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Siderurgia brasileira encontra novo equilíbrio em meio às incertezas do mercado global

Depois de quase dois anos convivendo com um ambiente marcado pela pressão das importações, margens comprimidas e excesso de oferta no mercado internacional, a siderurgia brasileira começa a apresentar sinais mais consistentes de mudança. Ainda não se trata de um ciclo robusto de expansão, tampouco de uma recuperação uniforme entre todos os segmentos da cadeia produtiva. Mas alguns indicadores sugerem que o setor ingressa no segundo semestre de 2026 em uma posição significativamente mais confortável do que a observada ao longo dos últimos anos.

A queda expressiva das importações de aço, a recuperação das exportações brasileiras, a melhora da confiança dos empresários e a manutenção dos preços internacionais do minério de ferro em níveis considerados economicamente saudáveis formam um conjunto de fatores que começa a alterar o ambiente competitivo para as usinas instaladas no País.

Ao mesmo tempo, persistem desafios relevantes. A economia chinesa continua perdendo dinamismo, o setor imobiliário do gigante asiático segue distante dos níveis históricos de atividade e o comércio internacional permanece condicionado pelas políticas de defesa comercial adotadas por diversas economias, especialmente Estados Unidos e União Europeia.

É justamente nesse ambiente de contrastes que o mercado brasileiro passa a construir uma trajetória própria, menos dependente apenas do ciclo internacional e mais influenciada pelas medidas internas de proteção comercial e pela recuperação gradual da demanda doméstica.

Um mercado dividido entre dois movimentos

Os números mais recentes mostram que a indústria global do aço continua operando sob duas realidades bastante distintas.

De um lado está a China, responsável por cerca de metade da produção mundial de aço, que segue enfrentando um processo de desaceleração econômica. O índice PMI industrial voltou a registrar 50 pontos em maio, exatamente na linha que separa expansão e contração da atividade manufatureira. A produção industrial chinesa cresceu apenas 4,1% em abril na comparação anual, abaixo das expectativas do mercado, enquanto a produção e o consumo aparente de aço também apresentaram retração em relação ao ano passado.

Esse quadro reforça uma percepção que já domina os analistas do setor: dificilmente a economia chinesa voltará, no curto prazo, ao ritmo de crescimento que sustentou o chamado "superciclo" das commodities nas duas primeiras décadas dos anos 2000. O mercado imobiliário permanece fragilizado, o investimento privado mostra recuperação lenta e o governo concentra esforços em programas pontuais de infraestrutura para evitar uma desaceleração mais intensa.

Ainda assim, o cenário não é totalmente negativo para a indústria siderúrgica. Os preços do aço na China voltaram a apresentar recuperação ao longo de abril e maio, favorecendo uma recomposição gradual das margens das usinas locais. O movimento foi acompanhado pela elevação dos preços de outras matérias-primas, além do aumento dos custos de energia e transporte provocado pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio.

Esse conjunto de fatores ajudou a sustentar as cotações internacionais do minério de ferro, cuja média em maio alcançou US$ 108,4 por tonelada, o maior patamar desde meados de 2024. Apesar de uma acomodação observada nas primeiras semanas de junho, com preços novamente próximos de US$ 100 por tonelada, o mercado continua operando em níveis considerados confortáveis para os grandes produtores globais.

Estados Unidos continuam sustentando os preços do aço

Enquanto a China reduz gradualmente o ritmo de crescimento, os Estados Unidos permanecem exercendo influência importante sobre a formação dos preços internacionais do aço.

O mercado norte-americano segue apresentando demanda consistente, sustentada principalmente pelos investimentos em infraestrutura, energia e manufatura. As cotações da bobina laminada a quente avançaram novamente em maio, encerrando o mês acima de US$ 1.120 por tonelada, enquanto a produção de aço continuou crescendo na comparação anual.

Outro indicador chama atenção: as importações norte-americanas continuam recuando, reflexo direto da política de proteção ao mercado interno iniciada ainda durante a primeira gestão de Donald Trump e preservada, com adaptações, pelas administrações seguintes.

Embora o Brasil permaneça como fornecedor de produtos semiacabados para o mercado norte-americano, especialmente placas de aço, o ambiente comercial continua longe de ser plenamente favorável. As barreiras tarifárias e os mecanismos de defesa comercial limitam o acesso de diversos produtos siderúrgicos ao mercado dos Estados Unidos, impedindo que a recente recuperação das exportações brasileiras seja interpretada como uma mudança estrutural nas condições do comércio internacional.

Na prática, o desempenho observado nos embarques brasileiros em abril reflete muito mais uma recomposição dos volumes exportados após um mês anterior mais fraco do que uma abertura efetiva de novos mercados.

Brasil começa a respirar

Se o ambiente externo continua cercado por incertezas, o mercado doméstico oferece sinais mais claros de melhora.

Os dados mais recentes do Instituto Aço Brasil mostram que praticamente todos os indicadores de atividade registraram retração em abril. A produção de aço bruto caiu para 2,7 milhões de toneladas, enquanto a produção de laminados, as vendas internas e o consumo aparente também apresentaram recuos na comparação com março.

À primeira vista, os números poderiam sugerir perda de dinamismo da indústria. Entretanto, uma análise mais ampla revela uma mudança importante na composição do mercado.

O principal destaque do mês foi a redução de aproximadamente 40% das importações de aço, que recuaram para 363 mil toneladas — o menor volume desde dezembro de 2024. Mais relevante do que o volume absoluto foi a redução da participação do produto importado no consumo aparente brasileiro, que caiu para 17,2%, abaixo da média registrada nos últimos três anos.

Essa mudança representa um dos primeiros efeitos concretos das medidas de defesa comercial adotadas pelo governo brasileiro nos últimos meses.

A renovação do regime de cotas e tarifas para importações de aço por mais doze meses, anunciada no fim de maio, preserva um ambiente de maior previsibilidade para as usinas nacionais, reduzindo a pressão exercida pelos produtos importados, sobretudo provenientes da Ásia.

Embora ainda seja cedo para afirmar que o mercado brasileiro entrou em um novo ciclo de crescimento, a menor competição externa tende a favorecer a utilização da capacidade instalada das siderúrgicas locais e contribuir para uma recuperação gradual das margens operacionais ao longo do segundo semestre.

