Análise: Mudança sutil no tom do Copom reacende apostas em corte da Selic

Análise: Mudança sutil no tom do Copom reacende apostas em corte da Selic

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, a rigor, não prometeu nada nem deu qualquer sinal de quando poderá cortar os juros. Ainda assim, mudanças sutis no seu comunicado devem encorajar as apostas no mercado na queda dos juros.

Na sua mensagem central de política monetária, trocou uma palavra — vigilante — de lugar e mudou o tempo do verbo "avaliar", deixando mais claro que considera o nível atual de juros suficiente. Juntas, essas alterações tornam a mensagem menos simétrica, ou seja, apontam que o movimento mais provável dos juros no futuro é para baixo.

Isso se junta ao reconhecimento de progressos na queda da inflação subjacente e também a uma pequena melhoria na projeção de inflação para o horizonte relevante de política monetária. Ambos são insuficientes, mas a situação está melhor do que a descrita em setembro.

Primeiro, vamos olhar em detalhes a mensagem central de política monetária. O Copom dizia, em setembro: “O Comitê seguirá vigilante, avaliando se a manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”, afirmou o comunicado.

Naquela ocasião, já havia ocorrido uma evolução na comunicação. O Copom deixou de falar em “continuação na interrupção” do ciclo de alta — mensagem que passava com mais força a possibilidade de uma retomada do ciclo de alta da taxa Selic.

Mas note que, no comunicado de setembro, essa possibilidade não havia sido totalmente descartada. O Copom ainda a mantinha, embora com menor força, ao usar o verbo avaliar no gerúndio — avaliando — em conjunto com a conjunção "se", que basicamente introduz uma dose de dúvida.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi questionado sobre a nova construção de texto na entrevista do Relatório de Política Monetária (RPM) de setembro. Segundo ele, o Copom preservou “a ideia de que estamos dependentes de dados, e vamos seguir observando se a taxa de juros está num patamar contracionista o suficiente para produzir a convergência da inflação para a meta”.

Além do verbo no gerúndio e da conjunção "se", o comunicado de setembro também trazia, naquele trecho, o aviso de que o BC estava "vigilante" — expressão que parecia apontar que, na ocasião, ainda havia riscos com alguma relevância a serem monitorados.

Mas, claramente, o Copom já caminhava para um maior grau de conforto com a taxa de 15% ao ano para fazer o serviço de controlar a inflação. Tanto que, na mesma entrevista, o diretor de política econômica do BC, Diogo Guillen, traçou claramente uma evolução: “A gente estava numa interrupção, para depois ficar no nível corrente [da taxa de juros, em 15%]”, disse. “Agora, está no nível corrente bastante prolongado.”

Já no comunicado de novembro, divulgado hoje, o conforto com a taxa de 15% ao ano parece bem maior — o Copom dá a entender que chegou a uma conclusão, ao usar o verbo avalia: “O Comitê avalia que a estratégia de manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”.

A expressão vigilante foi encaixada no trecho seguinte:

“O Comitê enfatiza que seguirá vigilante, que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado.” Nessa posição, perde um pouco sua força e se parece com o aviso usual do BC de que vai reagir se o cenário não se desenrolar da forma esperada.

O fato é que, quando o BC subiu os juros pela última vez, em junho, sua comunicação fazia uma força tremenda para dar simetria à mensagem — ou seja, para deixar claro que o juro podia tanto subir quanto cair. Agora, fica mais assimétrica — os juros vão ficar parados por bastante tempo, mas as chances de subir ficaram menores em relação às de cair.

Isso tenderá a reforçar as apostas do mercado em queda de juros. A Selic parada não dá muitos ganhos extraordinários; é preciso apostar em algum movimento para fazer dinheiro.

A questão é que a mensagem de juros altos por período bastante prolongado continua lá (o comunicado traz a palavra bastante, para quem sentiu falta dela em um discurso recente de Galípolo). E não há nenhuma indicação clara do quanto é bastante.

Tudo vai depender da evolução dos dados a serem divulgados — e, provavelmente, não há um único gatilho. O comunicado reconhece que há uma “trajetória” de arrefecimento da atividade, o que é algo mais consistente do que simplesmente apresentar “certa moderação”. A inflação subjacente caiu, “mas manteve-se acima da meta para a inflação”.

Um resumo do cenário é expresso na projeção de inflação de 3,3% para o segundo trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária. Houve melhora em relação aos 3,4% divulgados no relatório, mas ainda está acima da meta.

Essa projeção mostra que, matematicamente, com o corte de juros previsto pelo mercado em janeiro, para 14,75% ao ano, as contas não fecham ainda. Mas, de novo, o que vale mesmo é a situação que o Copom encontrar em cada reunião.

 

 
Fonte: Valor
Seção: Indústria & Economia
Publicação: 06/11/2025