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O que trava o apetite de interessados na CSN de Steinbruch?

Benjamin Steinbruch ainda nega em público, mas já admite a interlocutores a possibilidade de sair totalmente da siderurgia no processo de venda de ativos para reduzir o endividamento do grupo.

Nos bastidores, a avaliação é que a CSN acumulou problemas que afastam potenciais interessados: endividamento elevado, descumprimento de normas ambientais, tecnologia defasada e disputas judiciais.

A recuperação da empresa exigiria recursos que o grupo não possui, mesmo com a venda de ativos relevantes, como a divisão de cimento. Para driblar a crise, em 2025 a CSN passou a importar grandes volumes de aço. Foram cerca de 300 mil toneladas vindas da Ásia.
 

CSN: Dívida, Passivos e a Possível Saída de Steinbruch Travam Negócios na Siderurgia
A Encruzilhada da CSN: Dívida Elevada, Passivos Ambientais e a Possível Saída de Steinbruch Travam Negócios em 2026

O mercado siderúrgico brasileiro atravessa um momento de especulação intensa e reposicionamento estratégico que tem como epicentro uma das companhias mais tradicionais e emblemáticas do país. A Companhia Siderúrgica Nacional, mundialmente conhecida pela sigla CSN, vive uma encruzilhada histórica que pode redefinir não apenas o futuro do conglomerado, mas a própria estrutura da indústria de base nacional. Nos corredores da Faria Lima e nos gabinetes de Brasília, a informação circula com força e riqueza de detalhes: Benjamin Steinbruch, controlador e presidente da companhia, embora negue publicamente com veemência, já admite a interlocutores próximos a possibilidade de uma saída total do segmento de siderurgia.

Esta movimentação sísmica faz parte de um robusto e doloroso plano de desalavancagem que a CSN tenta implementar para sobreviver em um mercado global cada vez mais hostil e competitivo. No entanto, o apetite de investidores estratégicos e fundos globais pelos ativos da CSN esbarra em uma “tempestade perfeita” de entraves corporativos. A análise de bastidores indica que a companhia acumulou, ao longo da última década, uma combinação tóxica de endividamento elevado, passivos ambientais complexos, obsolescência tecnológica e um emaranhado jurídico que afasta o capital estrangeiro.

Neste dossiê de mercado, dissecamos os quatro pilares que travam a venda e a recuperação da CSN, a estratégia de importação de aço asiático como paliativo para a ineficiência industrial e o que o futuro reserva para o império de Steinbruch no ano fiscal de 2026.

A Muralha da Dívida e o Desafio da Desalavancagem da CSN

O ponto central que afasta potenciais compradores da operação siderúrgica da CSN é, inegavelmente, a estrutura de capital da empresa. A alavancagem financeira (relação entre dívida líquida e EBITDA ajustado) da CSN tem sido, historicamente, um ponto de fricção com o mercado e motivo de atenção constante para as agências de classificação de risco. Em um cenário de juros globais ainda restritivos, carregar um passivo bilionário torna-se um fardo insustentável para a geração de caixa livre.

O plano anunciado pela diretoria da CSN visa a venda de ativos não core (não essenciais) ou até mesmo de divisões inteiras, como a operação de cimentos (CSN Cimentos) e participações no setor elétrico, para gerar liquidez imediata. Contudo, a matemática financeira por trás dessa operação não é simples. O valor de mercado desses ativos, quando descontados os passivos atrelados e a necessidade urgente de Capex (investimento em bens de capital) para modernização, muitas vezes não cobre o montante necessário para sanear o balanço da CSN de forma definitiva e satisfatória para os credores.

Investidores estratégicos olham para a CSN e veem uma geradora de caixa operacional forte na mineração, mas que é drenada pelo serviço da dívida da holding e da operação siderúrgica. Para que uma transação de M&A (fusão e aquisição) ocorra, o valuation da CSN precisaria sofrer um desconto agressivo, algo que a família Steinbruch, conhecida por sua dureza em negociações, historicamente reluta em aceitar. A “muralha da dívida” da CSN atua, portanto, como o primeiro e mais alto obstáculo para qualquer negociação, exigindo uma engenharia financeira que poucos players globais estão dispostos a estruturar no cenário atual.