Essa percepção já começa a aparecer também no sentimento dos empresários do setor.


A proteção comercial começa a produzir efeitos

 

A redução das importações talvez seja o indicador mais relevante para compreender o momento vivido pela siderurgia brasileira. Mais do que uma simples variação estatística de um único mês, o recuo de 40% nas compras externas sinaliza uma mudança importante na dinâmica competitiva do mercado nacional.

Nos últimos três anos, a indústria brasileira conviveu com um aumento expressivo da participação do aço importado, principalmente de produtos originários da Ásia. O movimento foi impulsionado pelo excesso de capacidade instalada em diversos países, sobretudo na China, que passou a direcionar parte crescente de sua produção para mercados externos diante da desaceleração da demanda doméstica.

Esse processo pressionou preços, reduziu margens e levou as siderúrgicas brasileiras a intensificarem os pedidos por mecanismos de defesa comercial.

As medidas adotadas pelo governo federal, entre elas a ampliação do sistema de cotas tarifárias para diferentes produtos siderúrgicos, começam agora a produzir efeitos mais perceptíveis. A renovação do regime por mais doze meses oferece previsibilidade às empresas e reduz o risco de uma nova onda de importações em condições consideradas desleais pela indústria nacional.

Embora o volume importado continue elevado em termos históricos, sua participação no consumo aparente caiu para pouco mais de 17%, abaixo da média observada desde 2023. Para o setor, trata-se de um indicador relevante porque significa maior espaço para a produção doméstica abastecer o mercado interno.

Na prática, uma menor competição de produtos importados tende a elevar a utilização da capacidade instalada das usinas brasileiras, melhorar a diluição dos custos fixos e favorecer a recuperação das margens operacionais — um aspecto particularmente importante para empresas que operam com elevados custos de produção.

Naturalmente, a proteção comercial não resolve todos os desafios da indústria. A competitividade continuará dependendo de fatores como custo da energia, logística, disponibilidade de sucata, produtividade industrial e evolução da demanda dos principais segmentos consumidores, como construção civil, infraestrutura, indústria automobilística e bens de capital.

Ainda assim, o atual ambiente representa uma condição mais equilibrada do que a observada recentemente.

Exportações surpreendem, mas exigem leitura cuidadosa

Se a redução das importações representa um dos pilares da melhora do ambiente doméstico, o avanço das exportações brasileiras de aço também merece atenção.

Em abril, os embarques cresceram quase 82% em relação ao mês anterior, impulsionados principalmente pelas vendas de placas e laminados planos.

À primeira vista, o número poderia sugerir uma retomada consistente do comércio internacional. No entanto, essa interpretação merece cautela.

Boa parte desse crescimento decorre da comparação com março, quando os embarques haviam registrado um desempenho excepcionalmente fraco. Em outras palavras, abril representa uma recuperação estatística importante, mas não necessariamente uma mudança estrutural na demanda internacional por aço brasileiro.

Além disso, o comércio global continua marcado por um ambiente protecionista.

Os Estados Unidos mantêm instrumentos tarifários que restringem o acesso de diversos produtos siderúrgicos ao seu mercado. A União Europeia segue utilizando mecanismos de salvaguarda para controlar o ingresso de aço estrangeiro. Outros países também ampliaram medidas antidumping e sistemas de monitoramento das importações.

Esse cenário reduz significativamente o espaço para uma expansão mais acelerada das exportações brasileiras de produtos acabados.

No caso das placas de aço, entretanto, o Brasil mantém posição relativamente confortável graças à competitividade de suas usinas integradas e ao fornecimento para mercados tradicionais, especialmente na América do Norte.

Ainda assim, especialistas avaliam que o crescimento sustentável das exportações dependerá muito mais da recuperação da demanda mundial do que da abertura de novos mercados.

Minério de ferro continua sendo o principal termômetro

Embora a reportagem tenha como foco a siderurgia, é impossível analisar o setor sem observar o comportamento do minério de ferro.

A commodity continua sendo o principal elo entre a economia chinesa e a indústria brasileira.

Em maio, os preços permaneceram acima de US$ 100 por tonelada, sustentados por uma combinação de fatores.

O primeiro deles foi a recomposição dos estoques chineses após o feriado do Dia do Trabalho. O segundo envolveu a recuperação dos preços do aço no mercado asiático, que melhorou temporariamente as margens das siderúrgicas locais. Somaram-se ainda fatores geopolíticos, como o aumento dos custos de frete marítimo e da energia em decorrência das tensões no Oriente Médio.

Apesar disso, poucos analistas apostam em um retorno aos níveis observados durante o auge do ciclo de commodities.

O consenso é que o mercado deverá permanecer operando em uma faixa próxima de US$ 95 a US$ 110 por tonelada, suficiente para garantir rentabilidade às grandes mineradoras, mas distante das cotações superiores a US$ 180 registradas durante os períodos de maior expansão da economia chinesa.

Outro dado importante refere-se aos estoques chineses de minério de ferro, que permanecem elevados. Mesmo com redução das importações em maio, os níveis armazenados continuam acima da média dos últimos três anos, indicando que o equilíbrio entre oferta e demanda ainda depende mais da disciplina da produção do que propriamente de uma expansão consistente do consumo.

Para o Brasil, essa estabilidade representa uma boa notícia.

Mesmo com a retração mensal dos embarques, a China continua absorvendo aproximadamente três quartos das exportações brasileiras de minério de ferro, preservando sua posição como principal destino da commodity nacional.

Empresas entram no segundo semestre com cenários distintos

O novo ambiente competitivo não afeta todas as empresas da mesma forma.

Entre as siderúrgicas, a Gerdau permanece relativamente bem posicionada por conta da elevada diversificação geográfica. A companhia possui forte presença tanto no mercado brasileiro quanto na América do Norte, reduzindo sua dependência de um único ciclo econômico.

A Usiminas talvez seja uma das maiores beneficiárias da redução das importações. Com atuação fortemente concentrada em aços planos destinados à indústria e ao setor automotivo, a empresa tende a sentir mais rapidamente os efeitos da menor concorrência dos produtos importados.

