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Empresas recorrem a escritórios de advocacia em busca de medidas protetivas contra tarifaço

A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros gerou uma corrida de empresas a escritórios de advocacia. Se confirmada, dizem especialistas, haverá judicialização. As companhias buscam medidas protetivas. Elas temem, principalmente, quebras de contratos - inclusive com parceiros nacionais - e endividamento.

Advogados ouvidos pelo Valor afirmam que estão sendo procurados por exportadores - que serão imediatamente afetados, se a nova tarifa entrar em vigor - e por empresas que temem medidas de retaliação do governo brasileiro aos americanos, caso as negociações, por vias diplomáticas, não tenham efeito.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que vai “cobrar imposto das empresas americanas digitais” em resposta à ameaça de taxação. Não deu detalhes, no entanto, de como nem quando pretende aplicar essa medida. Reiterou, por outro lado, que o governo brasileiro tem disposição para negociar.

As consultas aos escritórios de advocacia chegam de vários setores: do agro e siderurgia a farmacêuticas, tecnologia, serviços e alimentação, como redes de fast food.

“O ambiente é de cautela, monitoramento intenso e preparação para disputas jurídicas tanto em tribunais nacionais quanto em arbitragens internacionais ou fóruns da OMC [Organização Mundial do Comércio]”, diz Tiago Conde, sócio do Sacha Calmon-Misabel Derzi Consultores e Advogados.

Risco de endividamento

Um dos focos de preocupação - que pode se transformar em briga judicial - envolve exportadores que têm contrato de antecipação de câmbio com os bancos. Nesses casos, a instituição financeira adianta o pagamento para a empresa brasileira que fechou negócio com um cliente dos Estados Unidos para produzir e enviar, num prazo futuro, os produtos. Geralmente, a brasileira usa o dinheiro como fluxo de caixa e, muitas vezes, para financiar a própria produção. Depois, quando exporta e é paga pela companhia americana, ela quita a dívida com o banco.

Há um temor, nesses casos, de que empresas americanas cancelem os pedidos do Brasil se a tarifa de 50% for, de fato, aplicada pelos Estados Unidos. Se isso acontecer, a companhia brasileira corre o risco de ficar com produto estocado e não ter como pagar a dívida que fez com o banco.

O advogado Julio Garcia Morais, do escritório Lopes Muniz, diz ter cliente do setor de siderurgia nessa situação. “Nesse tipo de contrato costuma constar que se a exportação não for seguida, por qualquer motivo, o contrato de câmbio é convertido em contrato de mútuo, um empréstimo normal, e a jurisprudência hoje é pacífica de que se deve aplicar o que diz o contrato. Só que, em relação ao tarifaço, a adequação seria de curtíssimo prazo. Não temos nenhuma posição da Justiça brasileira sobre isso”, afirma.

Trump anunciou no dia 9 de julho a imposição da tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras, com validade a partir de 1º de agosto, ou seja, só 22 dias depois.

Morais diz que a empresa não se livrará da dívida, mas vê brecha para discussão sobre o prazo de pagamento. “Com base na imprevisibilidade. Há espaço para isso no Judiciário. Discutir prazo de pagamento”, afirma. “O ideal é que a empresa tente, primeiro, negociar com o banco e, se não conseguir, partiria para essa segunda etapa.”

Lei da Reciprocidade

Há um volume enorme de consultas, dizem especialistas, de empresas que não seriam imediatamente atingidas pelo tarifaço de Trump, mas se preocupam com contramedidas que possam ser usadas pelo governo brasileiro. A Lei da Reciprocidade foi aprovada pelo Congresso Nacional, em abril, e regulamentada nesta semana por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde o anúncio do tarifaço, ele tem dito que contramedidas podem ser adotadas pelo governo federal.

Há um temor, segundo advogados, por parte de empresas brasileiras que importam mercadorias e componentes tecnológicos dos Estados Unidos para usar em produções próprias. Eventual imposição de tarifa sobre produtos americanos, eles dizem - além de escalar a crise com os EUA -, poderia inviabilizar a produção e gerar descumprimento dos contratos de fornecimento com parceiros nacionais. Esse seria um foco de judicialização nos tribunais brasileiros.

