Empresas de autopeças apostam no agro

Empresas de autopeças apostam no agro

A Agritechnica, maior feira de máquinas agrícolas do mundo, tem servido de vitrine não apenas para tratores e colheitadeiras, mas também para um setor que começa a enxergar o agro como nova fronteira de negócios: o de autopeças e componentes industriais. Empresas brasileiras do setor, reunidas pelo Sindipeças e Apex-Brasil, foram à Alemanha para medir o potencial de levar sua tecnologia — historicamente voltada à linha automotiva — ao campo.

A Suporte Rei, fabricante de componentes metálicos e de borracha para veículos pesados, é uma das que testam o terreno. “Nosso foco sempre foi caminhões e ônibus, mas, como temos fundição própria, começamos a produzir peças para o setor agrícola”, diz Antonio Carlos Benetão, um dos sócios, que participa pela segunda vez da feira.

“Estamos aqui para ver se tem continuidade. Fazemos feiras pelo mundo inteiro, mas a ideia é testar, porque nosso foco é linha pesada. Aqui conseguimos prospectar clientes e ver o interesse em metal-borracha, que é um segmento mais simples de desenvolver do que coxins de motor.”

Com 65 anos de operação, fábrica em Cajuru (SP) e faturamento anual entre R$ 400 milhões e R$ 450 milhões, a empresa ainda tem no agro uma fatia mínima do negócio, mas enxerga o setor como forma de diversificar a produção.

“Historicamente, o agro representa pouco, mas é um começo. Na parte de fundição, uma peça metálica agrícola pode ser desenvolvida em poucos dias, enquanto um componente automotivo com borracha leva meses. A feira é ótima para testar essas possibilidades e captar clientes que atuam tanto em rodoviário quanto agrícola”, afirma Benetão.

Também tradicional no setor automotivo, a Robiel Indústria, de Indaiatuba (SP), começa a olhar para o agro de forma mais estruturada. A empresa fabrica peças para sistemas de injeção diesel, desde caminhonetes e vans até caminhões e máquinas agrícolas, e exporta para a América do Sul e América do Norte. “Nosso produto já chega ao mercado agrícola por meio de terceiros. Agora queremos entender a dinâmica e ampliar a atuação direta”, afirma Arthur Bonachella, diretor da Robiel.

“A feira mostra que há espaço para fornecedores de componentes. Muitos dos nossos clientes de caminhões também atuam com máquinas agrícolas, então é um mercado que se complementa. Ninguém fecha negócio no primeiro dia, mas já conseguimos conversar com empresas que oferecem soluções que podem agregar ao nosso mix de produtos”, diz o executivo.

Com 40 anos de mercado e faturamento anual próximo de R$ 100 milhões, a Robiel vê a Agritechnica como um ponto de partida para entender concorrentes, conhecer players internacionais e abrir portas para exportação direta, especialmente na Europa, onde a presença ainda é incipiente.

No caso da DS Agro Sensores, de São José do Rio Preto (SP), o movimento é mais avançado. A empresa migrou parte de seu portfólio automotivo para o desenvolvimento de sensores aplicados à agricultura de precisão, como medidores de fluxo de sementes, sensores de pulverização e de bloqueio de adubo. “O agro ainda representa menos de 5% do nosso faturamento, mas é o setor com maior potencial de crescimento”, afirma Luana Schiavetto, representante da empresa.

A DS já fornece sensores originais a oito montadoras brasileiras de máquinas agrícolas e exporta para América Latina e EUA. “É uma visão nossa para diversificar a clientela. Identificamos oportunidades e demandas no setor agrícola. Concorrentes chineses e indianos têm custo muito menor, mas apostamos na qualidade, flexibilidade e no relacionamento com o cliente local”, diz.

A FBB, de Monte Alto (SP), completa o panorama das empresas brasileiras que enxergam no agro uma fronteira de expansão. A companhia fabrica peças para preparo do solo, plantio e cubos de rodas, fornecendo tanto a indústrias quanto ao mercado de reposição. “Somos referência na linha de preparo do solo, com separadores, eixos, portas, travas, arruelas e limpadores. Nos últimos três anos, estamos incorporando a linha de plantio, além da linha de cubos de rodas, que permite acoplar pneus e rodas em qualquer máquina agrícola”, detalha Rogério Matioli, representante da FBB.

A empresa já exporta para mais de 20 países e fornece a multinacionais como John Deere e Toyota. Apesar de enfrentar concorrência global, principalmente de companhias chinesas e indianas que tem custos menores, a FBB aposta em investimento em tecnologia, incluindo robôs e certificações internacionais, para reduzir gastos e melhorar prazos de entrega.

Com faturamento anual de cerca de R$ 100 milhões, a empresa espera crescer 20% a 30% em 2026, impulsionada pelo segmento de reposição, que mantém as máquinas em operação constante.

 
Fonte: Globo Rural
Seção: Agro, Máquinas & Equipamentos
Publicação: 12/11/2025