode aumentar custos sem benefício correspondente. Utilizar uma especificação insuficiente, por outro lado, pode comprometer desempenho, vida útil, manutenção e segurança.

A engenharia precisa encontrar o ponto adequado entre essas duas situações.

Essa lógica também ajuda a compreender por que a expressão "tubo de aço carbono" descreve uma família muito ampla de produtos.

Dentro dela existem diferenças relacionadas à composição química, propriedades mecânicas, presença ou ausência de costura, método de fabricação, tratamento térmico, acabamento, espessura, tolerâncias e ensaios exigidos.

Os tubos de precisão são outro exemplo.

Os materiais analisados descrevem normas DIN destinadas a produtos trefilados com tolerâncias dimensionais mais restritas, incluindo aplicações mecânicas e hidráulicas nas quais a exatidão dos diâmetros e a qualidade superficial ganham importância.

Em outras aplicações, a capacidade de conformação posterior pode ser determinante.

Tubos utilizados em trocadores de calor, condensadores e equipamentos semelhantes podem precisar suportar operações como flangeamento, dobramento, achatamento, ovalização ou formação de serpentinas.

A norma, portanto, não descreve apenas o produto recebido pelo comprador.

Em muitos casos, ela também está relacionada ao que esse produto precisará suportar posteriormente durante fabricação, montagem e operação.

Essa característica amplia a importância da comunicação entre engenharia, suprimentos e fornecedores.

A área de compras busca preço, disponibilidade e prazo.

A engenharia define desempenho e requisitos técnicos.

A manutenção conhece as condições reais de operação.

E o fornecedor precisa demonstrar que o material entregue corresponde ao que foi especificado.

Quando essas informações não estão alinhadas, aumenta o risco de selecionar um produto aparentemente equivalente, mas inadequado à aplicação.

É nesse ponto que documentação e rastreabilidade também ganham relevância.

Em aplicações industriais críticas, conhecer a norma aplicável, o grau do material, as propriedades especificadas e os requisitos de inspeção pode ser tão importante quanto conferir as dimensões físicas do produto recebido.

Para distribuidores e centros de serviços, essa transformação também possui implicações.

Quanto mais sofisticada a demanda industrial, menos eficiente se torna tratar tubos apenas como produtos diferenciados por bitola e espessura.

Conhecimento técnico sobre aplicação, norma e condição de fornecimento passa a agregar valor à distribuição.

Sob a ótica da Infomet, essa evolução possui uma consequência particularmente importante para o mercado de aço.

Preço continua sendo fundamental.

Mas preço somente pode ser comparado depois que se estabelece o que efetivamente está sendo comprado.

Uma cotação inferior para um produto que não atende às mesmas condições de projeto não representa necessariamente economia.

Da mesma forma, especificar requisitos superiores aos necessários pode elevar desnecessariamente o custo da aquisição.

O desafio está em equilibrar desempenho e competitividade.

É justamente para isso que existem as especificações técnicas.

Perspectivas

A maior complexidade das instalações industriais, dos projetos de energia, petróleo e gás, infraestrutura e equipamentos tende a manter elevada a importância da correta especificação dos tubos de aço. Para compradores, engenheiros, distribuidores e fornecedores, a tendência é de maior integração entre critérios comerciais e técnicos, com atenção crescente a propriedades mecânicas, processo de fabricação, tolerâncias, ensaios e condições de operação. Normas diferentes não representam simplesmente níveis distintos de qualidade, mas produtos desenvolvidos para funções e requisitos específicos. No mercado industrial, portanto, a comparação começa antes do preço: começa pela definição de quais materiais são tecnicamente comparáveis. Comprar aço não é comprar apenas dimensão e peso. É comprar desempenho especificado para uma determinada aplicação.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 10/08/2026

 

Muito além dos chips: expansão dos data centers abre nova fronteira de demanda para o aço no Brasil

Durante décadas, a evolução do consumo de aço esteve associada principalmente à construção civil, à indústria automobilística, à infraestrutura de transportes, ao petróleo e gás e à fabricação de máquinas e equipamentos. Agora, uma atividade essencialmente digital começa a ganhar relevância como novo vetor de demanda para a indústria de base: a expansão dos data centers.