Já a CSN continua apresentando um perfil mais sensível às oscilações internacionais. Como combina atividades de mineração e siderurgia, seus resultados dependem simultaneamente da evolução dos preços do minério de ferro e do desempenho do mercado de aço.

No caso da Vale, o cenário permanece diretamente ligado à economia chinesa. Enquanto o país asiático continuar consumindo cerca de 70% do minério brasileiro exportado, qualquer mudança no ritmo de crescimento da atividade industrial chinesa continuará sendo determinante para os resultados da companhia.

Essa forte dependência ajuda a explicar por que, apesar da melhora observada em alguns segmentos da siderurgia brasileira, o mercado financeiro ainda acompanha com cautela os indicadores econômicos divulgados por Pequim.

Mais do que qualquer outro fator, eles continuam definindo o humor do mercado internacional de mineração e aço.

 

O segundo semestre será decisivo para confirmar a retomada

 

Embora os indicadores de abril e maio apontem para uma melhora gradual do ambiente de negócios, o desempenho da siderurgia brasileira no restante de 2026 dependerá menos da proteção comercial e mais da capacidade de o mercado interno sustentar uma recuperação consistente da demanda.

Até aqui, parte importante da melhora observada decorre da redução da pressão exercida pelo aço importado. A renovação do regime de cotas e tarifas trouxe maior previsibilidade às empresas, permitindo uma recuperação gradual dos preços domésticos e das margens operacionais. No entanto, essa proteção, por si só, não é suficiente para impulsionar um novo ciclo de crescimento caso os principais segmentos consumidores permaneçam em ritmo moderado.

A construção civil continua sendo um dos principais vetores para o consumo de aços longos. Após um período marcado por juros elevados e retração dos investimentos privados, o setor começa a apresentar sinais de estabilização, impulsionado pela expectativa de flexibilização da política monetária e pela retomada gradual de projetos imobiliários e de infraestrutura. Caso esse movimento se consolide, a demanda doméstica poderá absorver parte importante da capacidade produtiva hoje ociosa.

Outro segmento acompanhado de perto pelas usinas é a indústria automobilística. Apesar das oscilações observadas ao longo dos últimos anos, montadoras instaladas no Brasil voltaram a ampliar investimentos em eletrificação, renovação de plataformas e desenvolvimento de novos modelos. Esse processo tende a beneficiar principalmente produtores de aços planos de maior valor agregado, segmento em que empresas como a Usiminas ocupam posição estratégica.

A agenda nacional de infraestrutura também permanece no radar do setor. Obras ligadas à expansão da malha ferroviária, modernização de portos, saneamento básico, energia e transmissão elétrica podem representar uma fonte relevante de demanda por produtos siderúrgicos nos próximos anos. Entretanto, a velocidade desses investimentos continuará condicionada à execução orçamentária, ao ambiente macroeconômico e à confiança dos investidores.

China continuará determinando o humor do mercado

Se o mercado doméstico ganhou importância para os resultados das siderúrgicas brasileiras, o cenário internacional continuará sendo definido, em grande medida, pela economia chinesa.

A desaceleração observada nos últimos meses não indica uma crise de curto prazo, mas sim uma mudança estrutural no padrão de crescimento do país. O modelo baseado em expansão acelerada do setor imobiliário perdeu força, enquanto novos vetores, como tecnologia, energia limpa e manufatura de maior valor agregado, ainda não compensam integralmente a redução da demanda por aço tradicional.

Esse novo contexto deverá manter o consumo chinês em patamares elevados, porém com crescimento mais moderado do que aquele observado durante o chamado superciclo das commodities.

Para produtores brasileiros de minério de ferro, isso significa conviver com um mercado menos exuberante, porém mais previsível. Preços próximos de US$ 100 por tonelada continuam proporcionando elevada rentabilidade para operações de grande escala, embora reduzam o potencial de ganhos extraordinários observado em ciclos anteriores.

Ao mesmo tempo, permanecem no horizonte fatores de risco capazes de alterar rapidamente esse equilíbrio. Tensões geopolíticas, mudanças na política comercial norte-americana, novas medidas antidumping e oscilações na atividade industrial chinesa continuarão influenciando diretamente o comportamento dos preços internacionais do aço e do minério.

Uma indústria mais preparada

Apesar desse ambiente ainda cercado por incertezas, a indústria siderúrgica brasileira chega ao segundo semestre em condições mais favoráveis do que as registradas ao longo dos últimos dois anos.

A redução das importações devolve competitividade ao mercado doméstico. A recuperação das exportações demonstra que o parque siderúrgico nacional mantém capacidade de atender clientes internacionais quando as condições de mercado permitem. A melhora dos índices de confiança revela empresários mais otimistas quanto à evolução dos negócios. E a estabilidade dos preços do minério contribui para preservar o equilíbrio financeiro de toda a cadeia mineral e siderúrgica.

Mais importante, porém, é que esses fatores ocorrem simultaneamente.

Historicamente, momentos de recuperação sustentada da siderurgia brasileira costumam surgir justamente quando proteção comercial, melhora da demanda doméstica e estabilidade dos preços internacionais convergem em uma mesma direção.

Ainda é cedo para afirmar que um novo ciclo de crescimento esteja plenamente consolidado. O mercado global continua convivendo com excesso de capacidade produtiva, disputas comerciais e incertezas econômicas. Entretanto, os indicadores recentes sugerem que o ambiente deixou de se deteriorar e começa, gradualmente, a favorecer novamente a indústria instalada no País.

Para as empresas brasileiras, o desafio agora deixa de ser apenas resistir à concorrência internacional e passa a ser aproveitar essa janela para elevar produtividade, investir em descarbonização, ampliar eficiência operacional e consolidar ganhos de competitividade.

Mais do que uma recuperação conjuntural, o setor parece entrar em uma fase de reconstrução de sua capacidade de competir em um mercado global cada vez mais exigente.

Os números que explicam o momento da siderurgia

Abril/Maio de 2026

Importações brasileiras de aço: -40%
Exportações brasileiras de aço: +81,9%
Produção brasileira de aço bruto: -3,8%
Consumo aparente: -12%
Confiança da indústria do aço: 59,9 pontos (maior nível desde outubro de 2024)
Minério de ferro: US$ 108,4/t (média de maio)
Participação da China nas exportações brasileiras de minério: 73,4%
Cinco fatores que o setor acompanhará até o fim de 2026

1. Economia chinesa
A velocidade da recuperação industrial continuará determinando a demanda global por minério de ferro e aço.