“Temos clientes que têm contratos de fornecimento de longo prazo e estão muito preocupados, sem saber o que fazer”, afirma Gustavo Taparelli, sócio do Abe Advogados. "Estamos numa missão de 24 horas. A cada movimento dos dois governos, recebemos inúmeras consultas.”

Nas reuniões com empresários brasileiros, o governo tem escutado que qualquer contramedida será a “pior saída” para o Brasil diante do clima entre os dois países. O pedido é por negociação diplomática. Alguns setores têm solicitado que o governo tente, nesse primeiro momento, um adiamento de 90 dias.

Apesar de os Estados Unidos não se mostrarem abertos ao diálogo, o governo brasileiro tem dito que concorda com o setor produtivo, vai insistir em conversar com os Estados Unidos e tentar negociações paralelas com empresas americanas.

Mesmo alas favoráveis à retaliação defendem que, se isso for feito, que não seja aumentando tarifas sobre as exportações dos EUA, porque haveria impacto à inflação. A resposta poderia vir, por exemplo, apontam, por medidas na área de propriedade industrial (marcas, medicamentos, softwares) e intelectual (filmes, músicas, livros).

Marcas e patentes

Luiz Edgard Montaury Pimenta, sócio do escritório Montaury Pimenta Machado & Vieira de Mello, especialista em propriedade industrial, afirma que há preocupação de clientes com as medidas que podem ser adotadas pelo governo brasileiro. "Implica em várias frentes. Estamos falando de telefonia, empresas farmacêuticas, de alimentação, e aqui entram, por exemplo, as cadeias de fast food", diz.

Ele explica que o uso de uma tecnologia ou marca registrada está atrelado a um contrato de licenciamento, que prevê pagamento de royalties à empresa proprietária. Geralmente, elas recebem um porcentual do faturamento da companhia que usa a marca ou o produto.

No caso de uma medida de suspensão, afirma Montaury, as empresas brasileiras ficariam autorizadas a deixar de pagar esses royalties - ou seja, as americanas, detentoras das patentes, deixariam de receber bilhões. Ele alerta, no entanto, que esse tipo de medida geraria insegurança jurídica, distorções no mercado e poderia afastar investimentos estrangeiros.

Gabriel Leonardos, sócio do escritório Kasznar Leonardos, também especialista na área, chama atenção, além disso, que a Lei da Reciprocidade prevê, no artigo 3º, que a suspensão de concessões ou outras obrigações do país sobre direitos de propriedade intelectual só podem ser feitas com base na Lei nº 12.270, de 2010. Essa norma, ele diz, remete ao mecanismo da OMC.

“O governo teria que fazer uma queixa à OMC e, se autorizado, poderia suspender patentes, marcas registradas e outros direitos de propriedade intelectual de empresas americanas como forma de pressionar os Estados Unidos”, ele afirma.

Segundo Leonardos, portanto, o governo brasileiro não poderia fazer essas suspensões numa canetada, por decisão do presidente Lula. Se isso acontecer, ele diz, certamente haverá judicialização por parte das empresas.

Brasil já recorreu à OMC contra EUA

O advogado lembra que esse sistema da OMC já foi usado pelo Brasil antes. Em 2009, no segundo mandato de Lula, a organização autorizou o Brasil a suspender direitos de propriedade industrial como forma de retaliação aos Estados Unidos.

O caso envolveu uma disputa sobre subsídios concedidos pelos Estados Unidos a produtores de algodão. O Brasil alegou que esses subsídios prejudicavam os produtores brasileiros, tornando o mercado internacional do algodão desequilibrado. A medida, no entanto, não foi aplicada pelo Brasil porque os dois países chegaram a um acordo.

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 18/07/2025

 

Seis setores da indústria dizem não ter como redirecionar bens comprados pelos EUA

A reunião entre o setor industrial e o governo federal realizada na terça-feira (15) para debater a sobretaxa de 50% anunciada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros expôs a situação crítica de diversos segmentos da indústria nacional que não teriam como redirecionar vendas para outros mercados em curto ou médio prazo.

Seis setores foram taxativos sobre o posicionamento durante o encontro com ministros e o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, que também comanda o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).

A Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) declarou que exporta cerca de US$ 4 bilhões por ano para os EUA, mercado que representa 50% das exportações brasileiras de alta tecnologia. A associação informou que não há como redirecionar as vendas, não apenas pelo volume, mas também pela especificidade tecnológica.