O crescimento da inteligência artificial, da computação em nuvem e do armazenamento de dados exige instalações cada vez maiores e mais complexas. Embora essa transformação seja normalmente analisada sob a ótica dos semicondutores, dos softwares e da capacidade computacional, sua sustentação depende de uma infraestrutura física intensiva em aço, energia, equipamentos elétricos e construção industrial.

Essa é a principal transformação indicada pelas declarações recentes da Gerdau.

O presidente da companhia, Gustavo Werneck, afirmou que os investimentos em data centers já ampliam significativamente o consumo de aço nos Estados Unidos, onde a carteira de pedidos da empresa ganhou força nos últimos 12 meses. Segundo o executivo, a demanda não decorre apenas da construção das instalações, mas também da infraestrutura de geração e transmissão de energia necessária para alimentá-las.

Sob a ótica da Infomet, esse movimento representa uma mudança importante na composição futura da demanda siderúrgica.

Um data center não é apenas um grande galpão equipado com servidores.

Sua implantação exige fundações, estruturas metálicas, coberturas, pisos técnicos, racks, sistemas de suporte, tubulações, equipamentos de refrigeração, geradores de emergência, subestações, transformadores e redes de conexão elétrica. Ao redor da instalação principal, surgem ainda investimentos em geração de energia, linhas de transmissão e torres metálicas.

O aço, portanto, aparece em diferentes etapas do empreendimento.

Primeiro, na construção do próprio centro de processamento.

Depois, na infraestrutura energética que permite sua operação contínua.

Essa característica amplia o efeito industrial dos projetos. Quanto maior a capacidade computacional instalada, maior tende a ser a necessidade de energia e, consequentemente, de redes elétricas, subestações e equipamentos associados.

A Gerdau afirma que esse processo já pode ser observado de forma concreta nos Estados Unidos. O avanço dos investimentos das grandes empresas globais de tecnologia vem sustentando uma demanda considerada relevante por aço destinado a edificações, fundações, torres de transmissão, linhas elétricas e projetos de geração de energia.

O impacto ultrapassa a siderurgia.

A expansão dos data centers movimenta fabricantes de transformadores, cabos, painéis elétricos, sistemas de refrigeração, geradores, estruturas metálicas e equipamentos de automação. Também amplia a demanda por engenharia, montagem industrial, obras civis especializadas e serviços de manutenção.

Forma-se, assim, uma cadeia produtiva que conecta a economia digital à indústria pesada.

Essa talvez seja a principal pauta escondida.

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma tecnologia imaterial, baseada em dados e algoritmos. Na prática, porém, sua expansão depende de uma extensa infraestrutura física.

Quanto maior o uso de aplicações digitais, maior a necessidade de armazenamento e processamento.

Mais processamento exige novos data centers.

Novos data centers demandam energia, construção, equipamentos e aço.

A digitalização, portanto, não reduz a importância da indústria de base. Em determinadas áreas, pode ampliá-la.

O Brasil ainda se encontra atrás dos Estados Unidos na atração desses investimentos. Werneck reconheceu que o mercado nacional não possui, no curto prazo, a mesma dimensão observada na América do Norte. Ainda assim, avaliou que o crescimento dos data centers no país é uma questão de tempo, diante da necessidade crescente de capacidade de armazenamento e processamento de dados.

Essa perspectiva se apoia, principalmente, na estrutura energética brasileira.

O país possui uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis, condição que pode ganhar importância à medida que empresas de tecnologia buscam reduzir as emissões associadas às suas operações. Ao mesmo tempo, a expansão dos projetos dependerá da disponibilidade efetiva de energia, de conexões à rede, de segurança no abastecimento e de infraestrutura de transmissão.

Esse é um ponto central.

A atração de um data center não depende apenas da disponibilidade de terrenos ou de incentivos fiscais.

A operação exige fornecimento de energia em larga escala, estabilidade do sistema elétrico, conectividade, disponibilidade de água ou soluções alternativas de refrigeração e condições regulatórias capazes de sustentar investimentos de longo prazo.

