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As reservas brasileiras de terras raras e seus usos na tecnologia

O debate sobre terras raras no Brasil ganhou espaço nos últimos anos, principalmente por causa da transição energética e do avanço das tecnologias digitais. Esse grupo de elementos químicos está presente em diversos produtos do dia a dia, de celulares a turbinas eólicas, e coloca o país em posição estratégica no cenário global. Embora o Brasil ainda não explore todo o seu potencial, estudos apontam que o território brasileiro abriga reservas relevantes de terras raras em diferentes regiões.

Esses minerais não são "raros" no sentido de escassez absoluta, mas a sua concentração em níveis economicamente viáveis é menos frequente. Por isso, localizar jazidas com qualidade adequada e infraestrutura próxima faz diferença. No Brasil, a discussão envolve não apenas onde estão as reservas de terras raras, mas também como transformá-las em produtos de maior valor agregado, evitando a simples exportação de matéria-prima.

Onde estão as principais reservas de terras raras no Brasil?

As principais áreas conhecidas se concentram em estados como Minas Gerais, Goiás, Bahia, São Paulo e Amapá, além de ocorrências importantes na região amazônica. Cada área apresenta características específicas de minério, logística e estágio de pesquisa ou desenvolvimento.

Em Minas Gerais, há depósitos associados a complexos carbonatíticos, como em Araxá, região já conhecida pela produção de nióbio. Em Goiás, áreas como Catalão e Ouvidor também são mencionadas em estudos geológicos por concentrarem minerais com elementos de terras raras. Já no Amapá e em partes da Amazônia, há registros de ocorrências em lateritas e granitos ricos nesses elementos, ainda em diferentes fases de pesquisa.

Quais regiões brasileiras se destacam em terras raras?

Além das jazidas pontuais, alguns cinturões geológicos se sobressaem quando o assunto é reservas de terras raras no Brasil. Na região Nordeste, áreas da Bahiaapresentam potencial em rochas alcalinas e fosfáticas. No Sudeste, além de Minas Gerais, o estado de São Paulo aparece em levantamentos com depósitos menores, mas relevantes para estudos de diversificação de oferta.

De forma geral, podem ser citados alguns polos em evidência:

Minas Gerais e Goiás: depósitos associados a carbonatitos, muitas vezes junto com fosfatos e nióbio;
Bahia: rochas alcalinas e complexos ígneos com potencial para mineração de terras raras;
Amazônia e Amapá: ocorrências em solos lateríticos e granitos, ainda com muitos estudos em andamento;
Sudeste (São Paulo e entornos): áreas com depósitos menores, mas importantes para projetos de pesquisa e desenvolvimento.
Essas regiões diferem em infraestrutura, distância de portos, disponibilidade de energia e mão de obra especializada. Esses fatores influenciam a viabilidade de transformar o potencial geológico em produção efetiva e em cadeia industrial de terras raras no Brasil.

Para que servem as terras raras na prática?

As terras raras brasileiras têm aplicações ligadas a setores considerados estratégicos. Em equipamentos eletrônicos, esses elementos são usados em telas, alto-falantes, baterias e componentes de computadores e smartphones. Na indústria de energia, ganham destaque na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, fundamentais para turbinas eólicas e motores elétricos mais eficientes.

Além disso, as terras raras aparecem em:

Indústria automotiva: motores híbridos e elétricos, sistemas de direção assistida e sensores;
Setor de defesa: radares, sistemas de guiagem e dispositivos de comunicação;
Medicina: contrastes em exames de imagem e alguns tipos de lasers médicos;
Iluminação e displays: LEDs, telas de televisores e monitores;
Catalisadores: usados em refinarias de petróleo e na redução de poluentes.
O uso em tecnologias verdes, como veículos elétricos e geração de energia renovável, faz com que as terras raras sejam associadas à descarbonização da economia. Isso reforça o interesse de diversos países em diversificar fornecedores, o que coloca o potencial brasileiro no radar de empresas e governos.

Como o Brasil pode aproveitar melhor suas terras raras?

Para transformar as reservas de terras raras no Brasil em ganhos concretos, não basta apenas extrair o minério. A etapa crítica está na cadeia de processamento: separação, refino químico e produção de ligas e componentes. Essa fase exige tecnologia, investimentos elevados e controle rigoroso de impactos ambientais, já que o processamento pode gerar resíduos que precisam de manejo adequado.