Outro alerta partiu da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados). Com 22% das exportações voltadas aos EUA, a entidade afirmou que os produtos são feitos sob encomenda dos clientes americanos, o que impediria a realocação. As empresas do setor já começaram a receber cancelamentos de pedidos. Além do impacto comercial, o segmento estima que, caso as tarifas entrem em vigor, haveria perda de 7.000 empregos diretos e 5.000 indiretos, especialmente na região Nordeste do país.

O setor de ferro gusa, representado pelo Sindifer (Sindicato da Indústria de Ferro no Estado de Minas Gerais), informou que exporta 68% de sua produção, sendo 85% dessas vendas destinadas aos Estados Unidos. A entidade reforçou que não há possibilidade de redirecionamento, dada a escala das exportações.

O mesmo posicionamento foi apresentado pelo Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores), que enfatizou a importância do mercado americano e declarou que não há como redirecionar as vendas atuais para outros mercados devido ao grau de especialização e integração do setor com os EUA.

A Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário) relatou ao governo que 27% das exportações do setor vão para os EUA, com grande parte da produção sendo feita sob encomenda pelos clientes americanos. A associação afirmou que não há alternativa viável de redirecionamento e que a sobretaxa levaria à perda de mercado para produtores chineses, que ficariam mais competitivos.

A preocupação com os desdobramentos também foi destacada pela Abrafi (Associação Brasileira dos Produtores de Ferroligas e de Silício Metálico). A instituição que representa o setor de ferroligas (ligas de ferro com outro elemento químico usados na fabricação de aços) disse que 50% da produção é exportada, sendo que 20% disso tem como destino os EUA. A associação reiterou que, diante do volume envolvido, não seria possível encontrar novos mercados substitutos com a mesma capacidade de absorção.

Além desses seis setores, outros segmentos industriais emitiram alerta ao governo. A Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente) disse que há forte dependência das indústrias de madeira em relação ao mercado americano, devido à demanda do setor de construção civil dos Estados Unidos.

O Instituto Aço Brasil lembrou que o Brasil é o segundo maior exportador de aço para os Estados Unidos, atrás apenas do Canadá, mas que os produtos vendidos são complementares.

Já a Abal (Associação Brasileira do Alumínio) mencionou que 14,2% das exportações do setor são para os EUA e que já vem sofrendo com tarifas de 25%, sem exceções, há alguns meses. O segmento diz ter registrado queda de 25% das exportações aos EUA no primeiro semestre. A indústria do alumínio mostrou preocupação com eventual desvio de comércio, mas informou que seria possível encontrar mercados alternativos no médio prazo.

Entre as grandes empresas, especificamente, chama a atenção a exposição da Embraer. A companhia informou que 30% de sua receita são exportações aos EUA, mercado onde operava há décadas com tarifa zero.

A elevação tarifária para 10%, já aplicada por Donald Trump, teve impacto direto na empresa. Se subir para 50%, os negócios se tornariam inviáveis.

A companhia declarou que não é possível redirecionar as vendas, tanto por aspectos técnicos como comerciais. Além disso, disse que 45% dos componentes de um avião da Embraer vêm dos EUA, o que revela forte interdependência industrial.

Todos os setores endossaram a proposta da CNI (Confederação Nacional da Indústria), que liderou os posicionamentos do setor produtivo e propôs que o Brasil solicite aos EUA um adiamento de 90 dias da entrada em vigor das tarifas, previstas para 1º de agosto. O objetivo seria ganhar tempo para negociar uma solução definitiva.


Fonte: Folha de São Paulo
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 17/07/2025

 

Paraná avalia impactos do tarifaço dos EUA sobre exportações

O anúncio dos Estados Unidos sobre a taxação de 50% para produtos brasileiros a partir de agosto já acendeu o sinal de alerta no setor produtivo paranaense. Com uma pauta diversificada de exportações, o Paraná pode ser impactado especialmente nos segmentos de madeira, máquinas e café solúvel, segundo estudo preliminar do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes).

Entre janeiro e junho de 2025, o Paraná exportou US$ 735 milhões para os EUA, principalmente em madeira e carvão vegetal. Em média, o volume anual gira em torno de US$ 1,5 bilhão, envolvendo também combustíveis minerais, produtos farmacêuticos, móveis, peixes, óleos vegetais e alumínio, entre mais de 90 categorias de bens paranaenses.