O próprio presidente da Gerdau reconheceu que o consumo de energia e água dessas instalações provoca discussões relevantes. Na avaliação do executivo, entretanto, esses desafios são contornáveis e não deverão impedir a continuidade dos investimentos globais, impulsionados pelo avanço da inteligência artificial.

Essa leitura recomenda uma abordagem equilibrada.

Os data centers representam uma oportunidade para a indústria brasileira, mas não constituem uma solução automática para a demanda por aço.

A conversão desse potencial em encomendas efetivas dependerá da quantidade de projetos realmente contratados, da escala das instalações, do conteúdo nacional incorporado às obras e da capacidade dos fornecedores brasileiros de atender às especificações técnicas exigidas.

Também será necessário observar quais produtos siderúrgicos poderão capturar a maior parte dessa demanda.

Estruturas de edificações e instalações auxiliares tendem a utilizar perfis, chapas, barras e tubos. Torres de transmissão e subestações demandam estruturas metálicas, perfis, parafusos, cabos e equipamentos eletromecânicos. Geradores, transformadores, sistemas de refrigeração e painéis industriais ampliam ainda o consumo indireto de aço por fabricantes de bens de capital.

A oportunidade não se concentra, portanto, em um único produto.

Ela se distribui por diferentes segmentos da siderurgia e da cadeia metalmecânica.

Outro aspecto relevante está na duração dessa demanda.

Projetos tradicionais de infraestrutura possuem começo e fim relativamente definidos. A economia digital, por sua vez, tende a exigir expansão contínua da capacidade de processamento, acompanhando o crescimento do tráfego de dados, da computação em nuvem e das aplicações de inteligência artificial.

Isso poderá criar uma sequência prolongada de investimentos, desde que o Brasil consiga consolidar condições competitivas para receber os empreendimentos.

A experiência da Gerdau nos Estados Unidos oferece uma indicação desse potencial. A companhia relata aumento do backlog associado não apenas à construção dos centros de dados, mas também aos projetos energéticos necessários para sustentá-los. A demanda, portanto, aparece de forma distribuída por diferentes frentes de investimento.

Para a siderurgia brasileira, esse novo mercado surge em um momento de margens pressionadas e forte concorrência das importações.

Os executivos da Gerdau afirmaram que os resultados atuais no Brasil ainda não justificam, por si só, uma expansão de longo prazo, embora a empresa continue investindo para obter ganhos graduais de competitividade. No primeiro semestre, a companhia investiu R$ 1,7 bilhão no país, valor superior ao resultado operacional mencionado pelos executivos para o período.

Nesse contexto, a criação de novas fontes de consumo doméstico ganha importância estratégica.

Os data centers não deverão substituir os mercados tradicionais do aço. Construção, veículos, máquinas, energia e infraestrutura continuarão sendo fundamentais.

A mudança está na incorporação de um novo consumidor, ligado diretamente à expansão da economia digital.

Essa demanda também poderá reforçar o desenvolvimento de produtos com maior valor agregado. Projetos de grande escala exigem precisão dimensional, resistência, qualidade superficial, confiabilidade e rastreabilidade dos materiais empregados, abrindo espaço para fornecedores capazes de oferecer soluções específicas e serviços técnicos associados.

Mais do que fornecer tonelagem, as siderúrgicas poderão ser chamadas a participar da engenharia dos projetos, desenvolver soluções estruturais e garantir regularidade no abastecimento.

Na avaliação da Infomet, essa é a principal oportunidade revelada pelas declarações da Gerdau.

A inteligência artificial não cria apenas demanda por chips.

Ela exige prédios, subestações, torres, linhas, equipamentos, sistemas de refrigeração e geração de energia.

Em outras palavras, a expansão do mundo digital depende de uma infraestrutura profundamente material.