Especialistas apontam alguns caminhos considerados relevantes:

Mapeamento detalhado das jazidas, com dados atualizados sobre volume, teor e viabilidade econômica;
Incentivo à pesquisa em universidades e centros tecnológicos para desenvolver rotas de processamento mais limpas;
Parcerias industriais para criar fábricas de ímãs, ligas especiais e componentes de alto valor dentro do país;
Regulação ambiental clara, que garanta segurança e previsibilidade para projetos de mineração e refino;
Formação de mão de obra especializada em química, geologia, metalurgia e gestão ambiental.
Com esse conjunto de iniciativas, o tema das terras raras no Brasil tende a permanecer em evidência nos próximos anos. A combinação de reservas geológicas, demanda crescente por tecnologias de baixo carbono e necessidade de diversificar fornecedores internacionais faz do país um ator com potencial relevante nesse mercado, desde que consiga alinhar exploração responsável, inovação e planejamento industrial de longo prazo.

 
Fonte: Giro 10
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 25/02/2026

Redução da jornada de trabalho pode aumentar custo empresarial em até R$ 267 bilhões ao ano

Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que a proposta de redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas pode elevar entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões por ano os custos com empregados formais na economia, o equivalente a um acréscimo de até 7% na folha de pagamentos.

A projeção considera dois cenários para a manutenção do nível de horas trabalhadas: a realização de horas extras aos empregados atuais ou a contratação de novos trabalhadores. Proporcionalmente, o impacto para o setor industrial pode ser ainda maior, chegando a até 11,1% da folha de salários e resultando em aumento de despesas de R$ 87,8 bilhões no primeiro cenário e de R$ 58,5 bilhões anuais no segundo.

Segundo a projeção da CNI, os impactos serão sentidos com maior força na indústria da construção e nas micro e pequenas empresas industriais. De um total de 32 setores industriais, 21 apresentariam elevação de custos acima da média da indústria, independentemente da estratégia adotada pela empresa para manter o número de horas atuais de produção.

Exemplos de impactos por setores econômicos

Indústria da transformação: de 7,7% a 11,6%
Indústria da construção: de 8,8% a 13,2%
Comércio: entre 8,8% e 12,7%
Agropecuária: 7,7% e 13,5%
A proposta tem como resultado imediato o aumento de aproximadamente 10% no valor da hora trabalhada regular para os empregados cujo contrato de trabalho atual exceda 40 horas semanais. Caso as horas não sejam repostas, a redução do limite semanal resultará em queda da atividade econômica.

“Esses dados, combinados com as análises que estamos fazendo sobre o tema, mostram que o mais provável é que a produção seja reduzida e o custo unitário do trabalho aumente, trazendo pressão de custos e perda de competitividade das empresas nacionais. Essa dinâmica provoca queda da produção, do emprego e da renda e, consequentemente, do PIB brasileiro”, alerta o presidente da CNI, Ricardo Alban.

Micro e pequenas empresas industriais sofrerão maior impacto

As empresas industriais de menor porte seriam as mais impactadas pela redução da jornada de trabalho, uma vez que a proporção de empregados com jornadas superiores a 40 horas semanais é maior nessas empresas. 

A CNI também estimou os custos para os dois cenários - manutenção da quantidade de horas trabalhadas integralmente por meio de horas extras e manutenção da quantidade de horas trabalhadas por meio da reposição por outros trabalhadores. 

No primeiro caso, empresas com até 9 empregados teriam uma alta de custos de R$ 6,8 bilhões, o que representa um aumento de 13% nos gastos com pessoal. Nas empresas com 250 empregados ou mais, o aumento chegaria a R$ 41,3 bilhões (9,8% nos gastos com pessoal). 

No segundo cenário, tanto as indústrias com até 9 empregados apresentariam alta de custos de R$ 4,5 bilhões - aumento de 8,7% nos gastos com pessoal. E nas empresas com 250 empregados ou mais, o aumento chegaria a R$ 27,5 bilhões (6,6% nos gastos com pessoal). 

“A dificuldade de adaptação para micro e pequenas empresas, que correspondem a 52% do emprego formal do país, mas que não dispõem de recursos ou estrutura física para ampliar equipes, será ainda maior. Como resultado, essas indústrias tendem a reduzir a produção, perder a competitividade e comprometer os postos de trabalho”, explica o presidente Alban.

A análise da CNI também aponta os segmentos industriais que devem ser mais fortemente afetados pela medida. No cenário de maior impacto, o segmento da construção lidera, com uma projeção de 13,2% de aumento de custos, o que totaliza R$ 19,4 bilhões por ano. Na sequência, vem a indústria de transformação (11,6% de aumento), serviços industriais de utilidade pública (eletricidade e gás, água 5,7% de aumento) e a indústria extrativa (4,7% de crescimento). 