2. Defesa comercial
A manutenção das cotas e tarifas será decisiva para preservar o espaço conquistado pela indústria nacional.

3. Investimentos em infraestrutura
Projetos públicos e privados poderão elevar significativamente o consumo doméstico de aço.

4. Política monetária
A redução dos juros tende a estimular construção civil, indústria e bens de capital.

5. Descarbonização
A competitividade futura dependerá cada vez mais de investimentos em eficiência energética, reciclagem, hidrogênio de baixo carbono e redução das emissões de CO?.

Conclusão

Os números mais recentes mostram que a siderurgia brasileira ainda está longe de um cenário de euforia. A produção permanece moderada, o consumo doméstico segue abaixo do potencial e o ambiente internacional continua marcado por incertezas. Ainda assim, os indicadores revelam uma inflexão importante: pela primeira vez em muitos meses, a indústria passa a reunir fatores positivos simultâneos — menor pressão das importações, recuperação das exportações, melhora da confiança empresarial e maior previsibilidade regulatória.

Mais do que anunciar um novo ciclo de crescimento, esses sinais indicam que o setor começa a reconstruir suas bases competitivas. Em um mercado global onde eficiência, inovação e sustentabilidade se tornam cada vez mais determinantes, essa pode ser a principal conquista da siderurgia brasileira em 2026.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 11/06/2026

União Europeia acelera negociação com Brasil por terras raras após Trump fechar compra de mineradora

A União Europeia (UE) quer entrar na disputa pelas reservas de terras raras no Brasil, com Estados Unidos e China. A Comissão Europeia pretende intensificar a negociação para chegar a uma parceria em território brasileiro e um acordo com o governo federal.

O objetivo de fundo é assegurar suprimentos para as indústrias estratégicas europeias, entre elas as de tecnolgia e defesa, e escapar do controle de chinês no segmento e do apetite americano disparado por Donald Trump.

Diplomatas brasileiros afirmaram que os europeus demostraram preocupação com o avanço dos EUA e da China nas reservas de minerais críticos da América do Sul. Embora o subsolo nacional não tenha sido totalmente mapeado, estima-se que o País detenha a segunda maior reserva de terras raras do mundo (23%) e cerca de 21 milhões de toneladas.

A UE vai despachar ao Brasil, entre 18 e 24 de junho, o comissário de Parcerias Internacionais, Jozef Síkela, responsável por tratar do tema e assegurar o que os europeus chamam de uma “cadeia de suprimentos segura e sustentável” de matéria-prima crítica.

O comissário visitará Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Ele estará acompanhado lideranças do projeto de investimento europeu Global Gateway, da diplomacia do bloco e também do Banco Europeu de Investimentos (BEI).

No sábado, dia 20, Síkela vai visitar um dos projetos de terras raras atualmente em avaliação de investimentos europeus, o Colossus, da empresa australiana Viridis, em Poços de Caldas (MG).

Funcionários europeus em Bruxelas veem uma oportunidade para a Europa, oferecendo o que chamam de parcerias “confiáveis” e “estáveis”, enquanto existe instabilidade global por causa da disputa franca por liderança e uma guerra comercial entre Estados Unidos e China.

Os europeus falam em oferecer tecnologia, formação e investimento produtivo, seguindo os seus parâmetros climáticos e sociais.

A UE montou com os governos de Brasil, Argentina e Bolívia grupos de trabalho para selecionar seus projetos prioritários a fim de receber aportes. Os europeus também mostraram os seus interesses, e os portfólios foram cruzados e mostrados a empresas do bloco. O objetivo é criar conexão industrial entre as empresas locais sul-americanas e as europeias.

Interlocutores europeus querem diversificar suas fontes de acesso a minerais críticos, entre eles os elementos de terras raras abundantes no Brasil, mas escassos no restante do mundo (exceto a China). Eles fizeram chegar aos governos que estão dispostos a investir dinheiro nos países, “mas não para que refinem o lítio e o mande de volta para a China”.

Os europeus são claros: buscam diversificar a cadeia de suprimentos e garantir independência, para escapar de quem, com uma ordem política, “fecha o mercado de exportação e paralisa a indústria automobilística alemã“. O agente oculto é a China.

Como retaliação à guerra comercial com os EUA, Pequim já represou a exportação de minerais críticos, o que afetou a indústria americana, inclusive a indústria de defesa.

Em janeiro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que o acordo em discussão com o Brasil nortearia a cooperação e projetos de investimentos conjuntos em lítio, níquel e terras raras.

“Isto é fundamental para as nossas transições digital e limpa, bem como para a nossa independência estratégica num mundo onde os minerais tendem a tornar-se um instrumento de coerção”, disse ela.

O bloco europeu sabe que será difícil cobrar exclusividade - o governo brasileiro já recusou um acordo nessas bases com os EUA - mas exigem que ao menos parte das exportações dos insumos volte à Europa. Dizem, em contrapartida, que vão investir em produtos de valor agregado feitos localmente.

Ofensiva europeia ocorre após EUA comprarem participação em mineradora brasileira

A viagem de Síkela e a ofensiva europeia ocorrem depois de os Estados Unidos aportarem recursos e comprarem participação na Serra Verde, que explora terras raras leves e pesadas em Minaçu (GO), também em busca de alternativas um mercado global dominado pela China - Pequim concetra cerca de 70% da capacidade de exploração e 90% do refino. A compra foi feita pela mineradora USA Rare Earth, da qual o governo Trump passará a ser acionista.

A China é o principal detentor e, sobretudo, processador de minerais críticos do mundo e terá um papel central nas próximas duas décadas, conforme projeções da Agência Internacional de Energia (AIE).

Pequim domina o refino de 19 dos 20 minerais críticos listados em estudo da agência Perspectivas Globais para Minerais Críticos 2025: com 44% do cobre, 70% do lítio, 92% das terras raras, 95% do grafite e 99% do gálio.