O Risco Operacional: Tecnologia Defasada na CSN

Além do balanço financeiro, a due diligence (diligência prévia) de qualquer interessado na CSN esbarra na dura realidade do chão de fábrica. Nos bastidores da indústria, a avaliação técnica consensual é de que a CSN postergou investimentos cruciais em atualização tecnológica e manutenção preventiva pesada ao longo dos últimos anos para preservar caixa.

Enquanto concorrentes globais na Ásia e na Europa migraram para fornos mais eficientes, automação avançada e tecnologias de redução direta com menor pegada de carbono, parte do parque industrial da CSN, especialmente em Volta Redonda (RJ), ainda opera com tecnologias que demandam manutenção intensiva e possuem menor eficiência energética. Isso resulta em um Custo dos Produtos Vendidos (CPV) mais alto, pressionando as margens da CSN em momentos de baixa do ciclo das commodities.

A recuperação da competitividade industrial da CSN exigiria um aporte de recursos — fresh money — que o grupo simplesmente não possui disponível em caixa neste momento. Mesmo com a venda de ativos relevantes, como a divisão de cimento, o montante arrecadado seria majoritariamente consumido pelo abatimento da dívida bancária e de debêntures, sobrando pouco para o revamp (modernização) industrial necessário.

Essa defasagem tecnológica coloca a CSN em desvantagem competitiva estrutural. O custo de produção por tonelada de aço da CSN tende a ser maior do que o de players modernos, comprimindo a rentabilidade. Para um comprador, adquirir a CSN significa assinar um cheque bilionário para a compra das ações e outro cheque, possivelmente maior, para a reforma do parque industrial, o que afeta drasticamente a Taxa Interna de Retorno (TIR) do investimento.

A Importação de Aço: A CSN Virou uma Trader?

Um sintoma claro das dificuldades operacionais e da falta de competitividade momentânea da produção interna da CSN foi a mudança tática e silenciosa observada ao longo de 2025. Para driblar a crise, manter o market share e atender à demanda de seus clientes sem incorrer em custos de produção proibitivos ou gargalos operacionais, a CSN passou a atuar agressivamente na importação de produtos siderúrgicos.

Dados de mercado apurados e confirmados por fontes do setor apontam que foram cerca de 300 mil toneladas de aço importadas da Ásia pela CSN no último ano. Este movimento é emblemático e preocupante sob a ótica industrial. Quando uma siderúrgica, cujo core business é a transformação de minério de ferro em aço, passa a importar volumes massivos do produto final acabado ou semiacabado, ela sinaliza ao mercado que sua eficiência produtiva está comprometida ou que sua capacidade instalada não consegue operar com rentabilidade nas condições atuais de preço de energia e insumos.

Essa “traderização” da CSN pode resolver o problema de fluxo de caixa e atendimento ao cliente no curto prazo, evitando a perda de contratos para a concorrência chinesa, mas corrói o valor da tese industrial no longo prazo. Para um investidor que busca ativos industriais reais (ativos fixos produtivos), ver a CSNdependendo de aço chinês, indiano ou vietnamita é um sinal de alerta vermelho sobre a saúde e a viabilidade econômica dos altos-fornos e laminadores históricos da companhia.

O Passivo Ambiental e o Fator ESG na CSN

No ano de 2026, a pauta ESG (Ambiental, Social e Governança) deixou de ser um diferencial para se tornar um pré-requisito de sobrevivência corporativa. Nenhum grande fundo de investimento global, fundo de pensão ou multinacional do setor de materiais básicos realiza aquisições sem um escrutínio rigoroso desses critérios. É neste quesito que a CSN enfrenta, talvez, sua batalha mais complexa e custosa.

O descumprimento de normas ambientais e o histórico de tensões com órgãos reguladores (como o INEA e o Ibama) e comunidades locais em Volta Redonda e Congonhas pesam significativamente contra a avaliação da CSN. O passivo ambiental da empresa não é apenas uma questão de multas passadas ou Termos de Ajustamento de Conduta (TAC); é uma questão de licença social para operar e de “risco de cauda” (eventos catastróficos de baixa probabilidade mas alto impacto).

Interessados na compra da CSN ou de partes dela calculam na ponta do lápis o custo de adequação ambiental (compliance). As barragens de rejeitos da mineração, as emissões atmosféricas da siderurgia e a gestão de resíduos sólidos exigem investimentos vultosos para atingir os padrões internacionais exigidos por investidores e consumidores. Em um mundo que caminha a passos largos para o “Aço Verde” e a descarbonização total da cadeia, ativos antigos e intensivos em carbono, como alguns detidos pela CSN, são negociados com descontos profundos (deságio) ou simplesmente descartados das carteiras de investimento institucional.

