Brasil tenta blindar sua siderurgia enquanto aço chinês pressiona preços e desafia políticas de defesa comercial

Brasil tenta blindar sua siderurgia enquanto aço chinês pressiona preços e desafia políticas de defesa comercial

O mercado siderúrgico brasileiro entrou em um novo capítulo de tensão neste fim de ano. De um lado, usinas tentam recompor margens após meses de preços em queda; de outro, a enxurrada de aço chinês segue pressionando o mercado interno, enfraquecendo políticas recentes de controle e alimentando um consenso entre distribuidores: sem medidas antidumping mais robustas, a indústria nacional não recupera fôlego.

Aços planos mostram reação no mercado interno

Os preços domésticos de aços planos subiram de forma consistente até 14 de novembro, acompanhando o movimento de distribuidores que passaram a evitar compras externas diante das expectativas de novas ações antidumping na América Latina.

O laminado a quente subiu para 3.935–4.175 Reais por tonelada (ex-works), alta de 9,59% no mês, revertendo cinco meses consecutivos de queda. Distribuidores afirmam que o aumento aplicado pelas usinas “pegou”, embora em magnitude menor que a desejada.

A CSN indicou que aguarda novas medidas antidumping entre novembro e fevereiro, o que também impulsionou preços de produtos revestidos. O galvanizado avançou 10,76%, para 5.120–5.435 Reais por tonelada, e deve ser um dos primeiros alvos de novas barreiras comerciais.

O laminado a frio, porém, subiu apenas 0,33%, limitado pelo volume ainda elevado de importações na região. No mercado externo, o CRC importado avançou para US$ 560–630 por tonelada CFR, alta semanal de 5,31%.

Vergalhão segue pressionado por demanda fraca

Enquanto os aços planos ganham tração, o mercado de vergalhão permanece travado. Os preços recuaram 0,44% para 3.200–3.600 Reais por tonelada entregue, num cenário de estoques elevados e fraca atividade no segmento da construção.

“A demanda despencou. As usinas tentam aumentar preços, mas o teto não reage”, afirma um distribuidor. Segundo ele, as margens encolheram ao longo de 2024, e o fim do ano não deve trazer alívio.

INDA: “Só o antidumping pode deter a China”

No campo político-comercial, o recado do setor é direto. “A única forma de conter o aço chinês é o antidumping. Sem isso, nada acontece”, afirmou Carlos Loureiro, presidente do INDA, em 18 de novembro.

Para ele, medidas genéricas já adotadas pelo governo — como o aumento tarifário sobre veículos elétricos e híbridos — não reduziram a pressão competitiva da China. Em alguns segmentos, como o automotivo, já se discute formalmente a abertura de investigações por preços considerados predatórios.

A lentidão nos processos de defesa comercial também preocupa. O Brasil tem mais de uma dezena de investigações envolvendo aço chinês, mas cada uma pode levar até 18 meses.

Importações seguem elevadas — e filas se formam nos portos

Mesmo com redução anual, o Brasil importou 251,1 mil toneladas de aços planos em outubro, 4% acima de setembro — volume ainda considerado elevado pelo setor. O temor de sobretaxas acelerou a corrida para liberar cargas nos portos. Mais de 500 mil toneladas aguardam desembaraço, segundo o INDA.

Um navio com 45 mil toneladas, atracado em 24 de outubro, chegou a ficar mais de um mês sem descarga por falta de espaço.

Dados do Instituto Aço Brasil reforçam a pressão sobre o setor

As estatísticas mais recentes da Aço Brasil ajudam a compor o quadro de fragilidade industrial:

Importações totais de produtos siderúrgicos caíram 21,4% em outubro, para 473 mil toneladas.
Ainda assim, no acumulado do ano, houve alta de 6,1%, somando 5,549 milhões de toneladas.
Exportações subiram 28,1% em outubro, para 907 mil toneladas, e cresceram 4,6% no ano.
Produção de aço caiu 2,7% em outubro, para 2,988 milhões de toneladas, e recuou 1,8% de janeiro a outubro.
Vendas internas caíram 6,5% em outubro, para 1,814 milhão de toneladas.
O consumo aparente recuou 6,3% no mês, mas ainda mostra alta de 2,9% no acumulado do ano, para 22,709 milhões de toneladas.
Na visão de analistas, o recuo mensal de importações não altera o pano de fundo: o volume importado permanece elevado e continua pressionando preços internos, especialmente nos segmentos mais sensíveis à concorrência chinesa.

Desempenho da distribuição mostra desaceleração

As compras dos distribuidores associados ao INDA caíram 4,6% em outubro, para 343,5 mil toneladas. As vendas diminuíram 2,1% em relação a setembro, embora tenham registrado leve alta anual de 1,3%.

A maior fraqueza ocorreu no segmento de chapa grossa, com quedas profundas tanto em compras quanto em vendas. O galvanizado, por sua vez, foi o destaque positivo, com vendas anuais crescendo 26,9%.

2025 será decisivo para a sobrevivência da siderurgia brasileira

Com usinas pressionando por recomposição de margens, distribuidores defendendo barreiras emergenciais e a China mantendo ritmo agressivo de exportação, o Brasil entra em 2025 diante de um desafio central: equilibrar competitividade, proteção industrial e previsibilidade regulatória.

A depender do ritmo das decisões antidumping — e da disposição política para implementá-las — o país pode redesenhar o tabuleiro competitivo da siderurgia nacional nos próximos meses.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 24/11/2025