Medidas de estímulo chinesas devem ter impacto moderado sobre siderúrgicas brasileiras
Medidas de estímulo chinesas devem ter impacto moderado sobre siderúrgicas brasileiras
As medidas de estímulo à economia anunciadas na semana passada pelo Banco do Povo da China (banco central chinês, PBoC, na sigla em inglês) se refletiram nas ações das siderúrgicas brasileiras imediatamente, mas os efeitos sobre o setor no Brasil deverão ser limitados. As expectativas nesse sentido podem mudar caso o governo do país asiático lance mão de novas ferramentas para fomentar o crescimento econômico.
O PBoC decidiu reduzir a taxa de compulsório — percentual dos recursos que os bancos devem manter como reserva —, o que deve liberar mais de US$ 140 bilhões em novos empréstimos. Além disso, indicou que essa taxa podem cair ainda mais no futuro, reduziu o equivalente à taxa básica de juros, derrubou os custos das hipotecas e adotou medidas de apoio ao mercado de capitais.
As expectativas de possível reaquecimento do mercado imobiliário chinês tiveram impacto imediato nas ações das siderúrgicas brasileiras. O desaquecimento do mercado imobiliário chinês nos últimos anos levou a uma “invasão” do aço produzido nas siderúrgicas do país asiático em todo o mundo.
Sediadas em um país com economia centralizada e forte poder estatal, a siderúrgicas chinesas operam com margens baixíssimas — por vezes com perdas — e colocam sua produção em outros países com preços mais baratos que os do aço local.
Com a possibilidade de que o mercado imobiliário chinês voltasse a aquecer, a resposta imediata foi a alta das ações das siderúrgicas brasileiras. Afinal, com mercado interno mais demandante, haveria menos aço chinês para concorrer em outros países.
No dia 24, quando houve o anúncio, as ações da CSN subiram 9,39%, enquanto as da Usiminas avançaram 7,68% e as da Gerdau, 4,17%. Desde então, o que se viu foi a continuidade de um processo de alta nos papéis. Entre o fechamento do dia 24, quando as ações das três empresas já tinham registrado avanços relevantes, e ontem, CSN subiu mais 7,67%; Usiminas avançou 3,48%; e Gerdau, 3,51%.
A mudança de rumo é clara quando se compara esse curto período de tempo de uma semana com a trajetória acumulada ao longo do ano. Quando comparados os valores de fechamento do último pregão de 2023 com o encerramento de ontem, a CSN acumula perda de 30,01%; a Usiminas, de 30,51%; e a Gerdau, de 0,88%.
Mas a visão de economistas e analistas sobre o pacote chinês e a influência em prazos mais longos sobre as siderúrgicas é de que esse efeito será limitado. A expansão dessa influência positiva depende do aprofundamento das medidas de estímulo chinesas. Apesar da flexibilização fiscal para estimular o consumo, a conclusão geral é de que o PBoC precisará ir além para realmente aquecer a economia local.
Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, acredita que poderemos ver novas medidas de flexibilização fiscal por parte da China. Mas ele pondera que, com o que há de anunciado até o momento, ainda haverá excesso de aço chinês no mundo.
“Ainda tem uma oferta de aço que chega de forma muito competitiva em todo o globo e no Brasil isso não é diferente”, afirma, lembrando os números de importação de aço no país.
Segundo o Instituto Aço Brasil, a importação de produtos siderúrgicos no país em agosto somou 646 mil toneladas, 30,3% a mais que em igual mês do ano passado. No acumulado nos primeiros oito meses de 2024 foram 3,973 milhões de toneladas, 24,8% a mais que entre janeiro e agosto de 2023.
O nível de importação continua relevante mesmo depois que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) aumentou, a partir de 1º de junho, a tarifa externa de 11 Nomenclaturas Comuns do Mercosul (NCMs). A cota estabelece um teto de 1,6 milhão de toneladas nesses produtos, que pagariam a tarifa média de 10,8% para entrar no Brasil. Acima desse volume, a tarifa sobe para 25%.
“Meu ponto é que possivelmente continuaremos a ver capacidade ociosa por parte das siderúrgicas chinesas, veremos uma taxa de utilização dos altos-fornos forte, vamos continuar a ver a China tanto consumindo quanto exportando aço”, diz Arbetman.
Além disso, ele ressalta que as medidas chinesas também tiveram impactos no minério de ferro. Caso o preço da “commodity” suba de forma mais relevante, pressionará os custos das siderúrgicas brasileiras. “O assunto custo, que já foi muito sério no balanço das companhias no segundo trimestre, pode continuar sendo um problema ao longo do segundo semestre também [caso o minério de ferro suba]”, pondera o analista.
Fonte: Valor
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 04/10/2024