De acordo com o Ipardes, o setor mais vulnerável à nova tarifa é o de madeira industrializada, que abastece parte significativa da construção civil norte-americana. Também devem sentir os efeitos da medida os setores de fabricação de máquinas e equipamentos e a indústria de café solúvel.

“A taxação adicional imposta pelos EUA tende a impactar de forma mais aguda segmentos industriais voltados à exportação de insumos e bens intermediários”, aponta o estudo.

Apesar do alerta, o agronegócio paranaense não deve sofrer perdas expressivas, uma vez que os Estados Unidos não figuram entre os principais mercados dos alimentos produzidos no Estado. Em 2025, até junho, o Paraná já comercializou US$ 6,4 bilhões em alimentos e bebidas com outros países, com destaque para China, Argentina, México e Índia.

Fonte: Band
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 17/07/2025

Solução sobre ‘tarifaço’ tem divergência na indústria

O discurso de empresas e governo, na busca de ações para tentar brecar a tarifa de 50% do governo Trump, conseguiu mostrar alinhamento entre as partes nesta terça-feira (15), apesar de existir questões em aberto nos bastidores que ainda são foco de divergências, apurou o Valor. Dezessete líderes de entidades e empresas estiveram com ministros na manhã de ontem, em Brasília.

No encontro, Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), tratou de “puxar a fila” das apresentações, seguido de Josué Gomes, da Fiesp, a federação das indústria de São Paulo, na reunião com o ministro Geraldo Alckmin (Desenvolvimento) e Fernando Haddad (Fazenda). As falas que se seguiam tratavam de repetir a questão da não retaliação imediata aos EUA, dita por Alban, e da saída técnica, e não política.

A ideia no encontro, assim como o ocorrido com o setor do agronegócio ontem à tarde, era reforçar o caminho da solução amparada em dados, e ir afastando o debate do viés político, que teria contaminado a pauta, diz o executivo de um grupo.

Além disso, foi comentado ontem sobre o nível de insegurança das empresas na produção que teria que ser destinada aos EUA neste mês, e como isso vai afetar os resultados, dizem duas fontes ouvidas.

Apesar desses aspectos em comum, há pontos do debate que já acionam o sinal amarelo: a questão de possíveis tarifas diferentes para cada segmento, e a hipótese de um adiamento de 90 dias para uma nova tarifação. Nesses temas, em conversas paralelas às falas oficiais, há discordâncias, dizem fontes.

Sobre variações nas alíquotas por setor, não seria um ponto defendido pelo MDIC, mas, sob condição de anonimato, entidades dizem ter conhecimento de que a hipótese tem sido colocada na mesa por algumas indústrias, mas não é uma unanimidade.

É algo que seria bem-recebido entre exportadores de laranja e carne, mas tem sido criticado por outros, como madeira e têxteis.

“Isso faria com que aqueles setores ‘no fim da lista’, menos estratégicos, corressem o risco de ficar desprotegidos numa negociação, porque você divide a indústria no meio. E os menores terão menos poder de barganha”, diz um interlocutor presente no encontro.

Dias atrás, surgiram informações no mercado de que alguns setores com alta demanda nos EUA iriam sugerir alíquotas diferenciadas nas conversas com o governo, e cotas com tarifas menores.

“Cada um ali tem a própria vida, as próprias pressões no envio de produtos. Então eu acho que, até para não parecer divisão, essa questão de cotas e alíquotas vão ter que ser tratadas nas negociações individuais. Até porque, os setores continuam acionando as suas interfaces para buscar acordo setorial”, disse um diretor de uma associação.

A respeito da hipótese de se definir 90 dias de trégua, parte dos empresários apoia a ideia, disseram ontem, pois isso daria tempo para se amarrar um acordo melhor, só que parte vê isso como um risco, pela possibilidade de não resolver a questão nesse intervalo. E ainda criar instabilidade nos negócios das empresas no período.

Alckmin teria essa segunda visão também. Um problema que pesa nisso são os efeitos já sentidos do anúncio da tarifação. Ao governo foi dito que há uma espécie de zona cinzenta de tarifação que já atrapalha os embarques de perecíveis do país aos EUA neste momento. Produtos que saem hoje do país já chegariam nos EUA custando mais.