O Labirinto Jurídico e a Governança da CSN

Somando-se à dívida, aos problemas operacionais e ambientais, a CSN carrega um portfólio de disputas judiciais que assusta os departamentos jurídicos de potenciais compradores. Litígios societários antigos, disputas tributárias bilionárias com a União e questões trabalhistas formam um contingente de risco jurídico que dificulta a precificação exata do ativo CSN.

A incerteza sobre o desfecho dessas ações judiciais obriga qualquer comprador a provisionar garantias e escrow accounts (contas de garantia), o que, mais uma vez, reduz o valor líquido a ser pago aos acionistas da CSN em uma eventual venda. Além disso, a figura de Benjamin Steinbruch, conhecido no mercado por sua postura litigiosa, centralizadora e firme em negociações, é vista por muitos players como um fator que adiciona complexidade. Steinbruch é um vendedor difícil, e a governança da CSN é moldada à sua imagem, o que pode gerar conflitos culturais em processos de fusão.

A Visão de Steinbruch: O Fim de uma Era na CSN?

A informação de bastidores de que Benjamin Steinbruch admite, em privado, sair totalmente da operação de siderurgia da CSN é o fato novo que pode destravar valor ou precipitar uma crise de identidade na companhia. Se confirmada, essa saída representaria o fim de uma era no capitalismo industrial brasileiro. Steinbruch, que transformou a CSN privatizada em um conglomerado diversificado (com braços em mineração, cimento, logística e energia), parece ter chegado à conclusão pragmática de que o ciclo do aço, nas condições financeiras e operacionais atuais da empresa, se esgotou ou exige um parceiro com bolsos mais fundos.

No entanto, a negação pública dessa intenção é uma estratégia clássica de defesa de valor. Admitir abertamente a venda sob pressão (fire sale) derrubaria o preço das ações da CSN na Bolsa e daria um poder de barganha desproporcional aos compradores. O jogo de cena, portanto, é manter a narrativa oficial de “busca por parcerias estratégicas” e “reciclagem de ativos”, enquanto se busca nos bastidores uma porta de saída honrosa e financeiramente viável para o controle da siderurgia.

O Futuro da CSN: Desmembramento ou Venda Total?

O cenário mais provável desenhado por analistas de mercado para a CSN em 2026 envolve o desmembramento (break-up) do grupo. A mineração (CSN Mineração – CMIN3) é considerada a “joia da coroa”, com margens altas, custos competitivos e reservas de qualidade mundial. A siderurgia, por outro lado, tornou-se o ativo problemático que drena recursos.

É possível que a solução para a dívida da CSN passe pela venda separada e fatiada dos ativos de cimento, logística e energia, e talvez uma fusão ou joint-venture da operação siderúrgica com um playerinternacional (asiático ou europeu) que aporte tecnologia e capital. Nesse desenho, restaria à família Steinbruch uma participação minoritária na siderurgia ou o foco exclusivo na rentável operação de mineração.

Contudo, para que qualquer um desses cenários se concretize, a CSN precisa resolver sua equação de liquidez de curto prazo. A importação de 300 mil toneladas de aço asiático ajuda a manter o mercado abastecido e gera caixa comercial, mas não resolve o problema do endividamento estrutural. O ano de 2026 será decisivo para a história da empresa: ou a CSN executa seu plano de desinvestimento com perfeição cirúrgica, ou será forçada a uma reestruturação de dívida mais agressiva, que pode diluir o controle acionário atual e mudar a face da siderurgia brasileira.

O Gigante CSN em Transformação

A CSN de 2026 é uma gigante que luta contra o peso de sua própria história e de suas escolhas de alocação de capital do passado. O “apetite travado” dos investidores não reflete falta de interesse no mercado brasileiro, mas sim uma aversão racional aos riscos específicos e idiossincráticos que a CSNcarrega em seu balanço, em seus tribunais e em suas chaminés.