Além de avaliar um projeto em concreto, a UE e o governo brasileiro discutem formalizar um acordo, ainda com termos mais genéricos, para dar base à cooperação em terras raras e outros minerais críticos.

Segundo apurou o Estadão, os primeiros rascunhos do acordo não agradaram ao Brasil, porque se limitavam a discutir aspectos da extração mineral. Pessoas com acesso ao texto falam em tratativas para um memorando de entendimentos, espécie de carta de intenções - algo que a UE já assinou com Argentina e Chile.

Brasil quer que acordo inclua beneficiamento, e não apenas extração

Representantes do Brasil avisaram Bruxelas que o acordo só será fechado se incluir beneficiamento e investimentos novos de europeus no País. Existem fundos que a UE pode mobilizar para financiar empresas europeias interessadas em reservas de terras raras.

Enquanto o País ainda discute uma política nacional - um marco legal foi aprovado na Câmara e agora tramita no Senado -, o governo Lula adotou como diretriz firmar apenas acordos mais gerais, mas que deixem claro o interesse em parcerias que induzam a criação de uma cadeia industrial no País, voltada ao processamento e refino de terras raras ao invés da exportação de matéria-prima bruta.

Os recados do governo nesse sentido parecem ter sido ouvidos. Interlocutores em Bruxelas e Luxemburgo afirmam que a parceria em discussão vai seguir um “modelo europeu” voltado também ao “benefício público” e que não se limita à exportação 100% da matéria-prima e haverá desenvolvimento da indústria local.

A conclusão de um financiamento é considerado um projeto de prazo médio a longo. No Brasil, o BEI vai mobilizar equipe técnica, de project finance, setor público e manter conversas com o BNDES e o BDMG.

Há interesse da UE em um contrato de offtake, com um comprador europeu adquirindo a produção antes mesmo de a operação começar. Segundo fontes a par das tratativas, essa é uma condição considerada muito importante em Bruxelas em Luxemburgo. Eles querem assaegurar a diversificação da distribuição dos minerais para que vão sejam enviados a outras partes do mundo e beneficie a Europa.

Se não o todo, o que poderia cair na exclusividade e veto à venda a outros países (o que o governo Lula rechaça), um percentual relevante que aumente o acesso da Europa às reservas de terras raras.

Os europeus indicaram estar de acordo com o processamento industrial local no Brasil - ao menos em parte - e que com o tempo poderia ser completo, idealmente, se houver capacidade produtiva instalada.

O Banco Europeu de Investimentos (BEI) já financiou projetos dentro da Europa e agora busca os primeiros na América Latina. São projetos considerados de médio a longo prazo.

Eles participam da atual edição da Exponor, em Antofagasta, no Chile, uma das feiras mais tradicionais do setor mineral. E também observam oportunidades em outros países com reservas minerais relevantes, entre eles a Argentina.

Dois funcionários técnicos do BEI vão acompanhar a visita de Síkela. Não há um montante pré-definido para o crédito - a instituição financeira vai avaliar caso a caso os projetos, de acordo com a demanda de financiamento.

O banco é uma institutição que age sob interesse direto de empresas europeias, com a orientação política da UE. Ajuda empresas europeias a acelerarem investimentos e trabalha com empresas locais parceiras delas. O interesse é justamente procurar fornecedores de materiais estratégicos que faltam na Europa e existem em abundância na América.

Impacto do acordo Mercosul-UE

Eventual aporte de investimentos empresariais e o memorando em discussão com o governo brasileiro devem se beneficiar das regras previstas no acordo de comércio entre Mercosul e a UE, em vigor desde 1º de maio.

O tratado de livre comércio prevê preferências tarifárias para minerais e tem uma cláusula que vale só para o Brasil, dando ao governo a capacidade de exercer, no futuro, algum grau de controle sobre as exportações de terras raras. O objetivo, segundo diplomatas, era proteger as reservas e evitar que fossem destinadas à exportação como matérias-primas brutas.

Se o governo vier a aplicar alguma taxa sobre a exportação, a União Europeia vai preservar uma preferência, ou seja, terá um tratamento melhor, uma margem mais baixa em relação a outros países.

 
Fonte: Estadão
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 10/06/2026

 

A UE estabelece um quadro jurídico para proteger o mercado do aço.

Segundo o correspondente da Agência de Notícias do Vietnã em Bruxelas, o Conselho da União Europeia (UE) adotou oficialmente, em 8 de junho, um novo regulamento que estabelece um quadro legal para proteger o mercado siderúrgico do bloco da sobreoferta global. Esta é uma medida que a UE considera essencial para resgatar sua indústria fundamental, que enfrenta dificuldades.

As novas regulamentações, que entram em vigor em 1º de julho, substituirão as medidas de proteção da UE para a indústria siderúrgica, que expiram em 30 de junho.

Representando a presidência rotativa da UE, Michael Damianos, Ministro da Energia, Comércio e Indústria da República de Chipre, afirmou que "o aço é indispensável para a base industrial da Europa, para a sua transição verde e para a segurança do bloco".

Ao adotar o regulamento mencionado, a UE está a estabelecer um quadro mais robusto para responder à volatilidade do mercado global, proteger a concorrência leal e proporcionar garantias tanto aos produtores de aço como às indústrias subsequentes.

De acordo com as novas regulamentações, o sistema de quotas tarifárias (TRQ) foi reformulado para se tornar mais rigoroso. Especificamente, as quotas de importação serão reduzidas e o imposto sobre o aço que exceder a quota será significativamente aumentado. Esta é a principal medida para limitar a entrada de aço barato no mercado da UE.

Em paralelo, a regulamentação permite que as empresas transfiram quotas não utilizadas de um trimestre para outro dentro do mesmo ano. Essa flexibilidade ajuda a evitar o desperdício de quotas devido a flutuações sazonais, ao mesmo tempo que controla o volume total anual de importações.

Além disso, a cláusula de "fusão e vazamento" estipula a verdadeira origem do produto, especificando onde o aço é primeiramente fundido e moldado em forma sólida. Essa medida visa impedir a burla da lei por meio da transferência de aço através de um terceiro país para "mascarar" sua origem antes de entrar no mercado da UE.

