CSN nega venda total da siderurgia, mas revisão de ativos reacende debate sobre riscos financeiros e regionais

CSN nega venda total da siderurgia, mas revisão de ativos reacende debate sobre riscos financeiros e regionais

A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) voltou ao centro do debate econômico e industrial após a divulgação de informações sobre um possível desinvestimento em seu negócio de siderurgia. Em meio a questionamentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), à repercussão de reportagens da imprensa econômica e a manifestações de autoridades locais, a companhia afirmou que não há decisão tomada sobre a venda da siderurgia e que qualquer análise em curso ainda se encontra em estágio inicial.

Em comunicado divulgado ao mercado na última terça-feira (27), a CSN classificou como especulação as informações que apontam para uma eventual alienação total do seu braço siderúrgico. O esclarecimento foi feito após a CVM solicitar explicações à companhia, motivada por reportagem do jornal Valor Econômico que mencionava a possibilidade de venda de até 100% da operação de aço do grupo.

Segundo a empresa, as notícias repercutem informações já tornadas públicas em fato relevante divulgado em 15 de janeiro, quando o conselho de administração autorizou o início de um projeto estruturado de desinvestimento. O objetivo, de acordo com a CSN, é reorganizar a estrutura de capital e reduzir o elevado nível de endividamento do grupo, por meio da avaliação de alternativas estratégicas em diferentes segmentos de atuação.

No documento enviado à CVM, a companhia ressaltou que não há negociações avançadas, definição de percentuais, nem contratação de assessores financeiros para a venda da siderurgia. “O estágio atual envolve a avaliação de alternativas e parcerias com foco na maximização da geração de caixa no curto prazo, sem que haja, até o momento, qualquer conclusão que enseje uma comunicação formal”, afirmou a empresa.

A discussão ganhou ainda mais repercussão após declarações do controlador da CSN, Benjamin Steinbruch, em entrevista ao Brazil Journal. O empresário negou de forma categórica a intenção de vender integralmente o setor siderúrgico, incluindo a Usina Presidente Vargas (UPV), em Volta Redonda. Segundo ele, o debate está inserido em um contexto mais amplo de dificuldades estruturais enfrentadas pela siderurgia brasileira.

Steinbruch destacou que grande parte das plantas siderúrgicas do país foi construída entre as décadas de 1950 e 1970 e hoje enfrenta desafios significativos para se manter competitiva e adequada às exigências ambientais atuais. “Essas plantas precisam de uma renovação brutal de tecnologia e equipamentos. São duas reformas profundas: uma de competitividade e outra ambiental, que exigem investimentos enormes”, afirmou.

De acordo com o empresário, a necessidade de modernização ocorre em um ambiente adverso, marcado por juros elevados, escassez de financiamento de longo prazo e forte concorrência do aço importado, especialmente da China. Ele criticou a abertura comercial brasileira e a falta de reciprocidade no comércio internacional, argumentando que o cenário empurra a indústria nacional para a obsolescência tecnológica.

Paralelamente ao debate industrial, a CSN enfrenta pressão crescente para reduzir sua alavancagem financeira. A companhia anunciou a intenção de levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões em 2026 com a venda de ativos, como parte de uma estratégia de desalavancagem. A meta é reduzir a relação entre dívida líquida e Ebitda para cerca de 1x ao longo de até oito anos e, ao mesmo tempo, dobrar a geração operacional de caixa.

A dívida bruta da CSN alcançou R$ 52,1 bilhões em setembro de 2025, cenário que levou a agência S&P Global Ratings a rebaixar a classificação de crédito da companhia de BB- para B+. A agência avalia a possibilidade de novo rebaixamento nos próximos 12 meses, caso a empresa não consiga avançar de forma consistente nas vendas de ativos e na redução da alavancagem, hoje projetada acima de 5x.

Fontes de mercado ouvidas pela imprensa indicam que a CSN tem mantido conversas informais com grandes players nacionais e grupos estrangeiros, incluindo empresas asiáticas, para sondar o interesse em uma eventual participação no negócio de siderurgia. A companhia, no entanto, sustenta que essas conversas não configuram negociações formais nem geram, neste momento, a obrigação de divulgação de um novo fato relevante.

Enquanto o mercado financeiro acompanha de perto os desdobramentos — as ações da CSN acumulam valorização expressiva no mês —, o debate também ganha contornos sociais e regionais. Em Volta Redonda, cidade historicamente ligada à siderurgia, a possibilidade de venda de ativos despertou preocupação entre trabalhadores, empresários e autoridades locais.

O vereador Rodrigo Furtado (PL) protocolou ofício solicitando esclarecimentos formais da companhia sobre os rumores envolvendo a UPV e outros ativos. Segundo o parlamentar, a iniciativa tem caráter institucional e visa garantir transparência diante dos potenciais impactos econômicos e sociais para o município.

Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que a siderurgia representa mais do que um ativo no portfólio da CSN. Trata-se de um eixo estruturante da economia regional, com impacto direto sobre emprego, arrecadação, cadeia produtiva e organização urbana. A eventual redução ou alienação da operação pode gerar efeitos relevantes sobre a atividade econômica local e sobre a própria lógica operacional do grupo.

Apesar de negócios como mineração, infraestrutura, energia e logística oferecerem receitas mais previsíveis, analistas ressaltam que a siderurgia ainda desempenha papel central na integração industrial da CSN, diluindo custos fixos e sustentando investimentos em ferrovias, portos e contratos de energia.

Diante desse cenário, a CSN reafirma que qualquer decisão será comunicada ao mercado no momento adequado e que o foco atual está na avaliação criteriosa de alternativas que permitam reduzir a dívida sem comprometer a sustentabilidade de longo prazo do grupo. Até lá, o tema segue no radar de investidores, trabalhadores e da região que, há décadas, construiu sua identidade em torno do aço.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 29/01/2026