Exportadores comemoram retirada de tarifas dos EUA: ‘Presente de Natal’
Exportadores comemoram retirada de tarifas dos EUA: ‘Presente de Natal’
Representantes dos segmentos beneficiados com a retirada de tarifas dos Estados Unidos, anunciada no início da noite desta quinta-feira (20/11), comemoraram a decisão do governo Trump. A Casa Branca informou a isenção da tarifa adicional de 40% a alguns produtos agrícolas do Brasil, incluindo o café, a carne bovina e frutas.
“Ganhamos um presente de Natal”, comemorou Marcos Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), à Globo Rural. “Agora é hora de celebrar. Tudo o que a gente mais queria era a isonomia, e conseguimos a isonomia”, declarou.
Ele informou que a isenção da tarifa de 40% retroage para 13 de novembro, quando Donald Trump excluiu as tarifas de 10% aplicadas a todos os países.
Matos disse que agora o Cecafé vai trabalhar para reduzir os impactos que o setor sofreu desde 6 de agosto, quando o tarifaço sobre o Brasil foi anunciado, e que segundo ele foram “muito significativos” para os cafeicultores.
“Agora, com nossa organização, eficiência, competência e sustentabilidade, [vamos] reconquistar nossos espaços nos blends, agora com isonomia”, afirmou.
Outra entidade do setor de café, a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), atribuiu o fim das tarifas americanas aos esforços do governo brasileiro, que atuaram em conjunto com a cadeia produtiva.
De acordo com Pavel Cardoso, Presidente da ABIC, após o fim do tarifaço "fica evidenciado que o café brasileiro é um produto essencial e estratégico para a economia americana, abrindo, inclusive, espaço para ampliação da presença dos cafés industrializados brasileiros no varejo norte-americano, com ganhos diretos para toda a cadeia produtiva, da indústria ao produtor".
Indústria da carne beneficiada
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) também celebrou a decisão. Segundo a entidade, "a reversão reforça a estabilidade do comércio internacional e mantém condições equilibradas para todos os países envolvidos, inclusive para a carne bovinabrasileira".
"A medida demonstra a efetividade do diálogo técnico e das negociações conduzidas pelo governo brasileiro, que contribuíram para um desfecho construtivo e positivo. A ABIEC seguirá atuando de forma cooperativa para ampliar oportunidades e fortalecer a presença do Brasil nos principais mercados globais", informou a associação, em nota.
A tarifa, que na semana passada havia caído de 50% para 40%, ficou zerada para cortes de bovina.
Frutas: “Vamos voltar a competir com o mundo”
O setor de frutas reagiu com alívio à derrubada das tarifas de 40%.
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Guilherme Coelho, comentou que ainda estão analisando o documento de 36 páginas para identificar quais frutasforam contempladas, mas celebrou: “É um espetáculo, vamos voltar a competir com o mundo. Não dava para competir com 50% de tarifas e o resto do mundo com apenas 10%”.
Coelho ressalta que a região mais beneficiada pela isenção das tarifas é o Vale do São Francisco. “De cada dez contêineres exportados de manga, nove saem de lá”.
Manga, melão, laranja e mamão estão entre as frutas com tarifa zero. A uva não aparece na lista. O presidente da associação, porém, não vê como um problema, já que a negociação é feita por etapas. “A manga foi por etapa, o melão e a melancia também. A gente está comemorando porque foi uma luta grande”.
Usinas do NE: 'Aijadas'
Já as usinas de cana-de-açúcar do Nordeste se sentiram “alijadas”, já que o açúcar não entrou na lista de produtos beneficiados pela isenção do tarifaço de 40% sobre o Brasil.
“Nos sentimos alijados e despremiados, pelo fato de sermos fornecedores exemplares”, lamentou Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar de Pernambuco
O dirigente lembrou que as usinas de açúcar do Nordeste, que são historicamente detentoras da maior cota de importação de açúcar do país sem tarifa, sempre cumpriu com o volume determinado e até cobriu espaço de cota que outros países não conseguiam cumprir. “Sempre salvamos o fornecimento americano. E hoje, outros países que não fazem esse tipo de suprimento, estão tendo um benefício competitivo em detrimento daquele que historicamente sempre favoreceu os EUA.”
Apesar da exclusão do açúcar da lista de isenção, Cunha ainda acredita que os EUA flexibilizarão sua posição a respeito do produto brasileiro.
Ele lembrou que, em breve, o governo americano deverá fazer um balanço de oferta e demanda locais, e pode redefinir o volume que precisará importar para ter um mercado mais equilibrado. Em suas estimativas, os estoques americanos hoje estão em torno de 15% do consumo, nível que deve ser considerado baixo para dar segurança de suprimento.
Para a atual safra americana, que começa em outubro e vai até setembro, os EUA já atribuíram ao Brasil uma cota de 155 mil toneladas de açúcar que podem entrar no país isenta das tarifas aplicadas ao açúcar. Porém, a sobretaxa de 40% acaba sendo aplicada mesmo sobre este valor, o que tira a competitividade do açúcar brasileiro ante o produto oriundo de outras regiões beneficiadas com cotas.
Cunha disse acreditar que os EUA terão que aumentar a cota brasileira diante da baixa oferta interna de açúcar, o que ele espera que ocorra entre o fim do ano e início do ano que vem. “Se eles admitirem que precisam de mais [açúcar], pode ser a hora de também reverem a questão das tarifas”, afirmou.
O presidente do Sindaçúcar-PE disse que o setor vai agora pedir para o Itamaraty que volte sua estratégia para negociar com os EUA sobre os produtos que ainda não foram atendidos pela isenção de tarifas. “Nós não jogamos a toalha porque somos resilientes”, concluiu.
Frustração para os pescados e mel
Além do setor canavieiro, o setor de pescados do Brasil também não foi beneficiado com o fim do tarifaço. Com exportações anuais de US$ 300 milhões aos Estados Unidos, a indústria de pescados fala em "frustração" com as negociações envolvendo as sobretaxas.
“Estamos obviamente satisfeitos pelos setores brasileiros que avançaram, mas é impossível esconder nossa frustração. Não houve evolução alguma para o pescado, e isso mostra que essa pauta não tem recebido a priorização necessária por parte do governo brasileiro. O setor gera empregos, movimenta a economia e tem enorme potencial de expansão, mas continua invisível nas negociações com os Estados Unidos”, afirmou o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), Eduardo Lobo.
O sentimento de frustação também foi relatado pelo setor exportador de mel do Brasil. Em nota, o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), Renato Azevedo, lembrou que os EUA possuem um grande déficit de produção de mel, necessitando de importar o produto para equilibrar a oferta.
Azevedo disse que fica a frustração pelo mel brasileiro ficar de fora da lista de isenções do tarifaço. Por outro lado, ele acrescentou que o resultado prático das negociações com o fim das taxas para alguns produtos dá esperança para resolver em breve a situação do mel.
“Tive uma troca de mensagens com o Luis Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do MAPA [Ministério da Agricultura], que me confessou estar surpreso com a não entrada do mel na lista de produtos que ficaram sem taxação. Ele me garantiu que as negociações continuarão até que consigamos resolver essa situação”, ressaltou o presidente da Abemel.
Confira a lista dos itens beneficiados neste link.
Fonte: Globo Rural
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 21/11/2025