Segundo Ricardo Alban, a discussão sobre a redução da jornada e mudança da escala de trabalho exige cautela e, se não for feita com o devido debate e análise criteriosa dos impactos, corre o risco de comprometer não apenas a competitividade da indústria, mas toda a economia e o desenvolvimento do país.

“Qualquer mudança na legislação trabalhista deve considerar a diversidade de realidades produtivas do país, os efeitos sobre os setores econômicos e empresas de diferentes portes, além das disparidades regionais e do impacto sobre a competitividade e a criação de empregos formais”, conclui o presidente da CNI.

 
Fonte: CNI
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 24/02/2026

 

Historicamente protegidos, aço e alumínio seguirão com tarifa de 50% nos EUA

Os setores de aço e alumínio ficaram de fora da nova tarifa global de 15% anunciada pelo governo de Donald Trump, no entanto seguem submetidos à sobretaxa de 50% para exportações ao mercado americano.

A cobrança foi estabelecida com base na Seção 232 da legislação dos Estados Unidos, sob o argumento de segurança nacional e reindustrialização da indústria siderúrgica americana, e permanece em vigor em 2026.

A indústria siderúrgica americana também é uma das que mais emprega nos estados do Meio-Oeste americano, vários deles conhecidos como “estados pêndulo” nas eleições presidenciais, capazes de decidir as eleições para um partido ou outro, por isso o olhar para esse setor com tanto “cuidado”.

Aço não teve alívio com decisão da Suprema Corte

Segundo Ricardo Martins, presidente da Abimetal Cicetel, a decisão da Suprema Corte que derrubou parte do chamado “tarifaço” não trouxe benefício ao setor de aço.

“A verdade é que o Donald Trump não nos dá trégua. Para essa oportunidade que a Suprema Corte proporcionou aos exportadores para os Estados Unidos, o aço não se beneficiou”, afirmou.

Ele lembra que outros produtos, como combustíveis, carne, café e celulose, passaram a contar com alíquotas menores. O Brasil, no conjunto, acabou relativamente beneficiado, mas o setor siderúrgico permanece com a tarifa de 50%.

“O Brasil saiu beneficiado mais do que todos os outros, mas vale lembrar que nós também éramos um dos mais prejudicados”, disse.

Diplomacia é principal aposta para o aço

Martins avalia que a reversão da tarifa de 50% sobre o aço depende mais de negociação diplomática do que de uma nova decisão judicial.

“Eu aposto mais na diplomacia. É muito importante que o governo Lula demonstre que o comércio com os Estados Unidos só faz bem a eles”, afirmou.

Para ele, o Brasil não oferece concorrência desleal, já que mantém déficit comercial com os EUA. “Os Estados Unidos não têm nenhuma necessidade de aplicar tarifas ao Brasil”, disse.

O dirigente também avalia que a Seção 232 dificilmente será revertida pela Suprema Corte. “Eu não acredito que a sessão 232 possa sofrer alteração”, declarou.

Exportações de aço caíram em 2025

Em 2025, as vendas de aço para os Estados Unidos registraram queda próxima de 7%. O Brasil é o segundo maior exportador de aço para o mercado americano, mas boa parte do volume é composta por produto siderúrgico primário, com menor valor agregado.

“Apesar de a gente ser o segundo maior fornecedor de aço, isso para a nossa balança comercial acaba não sendo tão importante”, afirmou Martins.

Ele aponta que setores como máquinas e equipamentos, que têm os Estados Unidos como principal destino, podem impulsionar indiretamente a demanda por aço brasileiro caso ampliem exportações.

Indústria vê cenário mais favorável em 2026

Para 2026, o setor enxerga melhora relativa no ambiente doméstico. O governo brasileiro elevou tarifas de importação para diversos produtos siderúrgicos e ampliou medidas antidumping.

A China também adotou controle por cotas para exportação de cerca de 300 produtos siderúrgicos, o que pode reduzir a pressão sobre os preços globais.

“Controle por cotas da exportação chinesa, antidumpings aprovados pelo governo brasileiro e tarifas maiores para importação acabam nos trazendo um cenário melhor do que nós tínhamos em 2025”, afirmou o presidente da Abimetal Cicetel.

Apesar disso, o setor de aço segue atento às investigações comerciais conduzidas pelos Estados Unidos e ao risco de novas alterações tarifárias ao longo dos próximos meses.