Com essa disposição, as autoridades aduaneiras europeias têm uma base legal para rastrear a verdadeira origem de um produto, independentemente do número de portos intermediários pelos quais ele passe.
Os regulamentos também estabelecem um mecanismo de revisão periódica reforçado, permitindo à Comissão Europeia avaliar e recomendar ajustes à medida que o mercado se altera.

Esta é uma diferença fundamental em relação às antigas e rígidas medidas de salvaguarda. Na declaração conjunta que acompanha o regulamento, o Conselho da UE, o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia reafirmaram o seu compromisso de reduzir a dependência económica da Rússia, promovendo simultaneamente um roteiro para a eliminação gradual dos produtos siderúrgicos russos do mercado da UE.

A decisão de 8 de junho é uma clara indicação da direção da política industrial europeia. A UE opta por proteger a sua produção nacional de aço como prioridade estratégica, não só para o emprego e a economia regional, mas também porque o aço é a espinha dorsal das capacidades de defesa e da transição energética.

Segundo as previsões, o excedente global de aço atingirá 721 milhões de toneladas em 2027, cinco vezes o consumo anual de toda a UE. Entretanto, a Europa é praticamente o único mercado aberto para esse excedente de aço devido às tarifas americanas e à contínua produção em larga escala da China.

Como resultado, prevê-se que as siderúrgicas europeias operem com apenas 67% da capacidade até 2024, um nível perigoso que torna a recuperação do investimento praticamente impossível.

Desde 2007, a indústria siderúrgica da UE teve que reduzir a produção em aproximadamente 65 milhões de toneladas e cortar 100.000 postos de trabalho. Atualmente, o setor emprega diretamente cerca de 300.000 pessoas e sustenta as economias de muitas regiões dos Estados-Membros.

 
Fonte: Vietnam.vn
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 09/06/2026

 

Restrições da UE ao aço e ao óleo de soja aprofundam atritos com o Brasil após acordo

A União Europeia adotou recentemente medidas que devem resultar em novas restrições a produtos exportados pelo Brasil ao bloco, num movimento que aprofunda atritos com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poucas semanas depois da entrada em vigor provisória do acordo de livre comércio com o Mercosul.

Na última reunião do Grupo Mercado Comum (GMC), braço executivo do Mercosul, as delegações de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai registraram queixas sobre medidas europeias que devem limitar exportações de aço e óleo de soja. Essas restrições, que se aplicam globalmente e não apenas ao Brasil e seus vizinhos, se somam ao recente veto da Europa à compra de carne brasileira pelo uso de antibióticos.

A UE diz que a medida contra o aço importado tem como objetivo mitigar os efeitos de uma sobrecapacidade global, enquanto no caso da soja o problema estaria ligado ao efeito indireto sobre perdas de florestas e degradação do solo.

No caso do aço, os representantes dos países do Mercosul disseram, durante o encontro, que as barreiras planejadas pela Europa podem representar um descumprimento do tratado de livre comércio. A avaliação foi confirmada pelo Itamaraty, que em resposta à Folha disse que as medidas, caso adotadas, “podem vir a restringir ou esvaziar concessões obtidas sob o acordo”.

“Para o caso de identificação de descumprimento do acordo, há remédios no próprio acordo para lidar com eventual retirada de benefícios acordados, como no mecanismo de reequilíbrio presente no capítulo de solução de controvérsias”, afirmou a pasta, em nota.

O Parlamento Europeu endureceu, em votação realizada em 19 de maio, as regras para a entrada de produtos siderúrgicos nos países da UE. Além de cortar pela metade o volume que pode ingressar livre de tarifas -para 18,3 milhões de toneladas métricas-, o bloco elevou de 25% para 50% o imposto sobre o aço extracota.

A decisão deve vigorar a partir de 1º de julho, com aplicação inclusive para sócios com os quais a União Europeia tem tratado comercial, caso do Mercosul.

A medida atinge diretamente os interesses da indústria brasileira, uma vez que o acordo entre a UE e o Mercosul previa tarifa zero para diversos produtos siderúrgicos.

O Instituto Aço Brasil disse à Folha que a limitação das importações prevista pela União Europeia “inevitavelmente impactará as exportações brasileiras de aço, mesmo que os volumes exportados pelo Brasil não configurem ameaça ao mercado europeu”.

“O Aço Brasil entende que deveria prevalecer o que foi acordado no âmbito do [acordo] Mercosul-União Europeia. Num contexto em que países estão se fechando e em que o Brasil está perdendo mercado internamente devido às importações predatórias de aço, ter acesso restrito a mais um mercado é extremamente preocupante”, declarou a entidade.

Segundo o Itamaraty, a média das importações europeias oriundas do Brasil dos produtos cujas tarifas estão sendo elevadas foi de cerca de 444 milhões de euros (R$ 2,7 bilhões) entre 2022 e 2024.

A justificativa da UE ao decidir aumentar sua proteção ao setor siderúrgico é enfrentar a sobrecapacidade global, fenômeno causado por uma produção massiva de aço na China para exportação a preços inferiores aos dos concorrentes domésticos.

O problema também afeta as siderúrgicas no Brasil, que classificam a prática chinesa como predatória.

O bloco europeu adota salvaguardas na siderurgia desde 2018, mas elas eram mais brandas do que as recém-aprovadas e expiram no final de junho. Havia ampla expectativa no Brasil de que os termos de tarifa zero negociados no acordo de livre comércio com o Mercosul prevaleceriam.

A Delegação da União Europeia no Brasil declarou que a medida, além de compatível com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), é “necessária tendo em conta o nível insustentável de sobrecapacidade global e o crescente número de medidas restritivas ao comércio em outros países, resultando no desvio de comércio para o mercado da UE”.

A missão diplomática também declarou que a UE está discutindo as implicações de sua proposta com parceiros.
Por último, afirmou que ainda é cedo para saber o impacto sobre cada sócio comercial, mas destacou que o novo regulamento “estabelece que os parceiros que tenham um acordo de livre comércio com a UE poderão receber um tratamento especial e diferenciado”.

Óleo de soja

A renegociação tarifária do aço na OMC não é a única ação da União Europeia que é alvo de críticas no governo Lula.