“Em parte pela urgência do tema, e como um caminho do ‘meio’, a ideia divulgada pelo governo [ontem] foi de estender ao máximo a busca de uma solução agora, e só depois, se não tiver avanço, buscar novo prazo. Mas é pouco tempo, e não dá para fazer na correria”, disse um diretor da associação. A CNI também tem receio dos riscos de uma postergação e mencionou a questão ontem, segundo fontes.

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 16/07/2025

Tarifa de Trump: veja os países que poderiam substituir os EUA como clientes do agro brasileiro

A tarifa de 50% sobre os produtos do Brasil anunciada por Donald Trump, programada para entrar em vigor em agosto, deve forçar o agronegócio nacional a buscar novos compradores para itens que hoje são enviados aos Estados Unidos.

Os EUA são o segundo principal destino dos itens brasileiros, atrás apenas da China. Se entrar em vigor em 1º de agosto, a medida poderá reduzir significativamente a exportação de diversos setores.

Produtos como café, carne bovina, suco de laranja, etanol e açúcar estão entre os mais vendidos para os norte-americanos. Com a nova taxa, exportar para os EUA pode deixar de ser viável, e a alternativa é direcionar essas vendas para outros mercados.

Veja quais países poderiam absorver essas exportações brasileiras do agro, segundo especialistas e associações do setor:

Café

- Os EUA compram 16% do café exportado pelo Brasil e são o maior cliente do produto brasileiro no mundo.*

Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), países como China, Índia, Indonésia e Austrália podem absorver parte da produção, pois são grandes consumidores e já compram café brasileiro.

“A China importou 1,2 milhão de sacas de café do Brasil, mas consome 6,3 milhões. Então, existe espaço em mercados importantes”, diz Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé.

Já Fernando Maximiliano, analista da consultoria StoneX Brasil, avalia que a tarifa, caso entre em vigor, pode mudar o mercado global de café.

Com os EUA buscando novos fornecedores, países como Honduras, Guatemala e Colômbia podem priorizar as vendas para os norte-americanos.

Isso abriria espaço para o Brasil em mercados que hoje compram desses países, como a União Europeia.

“Eu apostaria, no curto e médio prazo, na mudança de fluxos entre os mercados que já são parceiros nesse mundo do café”, resume o analista.

Carne bovina

- Os EUA compram 12% da carne bovina exportada pelo Brasil. São o segundo maior cliente, atrás apenas da China.*

China e EUA são os principais compradores da carne brasileira, mas com perfis diferentes. Os chineses preferem cortes dianteiros, enquanto os norte-americanos compram “carne ingrediente”, usada em hambúrgueres e alimentos processados.

Por isso, segundo o setor, os principais substitutos dos EUA não são a China, mas outros cinco mercados: México, Egito, Canadá, Chile e Emirados Árabes.

Para Fernando Henrique Iglesias, analista do Safras & Mercados, os frigoríficos vão precisar redirecionar o produto para outros mercados para evitar prejuízos. "A nossa sorte é que tem mais 100 países comprando carne do Brasil", diz ele.

Ele também destaca que a Associação Brasileira da Indústria de Carnes (Abiec) abriu um escritório na China neste ano, o que tem facilitado novos negócios na Ásia. Além disso, o Vietnã retomou as compras de carne bovina do Brasil.

Suco de laranja

- Os EUA compram 41% do suco de laranja exportado pelo Brasil. São o segundo maior mercado, atrás da União Europeia.**

Ao contrário de outros produtos, o suco de laranja gera mais preocupações no setor, que não vê mercados alternativos para comprar o que é hoje enviado para os Estados Unidos.

“É impossível redirecionar. Não existe estrutura de recebimento de produto, linhas de envase e demanda. Não tem como absorver esse mercado”, afirma o diretor-executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), Ibiapaba Netto.

Além disso, ampliar a venda para o maior importador, a União Europeia, significaria derrubar os preços de comercialização, segundo o diretor da CitrusBR. Ele considera que não existam outros mercados para serem explorados.

Etanol

- Os EUA são o segundo maior comprador de etanol do Brasil, atrás da Coreia do Sul. Cerca de 16% das exportações vão para o mercado norte-americano.***

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que o Brasil já buscava outros mercados antes mesmo do anúncio da tarifa de 50%.

Uma alternativa para absorver as compras norte-americanas seria a Coreia do Sul, maior importadora do etanol brasileiro. Outra é o Japão, que vem construindo uma política pública para misturar etanol na gasolina.

