Importação de aço divide indústria brasileira e amplia debate sobre proteção comercial
Importação de aço divide indústria brasileira e amplia debate sobre proteção comercial
A política de defesa comercial adotada pelo governo brasileiro para conter o avanço das importações de aço voltou a acirrar o embate entre siderúrgicas e setores consumidores do produto. Enquanto fabricantes nacionais defendem medidas mais rígidas contra a entrada de aço estrangeiro, principalmente da China, entidades da indústria de transformação afirmam que o aumento de tarifas e ações antidumping pode elevar custos, reduzir competitividade e afetar toda a cadeia produtiva brasileira.
O debate ganhou força em 2026 após o governo federal ampliar para 25% a tarifa de importação sobre diversos produtos siderúrgicos, além de aprovar novas medidas antidumping voltadas principalmente ao aço chinês e de outros países asiáticos.
A estratégia busca frear o crescimento das importações, que atingiram níveis considerados recordes pelo setor siderúrgico nacional. Dados da indústria apontam que as compras externas de laminados chegaram a 5,7 milhões de toneladas em 2025, volume 20,5% superior ao registrado em 2024 e cerca de 160% acima da média histórica brasileira.
Setor de máquinas critica barreiras comerciais
Apesar do apoio das siderúrgicas às medidas protecionistas, parte da indústria brasileira reage de forma contrária às novas barreiras tarifárias.
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) se posicionou publicamente contra o aumento de tarifas e ações antidumping, argumentando que a política beneficia um segmento específico enquanto encarece a produção nacional como um todo.
Segundo a diretora de comércio exterior da entidade, Patrícia Gomes, as restrições ao aço importado dificultam o acesso a fornecedores alternativos e reduzem a competitividade da indústria brasileira.
A entidade afirma que o problema da concorrência desleal precisa ser enfrentado, mas alerta que o excesso de proteção pode gerar impactos negativos em setores dependentes do aço como:
máquinas e equipamentos;
indústria automotiva;
linha branca;
construção civil;
embalagens metálicas.
A Associação Brasileira de Embalagem de Aço (Abeaço) também demonstrou preocupação com as investigações antidumping envolvendo folhas de flandres importadas da Alemanha, Japão e Holanda. O setor alerta para riscos de aumento de custos e impactos socioeconômicos caso novas tarifas sejam aplicadas.
Siderúrgicas falam em “invasão” do aço importado
Do outro lado do debate, grandes siderúrgicas brasileiras defendem que o mercado nacional vive um cenário de concorrência desequilibrada provocado pelo excesso de aço estrangeiro no mundo, especialmente vindo da Ásia.
A ArcelorMittal Brasil atribuiu parte significativa de suas dificuldades financeiras recentes ao crescimento das importações. A companhia encerrou 2025 com prejuízo de R$ 2,2 bilhões e receita líquida de R$ 61,76 bilhões, em queda de 7,2% frente ao ano anterior.
Segundo o presidente da empresa no Brasil, Jorge Oliveira, a expectativa de recuperação em 2026 depende diretamente da redução das compras externas de aço.
A empresa cita especialmente o avanço do aço chinês no mercado brasileiro, frequentemente tratado pelo setor como uma “invasão” de produtos importados a preços considerados artificialmente baixos.
Mesmo diante desse cenário, a ArcelorMittal manteve em andamento o projeto do Laminador de Tiras a Frio (LTF) na unidade de Tubarão, no Espírito Santo. O investimento, estimado em R$ 4 bilhões, prevê a produção de aço galvanizado e laminado a frio voltado principalmente para os setores automotivo, de eletrodomésticos e construção civil.
Segundo a companhia, a continuidade dos investimentos dependerá da efetividade das medidas de defesa comercial adotadas pelo governo federal.
Usiminas alerta para nova onda de importações
A Usiminas também demonstrou preocupação com o comportamento das importações em 2026. Apesar das medidas antidumping aplicadas contra produtos chineses, a empresa afirma que houve redirecionamento dos fluxos comerciais para outros países asiáticos e do Oriente Médio.
Segundo executivos da companhia, países como:
Coreia do Sul;
Vietnã;
Egito;
Turquia;
passaram a ampliar embarques de aço para o Brasil, compensando parcialmente as restrições impostas ao material chinês.
A empresa avalia que ainda existe risco de excesso estrutural de oferta no mercado brasileiro, o que continua pressionando preços e margens da indústria nacional.
Dados da Aço Brasil indicam que as importações de aço plano atingiram 1,75 milhão de toneladas no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 4,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Em projeção anualizada, o volume pode chegar a 6,26 milhões de toneladas — praticamente três vezes acima da média histórica registrada entre 2000 e 2019.
Governo tenta equilibrar proteção e competitividade
As medidas adotadas pelo governo federal fazem parte de uma estratégia de defesa comercial voltada ao combate ao dumping — prática em que produtos são exportados a preços artificialmente baixos, muitas vezes inferiores aos custos de produção.
A preocupação aumentou após o agravamento do excesso de capacidade produtiva na China, maior fabricante mundial de aço. Com desaceleração da economia chinesa e queda no consumo interno, grandes volumes passaram a ser direcionados ao mercado internacional.
No Brasil, o governo elevou a tarifa de importação para dezenas de produtos siderúrgicos, especialmente aços planos e longos. A medida foi aprovada pela Câmara de Comércio Exterior (Gecex) e busca proteger a indústria local diante da forte concorrência internacional.
Ao mesmo tempo, autoridades tentam evitar impactos excessivos sobre setores industriais que dependem da matéria-prima importada.
Analistas avaliam que o desafio do governo será encontrar equilíbrio entre:
preservação da produção siderúrgica nacional;
manutenção da competitividade da indústria de transformação;
controle da inflação industrial;
segurança no abastecimento de insumos.
Custos logísticos e tensões globais ampliam pressão
Além da disputa comercial, o setor também enfrenta aumento de custos internacionais provocado pelas tensões geopolíticas globais.
Empresas do setor relatam elevação nos preços de frete marítimo, carvão, placas de aço e energia, especialmente após agravamento dos conflitos no Oriente Médio e mudanças nas rotas globais de navegação.
Segundo agentes do mercado, os custos de frete marítimo da Ásia para a América do Sul subiram de cerca de US$ 60-70 por tonelada para patamares entre US$ 80 e US$ 100 por tonelada nas últimas semanas.
O aumento pressiona tanto produtos importados quanto os custos da indústria doméstica.
Além disso, gargalos logísticos em portos brasileiros, dificuldades de classificação fiscal e atrasos operacionais continuam afetando o comércio exterior do setor siderúrgico.
Mercado aponta desaceleração nas importações
Apesar das preocupações persistentes, os primeiros números de 2026 mostram sinais de desaceleração das importações após o endurecimento tarifário.
No primeiro bimestre do ano, o Brasil importou 131,8 mil toneladas de aço, queda de 10,8% em volume e 13,8% em valor na comparação com o mesmo período de 2025.
Especialistas avaliam que a tendência para os próximos meses é de estabilização das compras externas, com maior concentração em aços especiais e ligas metálicas de alta complexidade — segmentos em que a produção nacional ainda possui limitações de escala ou tecnologia.
Ao mesmo tempo, o mercado seguirá monitorando os efeitos das medidas de defesa comercial e a evolução das tensões internacionais, fatores que devem continuar influenciando preços, competitividade e investimentos na indústria siderúrgica brasileira ao longo de 2026.
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 05/05/2026