Na mesma reunião do GMC, realizada nos dias 19 e 20 de maio, os delegados do Mercosul reclamaram de uma recente normativa europeia que classificou a soja como produto de alto risco de Mudança Indireta do Uso do Solo (ILUC, na sigla em inglês).

O ILUC é um conceito usado na União Europeia para estimar se o aumento da produção de determinadas culturas para biocombustíveis pode provocar, indiretamente, perda de florestas e outras mudanças no uso da terra.

Ao incluir a soja numa lista de alto risco de ILUC, os europeus colocam a cultura como uma espécie de vetor indireto de desmatamento. A consequência mais imediata é que o óleo de soja não mais poderá ser contabilizado para o cumprimento das metas europeias de uso de biocombustíveis, e precisará deixar de ser usado para essa finalidade até 2030.

A nova regra foi introduzida em 10 de abril pela Comissão Europeia e aguarda análise do Parlamento e do Conselho Europeu.
André Nassar, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), afirma que a medida “basicamente vai banir o óleo de soja como insumo para biocombustíveis” na Europa.

Embora o óleo de soja represente apenas 7% dos biocombustíveis usados na UE, Nassar prevê reflexos negativos para o consumo do produto também no setor de alimentos, uma vez que a soja recebeu uma espécie de selo de causadora indireta de desmatamento.

“Quando o óleo de palma foi classificado como de alto risco de ILUC, as importações europeias caíram drasticamente”, declara. “A indústria de alimentos europeia também vai começar a consumir menos óleo de soja.”

Segundo dados do Ministério da Agricultura, o Brasil exportou 6,2 milhões de toneladas de soja em grão -insumo do óleo tanto para biocombustíveis quanto para outras finalidades da indústria de alimentos- para a União Europeia em 2025.

Procurado, o Itamaraty disse que o Brasil “não concorda com a metodologia adotada pela União Europeia nem com as conclusões dela decorrentes”. Afirmou ainda que a medida restringe-se aos biocombustíveis, mas que “eventuais restrições futuras, entretanto, podem produzir efeitos sobre a cadeia de exportação da soja”.

Já a Delegação da UE no Brasil defendeu a diretiva no âmbito dos esforços de descarbonização do bloco, afirmando que, pela proposta, “os biocombustíveis de soja não serão elegíveis para as metas de descarbonização da UE após 2030”.

“Existem soluções alternativas que podem ser disponibilizadas aos países do Mercosul para contrabalançar as implicações esperadas”, disse.

Também destacou que os biocombustíveis apontados como de baixo risco de ILUC estão isentos da redução gradual e que a Comissão Europeia está em processo de revisão das regras de certificação, “o que poderia proporcionar uma abordagem mais matizada”.

A delegação afirmou que a “UE continuará dependendo da soja como reserva alimentar essencial no setor agrícola, com uma procura constante por importações de soja”.

 
Fonte: Diário do Comércio
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 05/06/2026

 

OCDE aponta excesso de aço chinês no mercado global e pressão sobre siderúrgicas brasileiras

O mercado global de aço acumula um desequilíbrio que se aprofunda a cada ano: capacidade de produção crescendo, demanda estagnada e um volume crescente de aço subsidiado inundando mercados ao redor do mundo. O relatórioOCDE Steel Outlook 2026, divulgado nesta quinta-feira (4), projeta que o excesso de capacidade global chegará a 745 milhões de toneladas até 2028, um volume superior a toda a produção atual de aço dos países da OCDE.

No Brasil, a produção de aço bruto caiu 1,6% em 2025, os preços domésticos enfraqueceram com a chegada de aço asiático mais barato e as siderúrgicas nacionais apelam ao governo por mais barreiras de importação, enquanto aumentam as exportações brasileiras para a Europa, após o fechamento do mercado americano com tarifas mais altas, medidas que afetaram especialmente a Gerdau, Usiminas e CSN.

Excesso de capacidade ocorre quando a capacidade instalada de produção de uma indústria supera significativamente a demanda real pelo produto. No aço, esse desequilíbrio força os produtores a vender abaixo do custo para manter as usinas funcionando, derrubando preços globalmente.

China exporta mais aço do que a Europa produz

A China exportou um recorde de 131 milhões de toneladas de aço em 2025, alta de 153% em relação a 2020 e um volume superior a toda a produção da União Europeia no mesmo ano. A pressão vem de dentro: a crise no setor imobiliário chinês contraiu a demanda doméstica e forçou os produtores a escoar o excedente para o exterior.

O mecanismo que viabiliza essa estratégia é o subsídio estatal. Em 2024, a empresa de aço chinesa mediana recebeu 15 vezes mais em subsídios, em relação ao tamanho de seus ativos, do que produtores em outras regiões do mundo. Em 2023, essa proporção era de 10 vezes. A diferença cresce a cada ano.

Apesar das diretrizes internas para controlar a expansão, a China planeja adicionar até 38,6 milhões de toneladas de nova capacidade até 2028. Índia e Sudeste Asiático também seguem em expansão acelerada.

Tarifas não resolvem: o aço encontra outros caminhos

A resposta dos países importadores foi erguer barreiras. Brasil, Canadá, Índia, México e Estados Unidos aumentaram tarifas ou implementaram cotas sobre produtos básicos de aço entre 2025 e 2026. O Brasil foi o segundo país do mundo que mais abriu investigações antidumping em 2025, com nove novos casos, atrás apenas do Canadá, que registrou 20.

O problema é que as barreiras têm sido sistematicamente contornadas. O relatório da OCDE identifica um padrão: exportações de produtos como chapas laminadas a quente e bobinas da China para países do Sudeste Asiático aumentaram de forma expressiva, ao mesmo tempo em que esses mesmos países passaram a exportar os mesmos produtos para mercados da OCDE em volumes maiores.

As exportações chinesas de aço semiacabado para o Sudeste Asiático subiram 300% em 2025, sugerindo processamento em terceiros países antes da reexportação para driblar as tarifas. A velha tática da triangulação para driblar barreiras comerciais.

Descarbonização adiada, crise financeira à vista

Com margens espremidas, a indústria global recua nos projetos de menor emissão de carbono. No primeiro semestre de 2025, cerca de 19% dos projetos planejados de baixa emissão foram suspensos. A alta nos custos de energia provocada pelo conflito no Oriente Médio agrava o quadro: a energia pode responder por até 40% dos custos de produção do aço.