Para o investidor minoritário e para o mercado em geral, a volatilidade das ações e dos títulos da CSNcontinuará alta. A cada rumor de venda, o papel reage; a cada balanço mostrando o peso do serviço da dívida, ele corrige. A possível e discreta admissão de Steinbruch sobre a saída da siderurgia seria o catalisador final para uma reestruturação profunda. Mas, como mostra a análise fria dos fundamentos, encontrar quem queira assumir o passivo operacional, ambiental e financeiro da CSN exigirá mais do que habilidade de negociação: exigirá um alinhamento de astros econômicos que, por ora, permanece fora de órbita.

O mercado aguarda ansiosamente os próximos movimentos. Até lá, a CSN segue importando aço da Ásia, vendendo cimento e tentando convencer o mundo financeiro de que seu valor intrínseco vai muito além da soma de suas dívidas bilionárias.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 02/02/2026

 

Brasil aumenta tarifas sobre importação de aço; bancos e indústria siderúrgica veem efeito positivo para o setor

O governo federal aprovou nesta semana um conjunto de medidas que reforça a defesa comercial do setor siderúrgico brasileiro com a elevação de tarifas de importação sobre produtos de aço estrangeiros. Em deliberação do Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex), foi aprovada a elevação da alíquota do imposto de importação para 25% sobre nove NCMs (Nomenclaturas Comuns do Mercosul) de produtos siderúrgicos, por um período de 12 meses, e também a aplicação de direitos antidumping definitivos, por até cinco anos, sobre aços pré-pintados provenientes de países como China e Índia — uma tentativa de frear a entrada de produtos vendidos a preços considerados desleais e de fechar brechas que vinham sendo exploradas por importadores.

A decisão foi bem recebida por bancos de investimento e pelo setor, que há meses vinham apontando enorme pressão das importações sobre a produção nacional — especialmente de fornecedores asiáticos — e a consequente queda da rentabilidade das siderúrgicas domésticas. Relatórios de instituições como o Bank of America e o Itaú BBA destacam que a restrição extra imposta pelo governo pode ajudar empresas como CSN e Usiminas, que têm parte significativa de seu mix de produtos exposta aos segmentos agora alvo das tarifas.

Para a indústria representada pelo Instituto Aço Brasil, a elevação das alíquotas representa um “passo a mais” no fortalecimento das ferramentas de defesa comercial e tende a aliviar a pressão competitiva exercida pelas importações predatórias. A entidade avaliou a medida como positiva, ainda que ressalte que o cenário global exige atenção contínua, diante da sobreoferta mundial de aço e das práticas de subsídios em outros países.

Essas novas barreiras comerciais no Brasil vêm em um contexto global de tensões no comércio do aço: países ao redor do mundo têm adotado políticas protecionistas mais incisivas para proteger suas indústrias, enquanto exportadores pressionam para abrir mercados. No caso brasileiro, a mudança busca não apenas proteger a produção interna, mas também equilibrar os fluxos comerciais e criar um ambiente de preços mais favorável para as siderúrgicas locais, seja por meio de tarifas elevadas, direitos antidumping ou outros instrumentos de defesa comercial.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 02/02/2026

Thomas Gautier: Terras-raras para quem?

Enquanto EUA e Europa correm para reduzir a dependência de terras-raras da China – que impôs, recentemente, novos controles de exportação em meio a disputas comerciais – o Brasil parece hesitar diante de uma oportunidade extraordinária de reposicionamento global. Embora debruçado sobre a segunda maior reserva desses minerais no planeta, o País corre o sério risco de ser simples espectador diante da próxima onda tecnológica.

As terras-raras sustentam setores estratégicos, a exemplo dos chips, imprescindíveis à liderança digital. Inserido nessa cadeia de forma competitiva, o Brasil poderia ajudar a reduzir a concentração de fornecedores e surgir como alternativa ao risco de desabastecimento, em caso de agravamento das tensões geopolíticas. Sem contar que sua matriz energética possibilita a produção com menor custo ambiental de itens como baterias elétricas, turbinas eólicas e sistemas de defesa.

De acordo com números da Agência Nacional de Mineração (ANM), divulgados no portal do Senado, as autorizações a empresas para pesquisas de elementos em terras-raras brasileiras saltaram de 40 em 2015 para mais de 1.300 em 2024. A maior parte concentrada nos estados de Bahia, Goiás e Minas Gerais. Trata-se de um avanço importante, porém, insuficiente.

A extração brasileira ainda gira em torno de 20 toneladas anuais, contra 270 mil toneladas na China. Mesmo países como EUA, Índia, Myanmar, Nigéria e Vietnã já operam em volumes mais altos que o nosso. E aqui surge um dos maiores gargalos. O Brasil poderia acelerar seu avanço, caso se libertasse da lógica de exportação primária.

