O segmento de terras raras no Brasil entrou no radar do serviço secreto brasileiro à medida que vem ganhando importância na agenda geopolítica internacional.
O Brasil conta com o segundo maior volume de reservas de terras raras do mundo, tornando-se um potencial candidato a ajudar outros países a reduzir sua dependência da China, atualmente detentora do maior volume de reservas e também da maior produção do segmento.
Os minerais são considerados cruciais para abastecer os setores de defesa, tecnologia, entre outros.
Recentemente, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), equivalente ao serviço secreto de outros países, promoveu o 1º Encontro Interestadual do Sistema Brasileiro de Inteligência com o objetivo de promover a integração entre os órgãos das comunidades de inteligência dos estados de Goiás, Minas Gerais e Bahia na temática das terras raras.
Esses estados atualmente concentram os maiores volumes de reservas de terras raras no país.
"É essencial conhecer as oportunidades oferecidas pela exploração das terras raras no Brasil, considerando o seu papel estratégico na transição energética e como vetor do desenvolvimento tecnológico no país, considerando também os impactos socioambientais junto às populações diretamente afetadas", disse o superintendente da Abin em Goiás, Raimundo Seixas, em um comunicado.
Recentemente, uma negociação envolvendo um projeto no estado de terras raras em Goiás chamou atenção internacional.
Em abril, a USA Rare Earth anunciou um acordo para comprar o controle da mineradora Serra Verde e também garantiu um contrato de offtake de 15 anos, por US$2,8 bilhões (bi). Com a operação, a empresa passará a deter 100% da Serra Verde, proprietária da mina e da planta de processamento de terras raras Pela Ema, em Goiás.
Pouco tempo depois do anúncio do acordo, a autoridade antitruste do Brasil, o Cade, abriu uma investigação para avaliar os detalhes da aquisição. Embora a USAR não tenha presença no Brasil, a autoridade decidiu abrir investigação para avaliar se o contrato de offtake de 15 anos pode ferir regras de competição.
Além disso, o governo brasileiro, sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem reforçado que o país está atento aos aspectos de soberania e, embora esteja aberto a investimentos estrangeiros, busca acompanhar de perto os negócios envolvendo terras raras diante da forte demanda pelos insumos do setor para as áreas de defesa e tecnologia.
Nos últimos dias, o elemento da soberania ganhou relevância após a administração do presidente Donald Trump designar duas facções criminosasno Brasil como organizações terroristas, o que no futuro pode gerar sanções ao país por parte do governo dos Estados Unidos. O governo brasileiro viu na medida uma forma de os Estados Unidos influenciarem assuntos domésticos do Brasil e também buscarem influência no processo eleitoral do país.
Em outubro, o Brasil terá eleições, inclusive para presidente, e Lula é candidato à reeleição. Segundo pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro é o principal opositor de Lula até o momento. Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro apoiou a decisão de Trump de classificar organizações criminosas brasileiras como terroristas, buscando desgastar a imagem do atual governo na área de segurança pública.
Enquanto isso, no segmento de terras raras, questões de inteligência extrapolam as fronteiras do Brasil.
Recentemente, a MP Materials, empresa do segmento de terras raras dos Estados Unidos, entrou com uma ação judicial contra a USAR alegando que a rival roubou segredos tecnológicos, segundo a imprensa local.
Em meio ao envolvimento dos serviços de inteligência, questões geopolíticas e alegações de roubo de tecnologia, o Congresso brasileiro também está atualmente debruçado sobre um projeto de lei para regulamentar os segmentos de minerais críticos, incluindo terras raras.
Como parte do projeto de lei, agora em análise no Senado após aprovação na Câmara dos Deputados, o Congresso avalia uma regulação que, entre outros pontos, criaria uma comissão formada majoritariamente por membros do governo com poder para avaliar e vetar operações no setor.
A regulação também traz mecanismos para ajudar a fomentar o financiamento do setor, mas participantes do mercado apontam preocupações em relação à maior supervisão governamental.
"Há alguns aspectos [no projeto de lei em discussão] que podem gerar preocupações, especialmente em relação aos mecanismos de supervisão que o governo pretende estabelecer sobre os ativos e, possivelmente, sobre os contratos de offtake," disse à BNamericas Rafael Moreno, CEO da empresa australiana Viridis Mining and Minerals.
A Viridis é proprietária do projeto de terras raras Colossus, de US$360 milhões, em Minas Gerais, e recentemente inaugurou um centro de pesquisa e processamento como parte do projeto.
"As autoridades precisam ter cuidado para não levar isso longe demais. Projetos como o nosso ainda precisam de flexibilidade para obter financiamento atrativo e captar recursos via participação acionária e isso inclui liberdade para definir onde a produção será comercializada por meio de contratos de offtake. Se o governo conseguir manter o equilíbrio adequado, acredito que o projeto de lei poderá ser positivo de forma geral," disse Moreno.
Fonte: BN Americas
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 02/06/2026
02-06-2026 Siderurgia & Mineração
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