Depois de Balneário Camboriú, corrida por prédios mais altos chega a São Paulo
Depois de Balneário Camboriú, corrida por prédios mais altos chega a São Paulo
O prédio mais alto de São Paulo, o Platina 220, no Tatuapé (zona leste da capital), tem 172 metros de altura e 46 andares. Entregue em 2022, ele ocupou a liderança que foi por décadas do Mirante do Vale, no centro, com seus 170 metros. Em breve, o Platina deve cair para a quinta posição na cidade.
Há um movimento de novos espigões, ao menos para o padrão paulistano, que estão em construção ou em fase de lançamento, na linha do que tem sido feito em outras cidades brasileiras, como Balneário Camboriú e Goiânia. Em 2026, a WTorre vai entregar o próximo edifício mais alto da cidade, o Alto das Nações, empreendimento corporativo em Santo Amaro (zona sul) com 219 metros de altura, 45 andares e mirante. As incorporadoras Cyrela, One e Benx têm projetos residenciais que ocuparão o intervalo entre o Platina e o Alto das Nações.
Para seus realizadores, são “marcos” para a cidade e permitem construir mais em áreas menores. Já entre os urbanistas, enfrentam críticas sobre a formação de sombra, de corredores de vento e pela velocidade do aumento da altura.
Os novos projetos previstos em São Paulo são altos, mas ficam pequenos perto dos arranha-céus de Balneário Camboriú, que beiram os 300 metros. Agora, a incorporadora FG quer atingir 500 metros de altura com o edifício Senna, lançado em 2024, uma parceria com a família do piloto e Luciano Hang, das lojas Havan. A fundação do prédio de mais de 150 andares começou a ser preparada nesta semana, conta Stephane Domeneghini, diretora executiva da FG Talls, área do grupo FG especializada em arranha-céus.
A incorporadora decidiu criar a FG Talls para prestar consultoria aos seus próprios edifícios e para oferecer essa expertise a outras empresas. Já está trabalhando com uma incorporadora de grande porte de São Paulo e empresas de Florianópolis e do Rio.
Para Domeneghini, há um movimento “irrefreável” de busca por prédios mais altos, mas os engenheiros brasileiros, que têm alta qualidade técnica, ainda não dominam o segmento. A fundação precisa ser reforçada, os elevadores mais rápidos e revestimentos da fachada têm que suportar o clima mais hostil.
Por falta de conhecimento e por medo, engenheiros e projetistas exageram nos cálculos de estrutura e de materiais, o que torna as obras mais caras do que já são - a parte estrutural de prédio “super alto” equivale a 35% do custo da obra, enquanto em um edifício comum, de menos de 100 metros, não passa de 20%, diz a diretora.
Para a WTorre, os 219 metros do Alto das Nações são um desafio de engenharia, conta Gabriella Lorca, gerente de desenvolvimento imobiliário da companhia. Mais ainda porque o projeto teve que ser revisado depois da pandemia, por causa do aumento do preço do aço, mas mantendo a velocidade da obra.
Mesmo assim, a visibilidade que o empreendimento e a própria companhia ganham compensa as dificuldades. “O projeto vira um marco, a cidade ganha um novo ponto turístico”, afirma. Todas as lajes corporativas do prédio já foram vendidas.
A Benx, que lançou no ano passado o PG Residence, prédio com 173 metros de altura, relaciona a viabilidade dos prédios altos na cidade a mudanças no Plano Diretor e na Lei de Zoneamento. “Estamos vendo uma verdadeira ‘corrida’, no bom sentido, para ver quem constrói o prédio mais alto”, afirma Luciano Amaral, gerente-geral da incorporadora, o que seria reflexo do desejo do consumidor por morar em andares mais elevados.
“Eles querem a vista, por isso as torres vão ficando cada vez mais altas”, afirma Paulo Petrin, vice-presidente da incorporadora One Innovation, que planeja lançar no segundo semestre o novo residencial mais alto de São Paulo, com 209 metros, em Pinheiros, com vista para os Jardins.
Valter Caldana, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pondera que é “seríssima” a mudança no padrão de sombra e no fluxo de ar causado pelos prédios altos, que alteram o microclima no entorno dos edifícios.
Para ele, se a evolução da altura acontecesse de forma paulatina, teriam sido criados dispositivos para mitigar esses efeitos. No entanto, o que ocorre em São Paulo seria uma ruptura, com rápido aumento do número médio de pavimentos dos prédios. “Não discuto se será melhor ou pior, mas será outra cidade”, diz. Caldana também faz a ressalva, contra o senso comum, de que São Paulo não é uma cidade muito verticalizada.
Domeneghini não nega que os prédios altos causem mais sombra e vento no entorno, mas não vê isso como problema. “A sombra e o vento, para o Brasil, é algo até positivo”, diz. Para ela, cânones do pensamento de urbanismo e arquitetura, que prezam pela incidência de sol, precisam ser adaptados ao clima tropical.
Sua visão é de que os arranha-céus de Balneário Camboriú são aprovados pela população e geram recursos para melhorias da cidade, por meio do pagamento de outorga onerosa, permissão para construir acima do limite das cidades. O custo extra contribui para direcionar os prédios para o alto padrão.
Por vezes, a altura é um subproduto do luxo. Em Goiânia, capital que tem hoje o quinto maior prédio do Brasil, com 191 metros de altura, a incorporadora City Soluções Urbanas lançou um conjunto de três torres que será o maior residencial da cidade, com 196 metros cada.
Victor Tomé, diretor de projetos da empresa, explica que os clientes demandavam prédios com apenas um apartamento por andar e, para conseguir aproveitar o potencial construtivo do terreno, a saída foi fazer edifícios mais altos. As torres do City Park terão 48 andares cada e ficam em frente ao parque Vaca Brava, um dos principais de Goiânia. “Não adianta querer fazer [projetos altos] em lugar onde não vou ter essa valorização”, afirma.
O empreendimento terá elevadores que vencem os 48 andares em 40 segundos, com portas mais largas, para evitar o içamento de móveis. Também haverá geradores para os apartamentos e, claro, para os ascensores.
O professor Caldana ressalta que é comum confundir prédios mais altos com adensamento urbano, embora as duas coisas não andem juntas, vide a vocação dos novos arranha-céus para o padrão de luxo, pouco denso. “Há toda uma simbologia, de marketing, que vem de cidades como Miami e Dubai”, diz.
É a propaganda também que faz com que o imaginário popular associe a presença de espigões ao grau de desenvolvimento das cidades, pontua Caldana, apesar de não ser uma evolução obrigatória - não ocorreu em capitais europeias como Paris e Barcelona, por exemplo.
Fonte: Valor
Seção: Construção, Obras & Infraestrutura
Publicação: 15/01/2025