A pressão sobre os insumos também cresce. Nenhum país produtor de aço é autossuficiente nas matérias-primas que precisa, e 42 países já aplicam restrições à exportação de sucata ferrosa, material que seria central para a transição do setor a processos de menor emissão.

Brasil resiste sem restringir sucata

Dentro desse ambiente, o Brasil mantém uma posição distinta em relação à sucata: exportou 1,1 milhão de toneladas do material em 2025, com participação de 0,8% no mercado global, sem aplicar nenhuma restrição à saída do insumo, ao contrário de China e Índia.

No plano tarifário, o governo brasileiro endureceu as regras em fevereiro de 2026, elevando as tarifas de importação para 25%, sem cotas, para categorias adicionais de chapas e produtos de arame. O sistema de cotas tarifárias introduzido em junho de 2024 havia sido estendido em maio de 2025 com ampliação da cobertura de produtos.

A taxa de utilização das usinas globais deve cair para 74% ou menos até 2028, um nível considerado insustentável para a saúde financeira do setor. O secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann, resumiu o problema em pronunciamento durante a reunião ministerial da organização: “O excesso de capacidade cria problemas para todos. Distorce os mercados globais, prejudica a segurança econômica e desencoraja a inovação.”

 
Fonte: Times Brasil
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 05/06/2026

Brasil amplia blindagem da indústria do aço contra avanço das importações

O governo brasileiro decidiu reforçar sua política de defesa comercial para o setor siderúrgico ao renovar a aplicação de tarifas de importação de 25% sobre uma ampla lista de produtos de aço. A decisão foi tomada pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) e integra o conjunto de medidas destinadas a proteger a indústria nacional diante do aumento da concorrência internacional e do excesso de oferta global, especialmente proveniente de mercados asiáticos.

A renovação das tarifas abrange 19 produtos siderúrgicos que já estavam sujeitos à medida e inclui ainda um novo item na Lista de Desequilíbrios Comerciais Conjunturais (DCC). O mecanismo permite ao governo elevar temporariamente as alíquotas de importação quando identifica condições de mercado consideradas prejudiciais à indústria doméstica. Diferentemente das medidas antidumping, que exigem investigações mais longas para comprovar práticas desleais de comércio, o DCC possibilita respostas mais rápidas para corrigir distorções causadas pelo aumento das importações.

A decisão representa mais um capítulo da estratégia brasileira de proteção ao setor do aço, que já conta com um sistema de cotas tarifárias aplicado a diversos produtos siderúrgicos importados. Nesse modelo, determinados volumes de importação podem ingressar no país com tarifas reduzidas, variando entre 9% e 16%. Entretanto, quando as importações ultrapassam os limites previamente estabelecidos, passa a ser aplicada uma tarifa adicional de 25% sobre o volume excedente.

Atualmente, as medidas de salvaguarda atingem 23 categorias de produtos siderúrgicos. O objetivo é evitar que grandes volumes de aço importado, frequentemente associados a mercados com elevados subsídios governamentais, provoquem desequilíbrios competitivos e prejudiquem os fabricantes brasileiros. Países como China e Rússia figuram entre os principais focos de preocupação da indústria nacional devido à elevada capacidade produtiva e aos preços mais competitivos praticados por seus exportadores.

Embora as medidas tenham caráter temporário, elas vêm sendo sucessivamente renovadas desde sua implementação, em 2024, consolidando-se como um dos principais instrumentos de política comercial utilizados pelo Brasil para o setor siderúrgico. Na prática, a continuidade das tarifas cria um ambiente mais protegido para os produtores nacionais, reduzindo as oportunidades de arbitragem por meio de importações e fortalecendo o poder de precificação das usinas brasileiras.

Entre os produtos contemplados pela renovação estão bobinas laminadas a quente e a frio, chapas galvanizadas, produtos de aço-liga, vigas estruturais e tubos para transporte de fluidos. Também foi incluída na lista uma categoria de barras redondas de aço carbono, ampliando o alcance das medidas de proteção.

A iniciativa atende a reivindicações recorrentes da indústria siderúrgica brasileira, liderada pelo Instituto Aço Brasil, que vem alertando para os impactos do excesso de oferta global e da crescente penetração de produtos importados no mercado doméstico. Segundo dados da entidade, as importações brasileiras de aço somaram 363 mil toneladas em abril deste ano, volume que representa uma redução de 33,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ainda assim, o setor considera que a concorrência externa continua exercendo pressão significativa sobre os preços internos.

Apesar do endurecimento das regras, a decisão foi recebida com alívio por importadores e distribuidores. Havia receio no mercado de que o governo elevasse as tarifas para até 35%, hipótese que acabou sendo descartada. Dessa forma, a manutenção do percentual em 25% foi interpretada como uma solução intermediária, capaz de atender às demandas da indústria nacional sem impor custos ainda maiores aos compradores de aço importado.

Os efeitos da medida tendem a ser mais expressivos nos segmentos de aços planos, que são tradicionalmente mais expostos à concorrência internacional e ao excesso de capacidade produtiva global. Já nos produtos longos, como vergalhões e perfis estruturais, o impacto deve ser mais limitado, servindo principalmente para sustentar os níveis atuais de preços no mercado interno.

O fortalecimento das barreiras comerciais ocorre em um contexto internacional marcado por crescentes tensões no comércio de aço. O Brasil também enfrenta desafios em suas relações com outros mercados relevantes, como os Estados Unidos, que historicamente ajustam suas próprias tarifas e mecanismos de proteção, influenciando diretamente a competitividade das exportações brasileiras.

Diante desse cenário, a renovação das tarifas reforça a estratégia do governo de preservar a competitividade da indústria siderúrgica nacional, considerada um segmento estratégico para cadeias produtivas como construção civil, infraestrutura, setor automotivo e bens de capital. Ao mesmo tempo, a medida evidencia a busca por um equilíbrio entre a proteção da produção doméstica e a necessidade de garantir o abastecimento de matérias-primas para diversos setores da economia brasileira.
 

 

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 05/06/2026