Perspectivas

Os próximos anos deverão mostrar se o Brasil conseguirá transformar suas vantagens energéticas em uma plataforma competitiva para data centers. A velocidade desse movimento dependerá da disponibilidade de energia, da expansão das redes de transmissão, da segurança regulatória e da capacidade de execução dos projetos. Para a siderurgia, o avanço dessas instalações poderá abrir uma nova frente de consumo de aço estrutural, chapas, perfis, tubos e componentes destinados à infraestrutura elétrica e aos bens de capital. O impacto não deverá ocorrer de forma imediata nem uniforme, mas a experiência observada nos Estados Unidos indica que a economia digital pode se tornar um consumidor relevante da indústria pesada. Muito além dos chips e dos servidores, a próxima etapa da inteligência artificial poderá ser construída com aço.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 06/08/2026

 

Câmara aprova PL dos minerais críticos e redefine estratégia

A aprovação do PL 2780/2024 pela Câmara dos Deputados marca uma mudança importante na política mineral brasileira.

O texto aprovado consolida a percepção de que minerais críticos deixaram de ser apenas commodities exportáveis e passaram a ocupar posição estratégica na disputa global por indústria, tecnologia e segurança econômica.

A votação ocorreu em meio a forte pressão política e empresarial. O relatório inicial apresentado no início da semana provocou reação imediata de mineradoras e investidores estrangeiros ao ampliar significativamente o poder de supervisão estatal sobre ativos considerados estratégicos.

O texto aprovado nesta quarta-feira (6), porém, sofreu alterações relevantes nas negociações finais. Governo e lideranças partidárias atuaram para reduzir dispositivos considerados excessivamente intervencionistas, especialmente aqueles relacionados às atribuições do futuro comitê interministerial da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Na versão aprovada, o comitê preserva funções de coordenação estratégica e definição de prioridades nacionais, mas perdeu parte das prerrogativas originalmente previstas para acompanhar reorganizações societárias e operações empresariais no setor mineral. A mudança buscou reduzir temores de insegurança regulatória.

Ainda assim, o núcleo econômico do projeto foi mantido. O PL cria instrumentos para estimular o processamento mineral no Brasil e reduzir a dependência histórica da exportação de minério bruto, incentivando etapas de beneficiamento, refino químico e industrialização doméstica.

O texto também prevê a criação de um fundo voltado ao financiamento de pesquisa mineral, inovação tecnológica e desenvolvimento industrial associado aos minerais críticos. A proposta busca direcionar recursos da própria atividade mineral para ampliar capacidade tecnológica e agregação de valor no país.

Outro ponto relevante é o escalonamento dos incentivos fiscais conforme o grau de processamento realizado em território nacional. Na prática, os benefícios aumentam à medida que empresas avancem da simples extração para etapas mais sofisticadas de separação química, refino e manufatura tecnológica.

A inclusão dos fertilizantes na política mineral reforça esse componente estratégico. O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que consome, condição que expõe o país a crises logísticas e oscilações geopolíticas internacionais.

O projeto aprovado tenta equilibrar dois objetivos frequentemente conflitantes: ampliar a coordenação estatal sobre recursos estratégicos sem produzir um ambiente de insegurança capaz de afastar investimentos privados.

O resultado final mostra que o Brasil começa a tratar minerais críticos de forma semelhante ao que grandes potências já fazem há vários anos: como instrumentos de política industrial, segurança econômica e competição tecnológica global.

O desafio agora será transformar reservas minerais em capacidade industrial efetiva. O protagonismo brasileiro dependerá menos da existência de jazidas e mais da capacidade de converter recursos naturais em cadeias tecnológicas sofisticadas, competitivas e previsíveis.

O texto segue, agora, para apreciação do Senado.

 
Fonte: CNN
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 06/08/2026

 

Brasil já é o maior importador de carro chinês do mundo

O Brasil se tornou em 2026, pela primeira vez, o principal importador de carros chineses no mundo. De janeiro a maio deste ano o país comprou US$ 5,2 bilhões em veículos eletrificados ou convencionais, superando compradores mais tradicionais como Rússia (US$ 5 bilhões) e Bélgica (US$ 3,8 bilhões) para chegar ao topo do ranking.

Os dados da alfândega chinesa mostram que as compras automóveis do gigante asiático mais que dobraram em relação aos US$ 2,1 bilhões registrados no mesmo período do ano passado - alta de 146,9%. Naquele momento, o Brasil ocupava o sexto lugar entre maiores importadores.