 
Fonte: Times Brasil
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 24/02/2026

Tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA é mantida em 2026 e pressiona indústria brasileira

A tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA segue em vigor em 2026, mesmo após o governo de Donald Trump anunciar uma nova tarifa global de 15% para diversos produtos importados. A decisão mantém os setores siderúrgico e metalúrgico fora do escopo de flexibilização e preserva a aplicação da Seção 232 da legislação americana, instrumento jurídico utilizado sob o argumento de segurança nacional e reindustrialização. O impacto recai diretamente sobre exportadores relevantes, como o Brasil, segundo maior fornecedor de aço ao mercado norte-americano.

Ao excluir aço e alumínio da redução tarifária, Washington reforça a natureza estratégica da política industrial voltada à siderurgia doméstica. A manutenção da tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA consolida um eixo estrutural da política comercial americana, com implicações econômicas, jurídicas e geopolíticas.

Seção 232 consolida blindagem institucional ao setor

A tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA está ancorada na Seção 232 do Trade Expansion Act, dispositivo que autoriza o Executivo a impor restrições comerciais quando importações são consideradas ameaça à segurança nacional.

Na prática, a interpretação adotada amplia o conceito de segurança para abranger capacidade produtiva industrial estratégica. A indústria siderúrgica, essencial para defesa, infraestrutura e energia, passou a ser tratada como ativo nacional sensível.

A permanência da tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA indica que o instrumento jurídico ganhou status institucional. Mesmo diante de contestações internacionais e disputas na OMC, a medida resistiu às pressões diplomáticas e às revisões judiciais internas.

Suprema Corte revisa pacote, mas preserva aço e alumínio

A recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que derrubou trechos do novo pacote tarifário não alcançou o núcleo da política aplicada ao aço e ao alumínio. Assim, a tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA permanece integralmente válida.

Produtos como combustíveis, carne, café e celulose passaram a contar com alíquotas menores. No entanto, o aço continuou submetido à sobretaxa máxima. A leitura predominante entre analistas é que a política voltada à siderurgia possui base legal e política distinta, dificultando sua reversão judicial.

O entendimento é de que a Seção 232 concede ampla margem de discricionariedade ao Executivo, limitando o alcance de eventuais contestações na Suprema Corte.

Dimensão eleitoral fortalece a proteção à siderurgia

A indústria siderúrgica americana concentra grande parte de sua base produtiva em estados do Meio-Oeste, considerados decisivos nas eleições presidenciais. Esses “estados pêndulo” possuem forte dependência de empregos industriais.

Nesse contexto, a manutenção da tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA também responde a uma lógica política interna. A proteção ao setor é percebida como instrumento de preservação de postos de trabalho e revitalização industrial.

A estratégia de reindustrialização tem apelo significativo em regiões afetadas por décadas de deslocamento produtivo. Assim, a tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA transcende o debate comercial e se insere no centro da agenda eleitoral e econômica americana.

Brasil: impacto direto nas exportações

O Brasil é o segundo maior exportador de aço para os Estados Unidos. Ainda assim, a tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA tem restringido o avanço das vendas brasileiras.

Em 2025, as exportações de aço ao mercado americano recuaram cerca de 7%. Embora o volume seja expressivo, parcela relevante corresponde a produtos primários, com menor valor agregado.

A tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA reduz a competitividade do produto brasileiro, encarece contratos e pressiona margens, exigindo revisão de estratégias comerciais.

Balança comercial e argumento de complementaridade

O Brasil mantém déficit comercial com os Estados Unidos, dado frequentemente utilizado como argumento diplomático para contestar a necessidade da tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA aplicada ao produto brasileiro.

Entidades do setor defendem que não há prática de concorrência desleal e que o comércio bilateral é complementar. A avaliação predominante é de que eventual flexibilização dependerá mais de negociação diplomática do que de decisão judicial.

A reversão da tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA, portanto, está mais associada a diálogo político do que a disputas nos tribunais.

Cadeias produtivas e efeitos indiretos

Setores como máquinas e equipamentos têm os Estados Unidos como principal destino e podem impulsionar indiretamente a demanda por aço brasileiro caso ampliem exportações.

Ainda assim, a tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA impõe restrição estrutural. Empresas com forte exposição ao mercado americano precisam diversificar destinos ou investir em maior agregação de valor.

O impacto não se limita ao volume exportado. Ele influencia decisões de investimento, planejamento industrial e estratégias de internacionalização.

Ambiente doméstico reage com medidas defensivas

No mercado interno, 2026 apresenta cenário relativamente mais favorável ao setor siderúrgico. O governo brasileiro elevou tarifas de importação para diversos produtos siderúrgicos e ampliou medidas antidumping.