"As exportações efetivas de etanol brasileiro para o Japão devem começar dentro de poucos anos, quando a mistura na gasolina de fato acontecer", disse Evandro Gussi, presidente da Unica.

Açúcar

- Os EUA compram 2,8% das exportações do Brasil. São o 14º maior cliente do açúcar brasileiro.***

Apesar de não ser dependente dos EUA nas exportações de açúcar, o Brasil vai precisar encontrar outros mercados para direcionar o que vende para os norte-americanos, de acordo com o analista da StoneX Brasil Marcelo Di Bonifacio Filho.

China e Indonésia, as duas maiores clientes do açúcar brasileiro, são vistas como alternativa ao mercado norte-americano.

O analista da StoneX também cita os países do Oriente Médio como opção, “principalmente os Emirados Árabes”. “Eles compram [açúcar bruto] para refinar e reexportar para regiões próximas”, afirma Filho.

Outros mercados importantes são os países da Norte da África, como a Argélia, que é a quarta maior compradora do Brasil, depois de China, Indonésia e Índia.

Fontes

*Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Serviços, dados de janeiro a junho de 2025.

**CitrusBR, dados de janeiro a junho de 2025.

***União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), dados de 2024.
Fonte: G1
Seção: Agro, Máquinas & Equipamentos
Publicação: 16/07/2025

O que pode acontecer com os preços no Brasil após o aperto nas exportações?

A imposição de tarifas elevadas pelos Estados Unidos levanta uma questão direta para o consumidor brasileiro: a dificuldade de exportar pode provocar queda de preços no mercado interno? Embora a lógica da oferta e demanda sugira que sim, especialistas alertam que o impacto será desigual e, em muitos casos, até pode agravar a inflação. O cenário exige uma análise cuidadosa das implicações macroeconômicas.

Possível queda de preços, mas apenas em alguns setores

De acordo com Jeff Patzlaff, especialista em investimentos, é possível que alguns produtos apresentem redução de preço com a diminuição das exportações. O aço, por exemplo, pode ser redirecionado ao mercado interno, beneficiando setores como a construção civil. O mesmo pode ocorrer com produtos como café, sucos e carnes, caso os exportadores optem por manter seus ganhos atendendo o consumo interno.

Esse redirecionamento de produtos pode gerar alívio pontual nos preços, mas não representa uma queda generalizada da inflação. Patzlaff explica que o efeito é localizado, afetando apenas segmentos específicos da economia. Ele também destaca que, ao mesmo tempo, o Brasil pode se beneficiar da importação de produtos mais baratos de países como China e Índia, o que ajudaria a reduzir os preços de forma localizada.

Contudo, essas possíveis reduções não significam que o custo de vida vá cair de forma abrangente. Os principais fatores que pressionam a inflação — como os serviços, o câmbio e a energia — continuam presentes e podem até se intensificar com o novo cenário.

Impactos macroeconômicos e riscos de instabilidade

Para o economista Daniel Weigert Cavagnari, coordenador dos cursos de Gestão Financeira da Uninter, apesar da possibilidade de queda nos preços de itens como suco de laranja e café, o contexto macroeconômico pode trazer consequências mais graves. Ele alerta que a queda na exportação reduz o ingresso de moeda estrangeira no país, enfraquecendo as reservas internacionais.

Esse cenário pode gerar fuga de capitais, provocando aumento na taxa Selic e no custo do crédito. Além disso, o dólar e o euro devem se valorizar frente ao real, elevando o preço de produtos importados e impactando diretamente a inflação. Até as criptomoedas podem se valorizar com essa movimentação cambial.

Cavagnari enfatiza que essa combinação de fatores pode levar a um ambiente de recessão, com aumento de juros, encarecimento do crédito e pressão sobre os preços. Ou seja, mesmo que alguns produtos pontuais fiquem mais baratos, o cenário geral tende a ser de maior instabilidade econômica e risco inflacionário.

Em resumo, a resposta à pergunta inicial é: sim, alguns produtos podem ficar mais acessíveis, mas isso não representa alívio para o bolso do consumidor em termos amplos. O impacto real vai depender de como o Brasil irá se posicionar diante da nova dinâmica global.

 
Fonte: Gizmodo
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 15/07/2025