 

O movimento é liderado pelos carros eletrificados, cuja importação somou US$ 4,5 bilhões nos primeiros cinco meses do ano. Apenas nos meses de abril e maio, o volume alcançou US$ 2,7 bilhões.

O Brasil também assumiu a dianteira das importações no segmento específico de automóveis eletrificados. Bélgica (US$ 3,8 bilhões) e Reino Unido (US$ 3,4 bilhões) completam o top 3. A fatia de elétricos e híbridos no total das importações de veículos da China para o Brasil passou de 33% em 2021 para 87% em 2025.

Entre os motivos apresentados por analistas para a forte aceleração das importações nessa categoria estão a corrida para aproveitar de tributação menor no país, uma política de exportações mais agressiva da China para compensar a fraqueza da demanda doméstica e a crescente aceitação do consumidor, não apenas brasileiro, dos veículos eletrificados - puros ou híbridos -, nicho que as chinesas dominaram, deixando tradicionais montadoras americanas, europeias e outras asiáticas comendo poeira.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic) organizados pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) mostram que o país comprou US$ 5,35 bilhões no primeiro semestre em veículos chineses - mais que o dobro de todas as importações de origem francesa (US$ 2,6 bilhões).

Entre categorias, o destaque ficou com os híbridos plug-in, que responderam por pouco mais da metade (US$ 2,79 bilhões) desse total. O grupo dos veículos eletrificados respondeu por aproximadamente 15% de tudo o que o Brasil importou da China no período.

Diretor de conteúdo e pesquisa do CEBC, Tulio Cariello destaca como motivo da aceleração da importação o calendário de aumento das tarifas de importação brasileira, que passou de 25% e 30% a depender da categoria para 35%.

“Houve intensificação das importações para escapar da tarifa. A partir de agora, deve ocorrer alguma acomodação, à medida em que as vendas no mercado doméstico sejam atendidas pelo estoque formado”, diz. “Por outro lado, não acredito que haverá queda forte, uma vez que há interesse alto do brasileiro, inclusive das classes média e média alta. O carro elétrico virou um desejo de consumo, e carro elétrico se tornou sinônimo de carro chinês.”

De janeiro a junho, o país vendeu 215.023 veículos eletrificados leves, alta de 125% ante as 95.493 unidades vendidas no mesmo período do ano anterior, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). É um ritmo seis vezes maior que o do setor como um todo, que avançou 19,4% no período, nas estatísticas da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). No Brasil, a fatia dos eletrificados na venda domestica saltou para 18% em junho, de 7,7% na mesma comparação.

Ainda segundo a Anfavea, o emplacamento de carros elétricos no primeiro semestre saltou a 91 mil, contra 31 mil no mesmo período de 2025, alta de 193%. Já o de híbridos plug-in cresceu 90% e o de híbridos convencionais, 81%.

Fabiana D’Atri, economista da Bradesco Asset Management (Bram), nota que a alta das importações também tem passa pelo maior fomento das exportações como um todo por parte da China. “A demanda doméstica caiu bastante. Os dados do segundo trimestre mostram esse descompasso do mercado doméstico crescendo em ritmo bem mais moderado que as exportações. O setor externo complementa o doméstico”, diz.


"Não acredito que haverá queda forte [da importação], uma vez que há interesse alto do brasileiro”
— Tulio Cariello

Divulgado na semana passada, o PIB chinês do segundo trimestre expandiu 4,3% em base anual, abaixo expectativas de analistas, que culparam o consumo mais frágil que o esperado das famílias e do governo. O movimento e levanta dúvidas sobre a capacidade do país de atingir a meta estabelecida por Pequim de crescimento para o ano, que é de 4,5% a 5%.

Por outro lado, as exportações, por sua vez, avançaram 27% em junho na comparação interanual, bem acima da projeção de 18%. Apenas a exportação de veículos saltou 71,2% em junho na comparação com igual mês de 2025, batendo 1,06 milhão de unidades, segundo o Financial Times. Sozinha, a BYD teria vendido 175 mil carros para o mercado externo, alta de 95%. As vendas externas responderam por 43% da produção da gigante do setor.