E como fazer isso? Com investimentos em atividades que agreguem valor às matérias-primas, como separação, processamento químico e manufatura avançada, em que o valor econômico dos produtos se multiplica. Transformar minerais em componentes de alta tecnologia é o que vai diferenciar nações que lideram os novos tempos das que permanecem como exportadoras de minério barato.

O contraste será cada vez mais evidente. A demanda global por minerais críticos deve crescer de duas a oito vezes até 2040, segundo o Ministério de Minas e Energia. Em paralelo, o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) projeta mais de R$ 10 bilhões em investimentos no setor de terras-raras entre 2025 e 2029, quase 50% acima do período anterior, entre 2024 e 2028.

Em um momento de redesenho das cadeias globais de suprimento, é urgente que esses investimentos ajudem o País a se adaptar às novas demandas. Desenvolver cadeias desses minerais críticos pode gerar milhares de empregos e reduzir intensamente a dependência de importações de peças, por exemplo, para veículos elétricos ou híbridos, deixando o mercado nacional menos sujeito ao humor do cenário externo e fortalecendo a indústria local.

E existe um obstáculo ainda maior: a logística. Um país que transporta 25% mais carga do que há dez anos usando praticamente a mesma infraestrutura, como aponta o Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), terá enorme dificuldade de competir globalmente. Sem estratégias adequadas e digitalização da estrada para reduzir custos, não basta extrair e processar minerais.

Estamos, portanto, diante de um momento único, em que o mundo vive um rearranjo importante. Se o Brasil não reduzir seus gargalos de logística e de tecnologia industrial, poderá perder uma janela histórica, que talvez nunca mais se repita. Seremos mais do mesmo, ou vamos transformar o futuro?
 

*Thomas Gautier
CEO da Freto

 
Fonte: Diário do Comércio
Seção: Opinião
Publicação: 02/02/2026

Medidas antidumping são aprovadas e beneficiam siderúrgicas – o que vem a seguir?

O Comitê Executivo de Gestão (Gecex) divulgou na última quarta-feira (28) as decisões de sua 233ª reunião ordinária. Entre elas, o comitê aprovou aplicar uma taxa antidumping definitiva sobre as importações de aço pré pintado da China e da Índia, por um período de até cinco anos.

Embora a margem antidumping final ainda não tenha sido divulgada —o que deve ocorrer nos próximos dias —, o relatório técnico preliminar anterior apontou margens antidumping de 21,7% (ou US$ 210,85/tonelada) para as importações da Índia e de 31,9% a 46,9% (ou US$ 252,53 a US$ 329,87/tonelada) para os produtos chineses.

O comitê também aprovou o aumento das tarifas de importação de 10,8% (12,6% em alguns casos) para 25% sobre determinados produtos siderúrgicos, incluindo alguns laminados a quente, chapas para embalagens, chapas e bobinas de aço inoxidável e silício, além de fio máquina.

O Bradesco BBI aponta que esta é uma notícia positiva para as siderúrgicas. Com relação aos aumentos tarifários, as importações dos produtos afetados totalizaram 623 mil toneladas em 2025, representando aproximadamente 10% do total das importações de aço.

“Embora as medidas abranjam uma ampla gama de produtos —em sua maioria provenientes da China —, é razoável esperar que uma tarifa de 25% aproxime os preços domésticos do aço da paridade com o material importado (dos atuais 21% para cerca de 8%). Em última análise, isso tende a tornar as importações desses itens economicamente inviáveis e a dar suporte aos preços domésticos”, avalia.

No que diz respeito às medidas antidumping, entre as siderúrgicas sob sua cobertura, apenas a CSN (CSNA3) possui exposição ao aço pré pintado (cerca de 10% das vendas).

Ainda assim, avalia o BBI, a decisão aumenta a probabilidade de aplicação de medidas para produtos CRC (fevereiro), galvanizados (março) e HRC (novembro).

O banco projeta impacto limitado nos preços domésticos caso essas medidas sejam implementadas. Para CRC e HRC, os volumes de importação visados nas petições já são bastante baixos; no caso da HRC, a participação da China nas importações caiu significativamente nos últimos meses. O efeito mais material tende a ser observado nos produtos galvanizados, segmento em que cerca de 30% da demanda doméstica é suprida por importações —quase integralmente originadas da China.

