Brasil entra em 2026 com tarifas mais altas do México e isso pode ser só o começo

Brasil entra em 2026 com tarifas mais altas do México e isso pode ser só o começo

Depois das medidas de isenção do tarifaço americano para parte dos embarques, o Brasil inicia 2026 enfrentando novos aumentos de tarifas para suas exportações. Desta vez a tributação maior é do México, que veio a toque de caixa. Proposta pelo governo mexicano em setembro de 2025 e aprovada no início de dezembro no Congresso, a medida entra em vigor a partir de amanhã, 1º de janeiro de 2026, com tarifas de até 35% para importações de vários países com os quais o México não tem acordos de livre comércio, o Brasil entre eles.

A alta de tarifas, que segundo cálculos preliminares da Confederação Nacional da Indústria (CNI) pode ter impacto em US$ 1,7 bilhão em exportações brasileiras, é vista como um reflexo do tarifaço imposto ao Brasil no decorrer de 2025 pelo presidente dos EUA, Donald Trump. O México foi o sétimo maior destino de embarques brasileiros em 2024 e este ano, até novembro, foi o sexto, com total de US$ 7,1 bilhões em embarques. Mas mais do que afetar o comércio com um mercado importante ao Brasil, as tarifas mexicanas são vistas como precedente que pode abrir a porteira para novas medidas de mesma natureza numa guerra tarifária com impacto global não somente para o comércio e custos, mas para as relações externas como um todo.

O governo mexicano declarou que as tarifas buscam fortalecer a produção doméstica e têm o objetivo de proteger cerca de 350 mil empregos em setores sensíveis como calçados, têxteis, vestuário, aço e automotivo.

Segundo estudo da CNI, o país mais afetado pelas medidas deve ser a China, seguida de outros países asiáticos, como Coreia do Sul, Índia e Tailândia. O Brasil deve ser o quinto país mais afetado. O levantamento diz que as tarifas mexicanas devem alcançar 232 produtos da indústria brasileira, num total de US$ 1,7 bilhão, que representaram 14,7% dos embarques brasileiros ao México em 2024.

Procurado, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) reiterou comunicado divulgado em 12 de dezembro, após a aprovação das tarifas no Congresso mexicano, de que “tem mantido contato com autoridades mexicanas para tratar dos possíveis efeito das mudanças tarifárias”.

Precedente é considerado perigoso

O problema é que a iniciativa do México podem ser apenas o início de uma série de medidas tarifárias adotadas quase sempre sob justificativa de proteger a indústria doméstica.

“A decisão do México de adotar tarifas contra o Brasil, infelizmente, é o primeiro passo para consolidar no mercado internacional uma decisão de aplicações tarifárias unilaterais”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

“Nesse cenário, qualquer outro país pode adotar tarifa livremente, sem saber quais serão as consequências, muito menos sem saber se a aplicação de tarifas mais altas vai gerar ou não uma reciprocidade de outros países”, afirma Castro.

Welber Barral, sócio da BMJ e ex-secretário de comércio exterior, lembra que há uma tendência geral de aumento de protecionismo em todo o mundo, a partir das medidas iniciadas por Trump. “Acabamos de ter o anúncio também de salvaguarda de carne da China. O mundo inteiro tem aumentado suas medidas de proteção.”

Barral menciona também a iniciativa da Índia, que impôs uma tarifa de importação de três anos, entre 11% e 12%, sobre alguns produtos siderúrgicos. A medida foi anunciada pelo governo indiano na terça (30), na tentativa de combater os embarques da China. “Isso terá um efeito grande no mercado internacional. Infelizmente, é um aumento das medidas protecionistas no mundo inteiro, que o México segue neste momento.”

O padrão usual das guerras comerciais é que elas não são bilaterais, diz o economista Livio Ribeiro, sócio da BRCG. “Elas acabam sendo guerras comerciais que vão se espalhando de pouco em pouco, o que nos leva a um mundo mais autárquico e mais tarifado, com todos os fluxos sendo restritos em algum nível. O mundo para o qual estamos caminhando é de um equilíbrio final com menos cooperação, custos mais elevados e com o canto da sereia da proteção da indústria doméstica, algo que nunca deu certo e não vai dar certo agora.”

Para Castro, da AEB, o aumento de tarifas pelo México é um “precedente perigoso”. Isso, diz, pode fazer com que os países comecem a aplicar tarifas maiores como uma forma de eliminar o que foi adotado anteriormente por outros. “No primeiro momento, basicamente, Trump adotou tarifas. Agora nós já enfrentamos as tarifas do México e, de repente, pode surgir outro país. Isso você levar a um desequilíbrio tarifário mundial, que é ruim para o comércio mundial.”

“O México estava sob pressão dos Estados Unidos para colocar essas medidas”, diz Barral, da BMJ. É preciso ainda verificar, observa, o impacto aos setores que são cobertos por alguns acordos especiais entre Brasil e México, como é o caso do setor automotivo e de alguns químicos. “O Brasil terá que, via Mercosul, acelerar os acordos de livre comércio.”

Atualmente o Brasil não tem acordo de livre comércio amplo com o México, embora possua os chamados ACEs (Acordos de Complementação Econômica), como o do setor automotivo.

O grande foco das novas tarifas mexicanas é a Ásia, principalmente China, diz Ribeiro, da BRCG. “A medida olha muito mais para a Ásia, com o argumento de proteção da indústria local e alinhamento da política tarifária mexicana com os Estados Unidos. Tem oposição doméstica no México, com preocupação com elevação de custos e impacto na inflação. Evidentemente isso não vai gerar reindustrialização mexicana.”

O perigo da guerra comercial, avalia Ribeiro, vem quando se inicia uma reação em cadeia, em que todos começam a taxar todos sob argumento de proteção e de equalização tarifária. “Infelizmente, é exatamente o estamos vendo no caso mexicano. É um movimento ruim, mas não é um movimento que virá isolado. Nesse sentido, acho que temos que esperar outras políticas dessa natureza, de outros países. Essa é a grande questão que temos que observar, olhando para frente. Guerras comerciais, você sempre sabe como começa, nunca sabe como termina”, diz o economista, que também é pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 05/01/2026