No caso dos veículos eletrificados, pesa também o fato de que a China entende que o produto é competitivo e tem tecnologias modernas. “Para o Brasil e outros mercados, à medida que produtos são testados e aprovados pela população, vira uma situação de quanto mais tem, mais vai ter. Neste sentido, não vejo freada na entrada de veículos chineses, é uma mudança estrutural. Pode haver queda com a nacionalização da produção, mas sabemos que este é um processo lento”, nota D’Atri.

Ao menos oito marcas chinesas já produzem ou anunciaram intenção de produzir no Brasil, seja com fábrica própria, seja em parceria com montadoras já instaladas, mas o gigante asiático possui mais de uma centena de fabricantes. A economista avalia, no entanto, que nem todas as marcas que aqui chegarão podem terminar produzindo localmente.

“Alguns produtos, mesmo com as novas tarifas, manterão preços vantajosos e qualidade que não se encontra aqui, ainda que o preço fique menos convidativo. O consumidor pode optar por pagar a mais pelo pacote, e as fabricantes também podem oferecer desconto para se manter competitivas no mercado.”

Vigente desde o início de julho, a tarifa de 35% para eletrificados e híbridos veio acompanhada de uma nova cota de importação com alíquota zero para carros semimontados (SKD) ou desmontados (CKD) no valor de US$ 463 milhões. A renovação da cota gerou protestos por parte da Anfavea, mas se encaixa na estratégia do governo federal de atrair essas montadoras para o país, diz João Carmo, da 4intelligence.

“Era algo esperado e uma via de mão dupla. O governo mantém aberta uma porta - pequena - para a importação como forma de dar mais tempo para as chinesas se estabelecerem no país e, futuramente, trazer sua produção para cá”, diz o economista. Ele lembra que políticas de incentivo recente ao setor, como o Move Brasil para taxistas e motoristas de aplicativo, e o Mover, privilegiam eficiência energética e, com isso, integram a estrutura de incentivos do governo em direção à eletrificação da frota.

A internalização da produção para atender o mercado doméstico pode, futuramente, ajudar no reequilíbrio ou reversão da balança de veículos, segue o economista. “O país ainda é exportador para a Argentina, Colômbia e México, e as chinesas também têm interesse em acessar esses mercados.”

Como mostrou o Valor, a balança de automóveis fechou o primeiro semestre com déficit de US$ 5,32 bilhões, o mais profundo da série histórica iniciada em 1997. Enquanto as exportações patinaram, na esteira da menor demanda de mercados como o argentino, as importações explodiram, alcançando US$ 7,79 bilhões. A fatia chinesa saltou de 5% em 2021 para 72% ano passado. Entre categorias, a parcela dos 100% elétricos, híbridos ou híbridos plug-in passou de 17% para 79%.

Welber Barral, sócio da consultoria BMJ, acrescenta o fato de que muitos países desenvolvidos aplicaram tarifas maiores que as brasileiras aos elétricos chineses. “Explica, até certo ponto, o desvio de comércio em direção ao mercado brasileiro, que permanece relativamente mais aberto que os demais.”

Ele também avalia que a guerra no Oriente Médio no primeiro semestre e o salto dos preços de petróleo ajudaram a impulsionar a atratividade do segmento. “Existe essa avaliação que o [presidente dos Estados Unidos, Donald] Trump acabou ajudando muito a agenda verde por causa dos sustos e da imprevisibilidade em relação ao preço do combustível, especialmente nos países desenvolvidos.”

D’Atri minimiza o peso do episódio. “Acho que é a questão é mais estrutural. O choque de preços foi temporário e não houve efetivamente uma restrição de produto, como em outros momentos”, diz. “O carro chinês tem vantagens competitivas que independem desse choque pontual. O desafio é outro: abastecimento e manutenção, mas estes também têm diminuído bastante. As empresas que começam a se estabelecer também acabam expandindo para o pós-venda e desenvolvendo parcerias locais com fornecedores.”