Paralelamente, a China adotou controle por cotas para exportação de cerca de 300 produtos siderúrgicos, movimento que pode aliviar a pressão sobre preços globais.

Apesar dessas variáveis, a tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA continua sendo o principal fator externo de risco para empresas brasileiras com foco no mercado americano.

Reconfiguração do comércio internacional do aço

A manutenção da tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA reforça uma tendência mais ampla de fragmentação do comércio internacional. Medidas unilaterais, justificadas por segurança nacional, vêm sendo incorporadas como instrumentos permanentes de política industrial.

Para países exportadores, o desafio passa a ser estrutural: adaptar-se a um ambiente menos previsível e mais orientado por interesses estratégicos.

A tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA simboliza essa nova fase do comércio global, na qual cadeias produtivas, política doméstica e geopolítica se entrelaçam.

Investimento e planejamento sob nova lógica tarifária

A previsibilidade regulatória é elemento central para decisões de investimento de longo prazo. Ao manter a tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA, Washington sinaliza continuidade de uma política industrial defensiva.

Para o Brasil, a resposta envolve diplomacia econômica ativa, defesa comercial consistente e fortalecimento da competitividade interna. A indústria siderúrgica brasileira opera em um cenário no qual o acesso ao maior mercado do mundo permanece condicionado a uma sobretaxa significativa.

A equação impõe cautela, mas também exige estratégia. A tarifa de 50% sobre aço e alumínio nos EUA não é apenas uma medida tarifária; é um vetor estruturante das relações comerciais bilaterais e da reorganização das cadeias globais de valor.

 
Fonte: Gazeta Mercantil
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 24/02/2026

 

Suprema Corte dos EUA derruba tarifas comerciais de Trump

A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou nesta sexta-feira as amplas tarifas comerciais do presidente Donald Trump, impostas com base em uma lei destinada a situações de emergência nacional, rejeitando uma de suas mais controversas afirmações de autoridade em uma decisão com grandes implicações para a economia global.

Por 6 votos a 3, os juízes mantiveram a decisão de uma instância inferior de que o uso, pelo presidente republicano, da legislação em questão - a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês) -, excedeu sua autoridade. A Suprema Corte chegou à sua conclusão em uma contestação judicial movida por empresas afetadas pelas tarifas e por 12 Estados dos EUA - a maioria governada por democratas - contra o uso sem precedentes da legislação por Trump para impor unilateralmente os impostos de importação.

A decisão da Suprema Corte abrange apenas as "tarifas recíprocas", impostas por Trump no "Dia da Libertação", em 2 de abril. Outras taxas, como as estabelecidas sobre aço, alumínio e produtos de setores específicos, não são contempladas pela medida.

Ainda assim, a medida beneficiará as exportações brasileiras. O país foi alvo de uma “tarifa recíproca” de 10% em abril e depois recebeu uma "tarifa punitiva" de 40% pela oposição de Trump à acusação judicial que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro à prisão por tentativa de golpe de Estado.

Em novembro, após uma série de negociações e uma aproximação de Trump com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a alíquota extra foi retirada sobre uma série de produtos brasileiros, como café, carne bovina e cacau. No entanto, boa parte das exportações nacionais aos EUA, especialmente da indústria, continuam sendo afetadas pela "tarifa punitiva".

Esta foi a primeira vez que a Suprema Corte derrubou de forma definitiva uma das políticas polêmicas do segundo mandato de Trump. Em outras áreas, a maioria conservadora do tribunal concedeu até agora uma ampla margem para que o presidente americano use o poder executivo de maneiras inéditas.

Desta vez, porém, a maioria dos juízes - três conservadores e três progressistas - afirmou que Trump foi longe demais ao implementar as tarifas abrangentes sem uma autorização clara do Congresso americano.

O presidente da Suprema Corte, o conservador John Roberts, disse na decisão que o poder concedido à Casa Branca na IEEPA não contempla a imposição de taxas comerciais. "Hoje, nossa tarefa é decidir apenas se o poder de 'regular importações', concedido ao presidente na IEEPA, abrange o poder de impor tarifas. Não abrange", escreveu ele, citando o trecho da lei que Trump usava para justificar a medida.

Parte da maioria da Suprema Corte também considerou que a interpretação que Trump deu à IEEPA invade as prerrogativas do Congresso e viola um princípio jurídico conhecido como doutrina das “grandes questões”.