A estimativa é que uma variação de 1% nos preços domésticos equivale a aproximadamente 9% do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) da Usiminas (USIM5), 2% da Gerdau (GGBR4) e 1% da CSN.

“Assim, embora reconheçamos que os anúncios são positivos para o setor siderúrgico, mantemos uma postura mais cautelosa. A penetração das importações já vem diminuindo nos últimos meses —em parte porque os volumes chineses foram reduzidos ou redirecionados para outros mercados —, o que limita o impacto potencial das medidas anunciadas”, aponta. Além disso, conclui o banco, a dinâmica de demanda mais fraca, combinada com níveis elevados de estoques, deve restringir o espaço para uma recuperação mais expressiva dos preços no curto prazo.

O Morgan Stanley também olha para os próximos eventos, ressaltando que próxima reunião ordinária da Gecex está agendada para 12 de fevereiro de 2026. O banco americano vê que a possibilidade de que o comitê inclua na pauta da sessão as investigações antidumping sobre: ??1) bobinas ou chapas laminadas a frio (decisão final prevista para 19 de fevereiro de 2026); e 2) produtos laminados planos revestidos (decisão final prevista para 2 de março de 2026).

Os produtos de aço pré-pintados sujeitos às novas tarifas representam aproximadamente 5% do total das importações de aço do Brasil. Entre as empresas que acompanha, apenas a CSN está exposta a esses produtos, avalia o Morgan.

“Esperamos que o mercado reaja positivamente, visto que a decisão melhora o sentimento do mercado e elimina a incerteza causada pela percepção de inação do governo no apoio às siderúrgicas nacionais. Dito isso, permanecemos céticos quanto à eficácia a longo prazo das medidas corretivas, dada a prevalência histórica de práticas de evasão. Portanto, acreditamos que as importações permanecerão elevadas em 2026, embora as ações provavelmente continuem a subir no curto prazo, reagindo favoravelmente à decisão do governo”, avalia o Morgan.

O Itaú BBA avalia que, com o avanço das medidas de defesa comercial, a perspectiva para a indústria siderúrgica brasileira torna-se mais construtiva, com a Usiminas e a CSN destacando-se como principais beneficiárias.

 
Fonte: Infomoney
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 30/01/2026

Alta de tarifas sobre aço importado pode reconfigurar setor e destravar investimentos industriais

O governo federal aprovou recentemente um aumento nas tarifas de importação de diversos produtos siderúrgicos, em uma ação que sinaliza uma mudança de rumo na política comercial voltada ao setor do aço. A decisão, tomada pelo Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex), eleva alíquotas para aproximadamente 25% em um conjunto de produtos importados e impõe direitos antidumping com duração de cinco anos sobre aços pré-pintados provenientes de mercados como China e Índia, em resposta a práticas consideradas predatórias de concorrência.

Embora a medida atinja cerca de 10% do total importado, ela representa um ponto de inflexão para um segmento que vinha relatando pressões crescentes. Nos últimos anos, o volume de aço importado entrou em expansão significativa — com laminados importados crescendo 168% acima da média histórica entre 2000 e 2019 — impulsionando a participação de importados no mercado doméstico para aproximadamente 21%, bem acima dos níveis tradicionais.

A indústria argumenta que essas importações, muitas vezes ofertadas a preços muito abaixo dos praticados internamente, têm prejudicado a competitividade do parque fabril nacional, corroendo margens e desestimulando novos investimentos. Em um contexto global de excesso de capacidade produtiva, especialmente em países asiáticos, a entrada de volumes a preços muito baixos é vista por produtores locais como uma ameaça estrutural à sustentabilidade do setor.

No Espírito Santo, estado que abriga uma das maiores plantas siderúrgicas do país, essa nova postura do governo é interpretada como um fator potencial para destravar projetos de expansão que vinham sendo adiados. Há cerca de um ano, havia planos para investimentos bilionários na construção de novas linhas de laminação e galvanização, mas o excesso de importações teria desestimulado a decisão final de investimento. Com a nova política tarifária, o ambiente de negócios pode se tornar mais propício à retomada desses planos, ainda que a efetividade das medidas dependa de sua implementação e de eventuais revisões ao longo do tempo.