 

 
Fonte: Valor
Seção: Automobilística & Autopeças
Publicação: 28/07/2026

 

Amazônia Legal concentra quase metade dos processos de mineração de minerais estratégicos no Brasil

A Amazônia Legal concentra quase metade dos processos de mineração relacionados a minerais considerados críticos e estratégicos no Brasil, mas ainda explora uma parcela limitada de seu potencial. As informações fazem parte de um diagnóstico elaborado pela Agência Nacional de Mineração, divulgado pela Agência Gov, que busca oferecer uma base técnica para a construção de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Atualmente, a atividade mineral na região está concentrada principalmente na extração de ferro, bauxita, cobre e ouro. Minerais fundamentais para setores como tecnologia, defesa e transição energética, entre eles cobalto, terras raras e potássio, ainda não possuem produção significativa na Amazônia Legal.

Segundo João Vasconcelos, representante da ANM citado no estudo, “uma política pública de minerais críticos e estratégicos só é robusta quando parte de evidência”.

Quase metade dos processos está na Amazônia Legal

De acordo com o levantamento, 48,2% dos processos minerários de minerais estratégicos registrados no Brasil estão localizados na Amazônia Legal.

O Pará concentra 51% desses processos, seguido por Mato Grosso, com 19%, e Rondônia, com 10,3%. O ouro predomina em cerca de 67% das operações analisadas, indicando que a atividade mineral regional permanece fortemente concentrada em poucos produtos.

O diagnóstico aponta que a diversificação da mineração dependerá da ampliação dos investimentos em pesquisa geológica, inovação tecnológica e infraestrutura.

Investimentos somaram R$ 40,4 bilhões

Entre 2006 e 2024, foram investidos R$ 40,4 bilhões em minas e usinas relacionadas a minerais estratégicos na Amazônia Legal.

O cobre respondeu por 31,3% dos recursos, seguido por projetos de níquel, alumínio, ouro e manganês. Apesar do volume expressivo de investimentos, o estudo destaca a ausência de produção relevante de potássio, terras raras e cobalto.

Esses minerais são considerados essenciais para a fabricação de equipamentos eletrônicos, baterias, sistemas de defesa, turbinas eólicas e veículos elétricos.

Pesquisa ainda está concentrada em ouro e cobre

Os investimentos em pesquisa mineral chegaram a R$ 4,9 bilhões no período analisado. O ouro concentrou 65,8% desse valor, enquanto o cobre recebeu 19,1%.

A ANM avalia que será necessário ampliar e diversificar os esforços de pesquisa para transformar o potencial geológico da região em produção efetiva de minerais estratégicos.

A expansão da pesquisa também é apontada como condição necessária para reduzir a dependência brasileira de importações e fortalecer cadeias industriais ligadas à transição energética.

Preservação ambiental e direitos indígenas

O diagnóstico ressalta que o aproveitamento das reservas minerais da Amazônia Legal deve ser acompanhado de uma governança socioambiental rigorosa.

Parte relevante do potencial mineral está localizada em áreas protegidas, territórios indígenas ou regiões de elevada sensibilidade ambiental. Por isso, o estudo defende consulta prévia às comunidades afetadas, licenciamento ambiental adequado e destinação de recursos para o desenvolvimento sustentável dos municípios envolvidos.

“Não dá para planejar o aproveitamento mineral da região de forma responsável sem reconhecer que parte relevante do potencial está em áreas protegidas”, afirmou Vasconcelos.

A ANM também destaca que a exploração mineral deve respeitar os direitos dos povos originários e ser acompanhada de instrumentos capazes de evitar desmatamento, contaminação de rios e conflitos fundiários.

Projetos estruturantes dependem de avanços

O estudo aponta a necessidade de destravar projetos considerados estruturantes para o setor mineral brasileiro, entre eles Autazes, Araguaia e Vermelho.

Para que esses empreendimentos avancem, será necessário ampliar a segurança regulatória, fortalecer parcerias entre os setores público e privado e garantir que as operações cumpram critérios ambientais e sociais.

A demanda global por minerais críticos deve continuar crescendo nos próximos anos, impulsionada pela expansão das energias renováveis, dos veículos elétricos, da indústria de defesa e das tecnologias digitais.

Nesse contexto, a Amazônia Legal poderá desempenhar um papel estratégico, desde que a exploração de seus recursos seja realizada com planejamento, controle público, preservação ambiental e respeito às populações locais.

 
Fonte: Brasil 247
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 27/07/2026