Essa doutrina conservadora exige que ações do Poder Executivo de “vasta significância econômica e política” sejam claramente autorizadas pelo Congresso. A Suprema Corte utilizou essa doutrina para barrar algumas das principais medidas executivas do ex-presidente democrata Joe Biden.

Trump utilizou tarifas, na prática impostos sobre bens importados, como uma ferramenta central de política econômica e externa. Elas estiveram no centro de uma guerra comercial global iniciada por Trump após o começo de seu segundo mandato, que afastou parceiros comerciais, afetou mercados financeiros e gerou incerteza econômica mundial.

As tarifas de Trump estavam projetadas para gerar, na próxima década, trilhões de dólares em receita para os Estados Unidos, que possuem a maior economia do mundo.

O governo Trump não divulga dados de arrecadação tarifária desde 14 de dezembro. Mas economistas do Penn-Wharton Budget Model estimaram nesta sexta-feira que o montante arrecadado com as tarifas de Trump baseadas na IEEPA supera US$ 175 bilhões. E esse valor provavelmente terá de ser devolvido com a decisão da Suprema Corte contrária às tarifas fundamentadas na legislação.

A Constituição dos EUA concede ao Congresso — e não ao presidente — a autoridade para instituir impostos e tarifas. No entanto, Trump recorreu a uma base legal estatutária ao invocar a IEEPA para impor tarifas a quase todos os parceiros comerciais dos EUA sem aprovação do Congresso. Trump também impôs tarifas adicionais com base em outras leis que não estão em discussão neste caso. Segundo dados do governo de outubro a meados de dezembro, essas representam cerca de um terço da receita das tarifas impostas por Trump.

A IEEPA permite que o presidente regule o comércio em situação de emergência nacional. Trump tornou-se o primeiro presidente a usar a IEEPA para impor tarifas, uma das muitas formas pelas quais ampliou agressivamente os limites da autoridade executiva desde que retornou ao cargo, em áreas que vão desde o endurecimento da política migratória até a demissão de autoridades federais, o envio de tropas no território nacional e operações militares no exterior.

Trump descreveu as tarifas como vitais para a segurança econômica dos EUA, prevendo que o país ficaria indefeso e arruinado sem elas. Em novembro, afirmou a repórteres que, sem suas tarifas, “o resto do mundo riria de nós porque usaram tarifas contra nós por anos e tiraram vantagem de nós”. Trump disse que os Estados Unidos foram explorados por outros países, incluindo a China, a segunda maior economia do mundo.

Após a Suprema Corte ouvir os argumentos do caso em novembro, Trump disse que consideraria alternativas caso a decisão fosse contrária a ele, afirmando a repórteres que “teremos que desenvolver um ‘plano B’.”

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, e outras autoridades do governo afirmaram que os Estados Unidos invocariam outras justificativas legais para manter o maior número possível das tarifas de Trump. Entre elas estão uma disposição legal que permite tarifas sobre bens importados que ameacem a segurança nacional dos EUA e outra que autoriza medidas retaliatórias, incluindo tarifas contra parceiros comerciais que o Escritório do Representante de Comércio dos EUA determine terem adotado práticas comerciais desleais contra exportadores americanos.

Nenhuma dessas alternativas oferece a flexibilidade e a dinâmica de força bruta que a IEEPA proporcionava a Trump, e podem não conseguir reproduzir todo o alcance de suas tarifas em tempo hábil.

A capacidade de Trump de impor tarifas instantaneamente sobre bens de qualquer parceiro comercial sob a égide de alguma forma de emergência nacional declarada ampliou sua influência sobre outros países. Isso levou líderes mundiais a correrem a Washington para assegurar acordos comerciais que frequentemente incluíam promessas de bilhões de dólares em investimentos ou outras ofertas de maior acesso ao mercado para empresas americanas.

Mas o uso das tarifas por Trump como instrumento de pressão na política externa dos EUA acabou antagonizando numerosos países, inclusive alguns historicamente considerados entre os aliados mais próximos dos Estados Unidos.

Historicamente, a IEEPA era utilizada para impor sanções a inimigos ou congelar seus ativos, e não para aplicar tarifas. A lei não menciona especificamente a palavra “tarifas”. O Departamento de Justiça de Trump argumentou que a IEEPA permite tarifas ao autorizar o presidente a “regular” importações para enfrentar emergências.

O Escritório de Orçamento do Congresso estimou que, se todas as tarifas atuais permanecessem em vigor, incluindo as baseadas na IEEPA, elas gerariam cerca de US$ 300 bilhões por ano na próxima década.