Especialistas apontam que as barreiras tarifárias não são inéditas no cenário internacional, com exemplos similares observados em outras regiões, como na Europa, onde mecanismos de defesa comercial têm sido acionados para proteger mercados locais diante de fluxos de importação intensos. A combinação de antidumping e tarifas elevadas vem sendo adotada por diversos países como forma de equilibrar a competição e preservar capacidade produtiva interna frente a desequilíbrios externos.

No entanto, a pergunta que permanece é se essa estratégia tarifária conseguirá, de fato, reverter o quadro de desequilíbrio estrutural. Embora possa desestimular parte das importações predatórias e melhorar a competitividade da produção doméstica, o impacto sobre os preços finais ao consumidor, a produtividade industrial e a atração de novos investimentos ainda dependerá da evolução do cenário global de comércio e da capacidade de coordenação das políticas comerciais com outros incentivos à produção.

Em suma, a elevação do imposto de importação de aço representa uma tentativa clara do governo de reforçar a indústria nacional, resguardar empregos e criar um ambiente mais estável para projetos industriais de grande porte. A medida também reflete um movimento mais amplo de ajuste da política comercial em resposta a desafios externos, como o excesso de oferta global e práticas comerciais consideradas injustas, que têm pressionado setores intensivos em capital e mão de obra no Brasil e em outras economias.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 30/01/2026

Construção civil: alta carga tributária é empecilho maior que taxas de juros

Na semana em que o Comitê de Política Monetária (Copom) indicou que a taxa básica de juros pode iniciar a trajetória de queda do maior patamar das últimas duas décadas a partir de março, após a sexta reunião consecutiva de manutenção da alíquota anual de 15%, a Sondagem Indústria da Construção mostra que a elevada carga tributária nacional se tornou o principal empecilho enfrentado pelo segmento.

De acordo com o levantamento, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com a Câmara Brasileira de Indústria da Construção (CBIC), o entrave saltou cinco pontos percentuais entre o terceiro e quarto trimestre do ano passado, de 32,2% para 37,2%. Ultrapassa assim as taxas de juros elevadas, que passaram a ser a segunda maior preocupação dos industriais da construção (32,1%).

Segundo Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, isso é reflexo de dois fatores. “O lançamento de programas importantes para o setor, assim como a expectativa de redução da taxa Selic no futuro próximo, ajuda bastante as expectativas do setor da construção, por isso essa melhora já acontecendo desde o final do ano passado e se consolidando nesse início de 2026.”

Todos os índices de expectativas aumentaram no primeiro mês do ano, dando sequência ao otimismo observado em dezembro:

Novos empreendimentos e serviços (+1,8 ponto, para 52,9 pontos);
Número de empregados (+1,8 ponto, para 52,8 pontos);
Nível de atividade (+1,1 ponto, para 52,8 pontos);
Compras de matérias-primas (+0,8 ponto, para 52,5 pontos).
Insatisfações

Apesar das expectativas positivas, o setor ainda tem muito do que reclamar no panorama atual. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) da Indústria da Construção registrou 48,6 pontos, enquanto a facilidade de acesso ao crédito atingiu 39 pontos no período, e o índice de satisfação com o lucro operacional caiu para 45,1, após recuo de 0,3 ponto. Todos ainda abaixo da linha satisfatória de 50 pontos.

“Quando se fala da construção, estamos falando de um produto de um ritmo de produção que envolve um período bastante longo, muitas vezes com uma necessidade muito grande de aporte de recursos em alguns momentos, muitas vezes com crédito para fazer os seus empreendimentos. À medida que o acesso ao crédito fica difícil por conta das taxas de juros bastante elevadas, isso afeta bastante o setor”, esclarece Azevedo.

Nesse cenário, o índice que mede a evolução do nível de atividade da indústria da construção fechou 2025 com 44,7 pontos. Esse é o pior resultado para o mês desde 2018. Com a atividade mais fraca, a Utilização da Capacidade Operacional se manteve estável em 67%, mesmo nível observado em dezembro de 2024, enquanto o índice do número de empregados caiu 1,2 ponto, para 45,7 pontos, ainda que acima da pontuação média para o mês (43,8 pontos).

Metodologia

A edição de dezembro de 2025 da Sondagem Indústria da Construção ouviu 315 empresas — 123 pequenas, 134 médias e 58 grandes — entre 5 e 14 de janeiro de 2026.

 
Fonte: Brasil 61
Seção: Construção, Obras & Infraestrutura
Publicação: 30/01/2026