EUA articulam 'clube' de minerais críticos e colocam terras raras do Brasil no centro
A nova etapa da corrida global por minerais críticos ganhou contornos explícitos de geopolítica nesta semana. O governo de Donald Trump apresentou a aliados e parceiros a proposta de formar um bloco preferencial de comércio e coordenação de investimentos para minerais estratégicos, com o objetivo de enfraquecer a capacidade da China de ditar preços, controlar fluxos e, em última instância, exercer poder político por meio de cadeias de suprimentos.
A reação chinesa foi imediata. Em Pequim, o Ministério das Relações Exteriores criticou o plano americano e afirmou que iniciativas “exclusivas” podem “perturbar a ordem econômica e comercial internacional”, numa sinalização direta de que o tema deixou de ser apenas industrial e passou a integrar o núcleo duro da rivalidade entre as duas potências.
No centro desse tabuleiro está um país que, até pouco tempo, aparecia mais como promessa do que como protagonista: o Brasil. O interesse americano passa por ampliar o número de fornecedores e reduzir o risco de interrupções, sobretudo em insumos usados em defesa, semicondutores, carros elétricos e turbinas eólicas. Em terras raras, a equação é ainda mais sensível. A China domina etapas essenciais de processamento e refino, e o Ocidente busca alternativas capazes de escalar produção e construir capacidade industrial fora da Ásia.
A razão é objetiva. Dados citados em estudos que compilaram informações do US Geological Survey (USGS) indicam que o Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas em reservas, a segunda maior do mundo, atrás apenas da China, que lidera com aproximadamente 44 milhões.
Esse volume coloca o País em posição singular. O Brasil é um dos poucos capazes de oferecer escala mineral para reequilibrar a oferta global, exatamente quando Washington tenta estruturar mecanismos de coordenação, incentivos e até referências de preços para reduzir vulnerabilidades.
Para o economista Fernando Azevedo e Silva, especializado em mineração, o Brasil precisa “assumir protagonismo” na nova geopolítica dos minerais críticos para não ficar restrito ao papel de exportador de baixo valor agregado. A avaliação tem circulado em fóruns do setor no País, à medida que a competição entre EUA e China acelera a busca por rotas alternativas de suprimento.
A irritação chinesa não está apenas no discurso sobre “blocos excludentes”. A leitura em Pequim é que a proposta americana mira diretamente a ferramenta que a China construiu ao longo de décadas: liderança em processamento, refino e tecnologia industrial ligada a terras raras.
Essa dominância já apareceu como alavanca de pressão em episódios recentes, com anúncios de controles e restrições de exportação e maior escrutínio sobre elementos estratégicos e tecnologias de refino. O pano de fundo é claro. Se o Ocidente não tiver alternativas, fica mais suscetível a choques de oferta, disparadas de preço e condicionantes geopolíticos.
Foi nesse contexto que o governo americano levou a um encontro com dezenas de países a ideia de um arranjo preferencial para minerais críticos, com instrumentos como coordenação de investimentos e mecanismos para reduzir a volatilidade provocada por “inundações” de oferta a preços baixos.
Ter reserva não significa ter cadeia. E a discussão mais técnica, por trás do ruído geopolítico, é justamente o “vale” entre a geologia e a indústria: licenciamento, infraestrutura, capital, tecnologia, refino e transformação em ímãs permanentes e componentes eletrônicos.
Hoje, o Brasil ainda produz pouco diante do tamanho de suas reservas. Mas alguns projetos começaram a alterar essa fotografia. O principal símbolo é a Mineração Serra Verde, em Goiás, que opera uma jazida de argilas iônicas e entrou em produção comercial em 2024, mirando justamente uma combinação valiosa de terras raras leves e pesadas, como neodímio, praseodímio, térbio e disprósio.
O CEO da Serra Verde, Thras Moraitis, descreve uma mudança que diz muito sobre a pressão geopolítica: a companhia encurtou contratos de offtake com processadores chineses e passou a ser abordada por compradores e atores industriais do Ocidente, com interesse crescente de EUA, Europa, Japão e Canadá.
O movimento tem respaldo financeiro e político. A U.S. International Development Finance Corporation (DFC) aprovou um financiamento de US$ 465 milhões para apoiar a expansão do projeto, numa sinalização de que Washington quer ancorar, com capital, um polo fora do circuito chinês.
Brasil no “miolo” da estratégia americana
Para os EUA, a lógica é dupla. Primeiro, diversificar a origem do minério. Segundo, criar condições para que existam rotas de separação e refino fora da China, reduzindo o que analistas descrevem como gargalo estrutural do Ocidente em terras raras.
É por isso que o Brasil aparece como peça de encaixe rara. O País tem escala de reserva, já tem um projeto em produção e está geograficamente inserido numa zona de influência e logística mais “amigável” para Washington do que rotas dependentes de Ásia e Eurásia. A conta fica ainda mais atraente quando se observa que as cadeias de minerais críticos, por definição, passaram a ser tratadas como infraestrutura de segurança nacional, não apenas como commodities.
Em discussões sobre minerais críticos promovidas no Brasil, o diretor de Exploração, Recursos e Reservas Minerais da Vale, Edson Ribeiro, defendeu que o País precisa mapear cadeias globais e identificar onde está o valor agregado, evitando repetir o modelo histórico de exportar recurso e importar tecnologia.
A entrada do Brasil no radar americano abre oportunidades e riscos. No lado da oportunidade, pode atrair capital paciente para pesquisa mineral, industrialização e plantas de separação/refino, além de acordos de compra de longo prazo que reduzam incerteza de preço e viabilizem projetos intensivos em CAPEX. O próprio debate internacional sobre “piso de preço” e mecanismos de estabilidade vai nessa direção.
Já no lado do risco, virar apenas fornecedor de concentrado, repetindo a assimetria de valor agregado. Nesse cenário, o país exporta matéria-prima e vê o elo industrial (óxidos separados, ligas metálicas e superímãs) se consolidar em outros mercados, com pouco efeito multiplicador doméstico.
A Agência Nacional de Mineração (ANM) tem indicado, em comunicações técnicas, que as argilas iônicas se tornaram uma fronteira relevante no Brasil e detalhou iniciativas e plantas piloto para elevar teor e qualidade de concentrados, o que pode reduzir barreiras tecnológicas na etapa inicial da cadeia.
Ao propor um bloco de minerais críticos e receber reação pública de Pequim, Washington enviou um recado: a competição por terras raras e insumos estratégicos será tratada como arquitetura de poder. Para o Brasil, isso significa estar, de uma vez, no centro de uma disputa que mistura indústria, diplomacia e segurança.
O país pode usar o interesse externo como alavanca para construir uma estratégia nacional que combine mineração sustentável, adensamento tecnológico e atração de investimentos. Ou pode repetir o roteiro de sempre, apenas com um novo comprador e uma rivalidade maior no entorno.
O fato é que a iniciativa americana desagradou a China e elevou o Brasil de “promessa geológica” a ativo geopolítico. E, em 2026, ativos geopolíticos raramente ficam fora do radar das grandes potências por muito tempo.
Fonte: Brazil Economy
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 06/02/2026