A arrecadação líquida total de direitos aduaneiros dos EUA atingiu um recorde de US$ 195 bilhões no ano fiscal de 2025, encerrado em 30 de setembro, segundo dados do Departamento do Tesouro dos EUA.

Em 2 de abril, data que Trump chamou de “Dia da Libertação”, o presidente anunciou o que classificou como tarifas “recíprocas” sobre bens importados da maioria dos parceiros comerciais dos EUA, invocando a IEEPA para enfrentar o que chamou de emergência nacional relacionada aos déficits comerciais americanos, embora os Estados Unidos já registrassem déficits comerciais há décadas.

Em fevereiro e março de 2025, Trump invocou a IEEPA para impor tarifas à China, ao Canadá e ao México, citando o tráfico do fentanil e de drogas ilícitas para os Estados Unidos como emergência nacional.

Trump utilizou suas tarifas para extrair concessões e renegociar acordos comerciais, além de empregá-las como arma para punir países que despertaram sua irritação por questões políticas não relacionadas ao comércio. Isso incluiu desde o processo judicial do Brasil contra o ex-presidente Jair Bolsonaro até as compras de petróleo russo pela Índia, que ajudam a financiar a guerra da Rússia na Ucrânia, e um anúncio antitarifas da província canadense de Ontário.

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 23/02/2026

Entre Brasil e China, distribuidores de aço recorrem a diversificação

Na disputa entre siderúrgicasnacionais e chinesas pelo mercado de aço no Brasil, um elo menos visível da cadeia vive um aperto estrutural: os distribuidores.

Essas empresas funcionam como o “estoque” e a logística da indústria: compram grandes volumes das usinas, fracionam pedidos e garantem pronta entrega para milhares de clientes – no caso, empresas menores, que não têm escala para negociar diretamente com as siderúrgicas. 

Espremidos entre o aço nacional e o importado, essas companhias enfrentam um dilema permanente: reduzir margens para sustentar a oferta local ou recorrer ao produto estrangeiro quando a diferença de preço se torna incontornável. 

Quando os valores oscilam rápido demais, ou o importado chega com descontos agressivos, o risco se concentra justamente nos distribuidores de aço: se os estoques foram montados a um preço mais alto, cada venda a um valor de mercado mais baixo pode significar prejuízo. E estoque parado é capital imobilizado.

Governo endurece regras para importações de aço

Em alguns casos, empresários do setor relatam que o material importado pode chegar ao Brasil até 50% mais barato que o equivalente produzido no país. Para quem opera com margens de um dígito, a conta simplesmente não fecha se a decisão, nessas situações, for pelo aço nacional.

No Brasil, a distribuição de aço é feita tanto por centros ligados às próprias siderúrgicas quanto por empresas independentes. Grupos como Gerdau, ArcelorMittal e Usiminas mantêm redes próprias ou autorizadas de venda. Já os distribuidores independentes, que não têm usina, compram de diferentes fornecedores para atender indústrias de pequeno e médio porte.

É nesse meio de campo que atua a Açotubo, uma empresa familiar e que é uma das maiores distribuidoras independentes do país, com faturamento próximo de R$ 2 bilhões no ano passado e presença em oito estados brasileiros, entre eles São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

A empresa vende desde barras de aço carbono — o tipo mais comum, usado em construções, eixos e peças de máquinas — até aços inoxidáveis, versões mais resistentes à corrosão e aplicadas em equipamentos industriais.

A prioridade, afirma o CEO Bruno Bassi, é comprar das siderúrgicas nacionais sempre que possível. Mas há situações em que a diferença de preço do aço vindo da Ásia impõe seus limites. “O gap [a diferença entre o produto chinês e o brasileiro] de preço era de 35% . E 35% está longe de ser a nossa margem. Eu não consigo nem sair na foto”, diz o empresário.

Efeito China

No ano passado, o consumo aparente de aço no Brasil – um indicador que soma a produção local às importações e desconta as exportações, medindo a demanda efetiva – foi de 26,8 milhões de toneladas, alta de 2,6% em relação a 2024. No mesmo período, as importações chegaram a 6,4 milhões de toneladas, um salto de 7,4%, o equivalente a cerca de um quinto de todo o aço consumido no país.

 

A penetração do importado fechou o ano em 20,8% do mercado doméstico – e aproximadamente 60% desse volume teve origem na China. Nos aços planos, segmento mais ligado à indústria, a participação do aço vindo de fora do país foi ainda maior: 24%. 

Já nos aços longos, usados sobretudo na construção civil, a taxa ficou em 15,8%. Em valores, as compras externas totalizaram US$ 5,8 bilhões, praticamente estáveis na comparação anual.

Enquanto isso, a produção nacional de aço bruto recuou 1,6%, para 33,3 milhões de toneladas, e as vendas internas ficaram praticamente estáveis, em 21,2 milhões de toneladas.

Desde 2024, o governo vem ampliando as medidas de defesa comercial sobre o aço importado, incluindo a elevação temporária da tarifa para 25% em uma série de produtos, em resposta à pressão das siderúrgicas brasileiras, que alegam concorrência desleal, sobretudo da China.

No fim de janeiro, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovouainda tarifas antidumping definitivas, com duração de até cinco anos, para determinados produtos siderúrgicos originários principalmente da China e da Índia.

Contenção

Mesmo quando o governo fecha uma porta ao impor tarifas sobre determinados tipos de aço vindos da China, o fluxo apenas muda de rota. Executivos do setor afirmam que as siderúrgicas chinesas sempre encontram uma forma de contornar as barreiras, especialmente por meio da triangulação comercial, que faz o produto desembarcar no Brasil com outra nacionalidade no passaporte.

Fernando Del Roy, diretor de inteligência de mercado da Açotubo, diz que o mecanismo é conhecido dentro da cadeia. “Você fecha a China e o aço vai para a Indonésia. Aí fecha a Indonésia e ele vai para o Vietnã”, afirma.

Em outros casos, o material sai da China como semiacabado, passa por uma etapa mínima de processamento em um terceiro país e entra no Brasil com nova origem declarada. “Na verdade, a matéria-prima é toda chinesa, só passou por uma máquina”, acrescenta.

O governo tenta rastrear essas operações por meio do chamado “melting certificate“, documento que identifica a origem real do aço. Mas a engenharia comercial evolui na mesma velocidade das tentativas de conter o produto importado.

A decisão recente do governo de erguer novas barreiras contra o aço chinês – com aumento de tarifas e medidas antidumping – foi recebida como positiva pelas siderúrgicas, que veem na iniciativa uma tentativa de conter distorções de preço e fechar brechas no sistema de defesa comercial.

O aço contido

Para os distribuidores, o problema é mais complicado do que parece. As tarifas atingem a chapa e o vergalhão, mas o aço também entra no país de outra forma: já transformado em peça, máquina ou equipamento.

É o que o setor chama de “aço contido” – o metal que vem embutido em produtos prontos, como carros elétricos importados da China e suas peças. Nesse caso, a barreira sobre a matéria-prima perde força, porque o aço cruza a fronteira acoplado dentro do produto final.

Na prática, o metal continua chegando ao Brasil, só que por outro caminho. Isso pressiona preços e aperta as margens não apenas dos distribuidores, mas também das indústrias que compram deles. “O mercado está cada vez mais achatado”, resume Bruno Bassi, CEO da Açotubo.

O resultado é um paradoxo difícil de resolver: como proteger as siderúrgicas sem encarecer demais o insumo para quem transforma aço em produto? Se o custo sobe rápido demais, a pressão acaba repassada ao cliente final – e volta para o distribuidor, que precisa equilibrar preço, estoque e relacionamento comercial, lembra Bassi.

Diversificação

Os efeitos da disputa comercial já aparecem no mapa de investimentos do setor. A Gerdau congelou novos aportes no Brasil e passou a priorizar os Estados Unidos. A ArcelorMittal deixou em compasso de espera seu programa de R$ 12 bilhões para o país. 

Até mesmo a Açotubo, elo intermediário da cadeia, decidiu ir além do Brasil. A resposta da distribuidora tem sido diversificar geograficamente o negócio. Nos últimos anos, o grupo incorporou operações no Peru e na Colômbia e passou a prospectar oportunidades de adquirir uma distribuidora nos Estados Unidos. 

A estratégia, segundo o CEO Bruno Bassi, não é exportar aço brasileiro, mas montar operação local em cada país, comprando e vendendo dentro do próprio mercado. A ideia é repetir o que fez no Brasil: manter estoque próximo do cliente, atender pedidos menores e ganhar na agilidade.

“A gente não pode ficar dependente de um único cenário”, diz. Para ele, a internacionalização virou uma forma de proteção. Se o Brasil entra em um ciclo mais fraco ou a guerra comercial aperta as margens, outras geografias ajudam a compensar o resultado.

Na prática, o movimento deixa de ser apenas expansão e vira blindagem em um segmento da cadeia do aço em que diluir os riscos virou questão de sobrevivência.

 
Fonte: InvestNews
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 20/02/2026