Aço importado pressiona indústria brasileira e acende alerta para fraudes e perda de competitividade

Aço importado pressiona indústria brasileira e acende alerta para fraudes e perda de competitividade

A indústria siderúrgica brasileira atravessa um novo ciclo de tensão, marcado pela combinação de concorrência predatória, demanda interna fraca e relatos crescentes de fraudes em importações. Embora os desembarques de aço no País tenham caído 17,9% entre julho e setembro de 2025, segundo o Instituto Aço Brasil (IABr), o impacto da entrada de material estrangeiro — especialmente de origem chinesa — continua comprometendo os resultados das principais empresas do setor.

Os balanços trimestrais de Usiminas, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e Gerdau mostram um quadro heterogêneo, mas com tendência comum: margens apertadas e necessidade de reposicionamento estratégico. A Usiminas registrou queda de 7% nas vendas domésticas e receita 1,3% menor que a do mesmo período de 2024. A CSN teve retração de quase 10% no mercado interno e desempenho 12,4% pior na siderurgia. A Gerdau, menos exposta ao aço plano — principal alvo das importações — conseguiu expandir as vendas internas em 3,6% e as exportações em mais de 29%.

Segundo Virgílio Lage, da Valor Investimentos, o fluxo de aço importado “comprimiu preços e margens” das operações locais. A dificuldade é agravada por fatores externos, como o tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos sobre o aço brasileiro, que redirecionou parte das exportações nacionais a novos mercados. Ainda assim, analistas apontam que o problema central permanece dentro de casa: um mercado que premia o menor preço, mesmo à custa da qualidade.

Fraudes e aço “fantasma”

Nos bastidores do comércio de aço, cresce a preocupação com a entrada de produtos estrangeiros supostamente falsificados ou com qualidade adulterada. Relatos colhidos entre importadores e distribuidores indicam a chegada de bobinas galvanizadas e Galvalume — amplamente usadas na construção civil — com revestimentos e composições químicas diferentes das declaradas.

Uma das práticas mais citadas é o chamado “head and tail”, em que apenas o início e o fim da bobina têm a camada de zinco informada no rótulo, enquanto o miolo apresenta qualidade inferior. Há também casos de sobreposição de etiquetas, adulteração de certificados de qualidade e manipulação de composição química para alterar a classificação fiscal do produto, reduzindo tarifas de importação.

De acordo com um distribuidor ouvido pelo setor, cerca de 80% do aço Galvalume importado poderia ter algum tipo de irregularidade. “O mercado virou tóxico. Os materiais falsificados são vendidos até US$ 200 por tonelada mais baratos. As empresas sérias não conseguem competir”, disse um importador.

As denúncias apontam que o problema não se restringe aos fornecedores asiáticos, mas também envolve compradores e distribuidores locais que conscientemente adquirem produtos fora de especificação. “Setenta por cento das vezes, é o comprador que pede material de baixa qualidade. Ele sabe o que está comprando”, afirmou um trader.

Fiscalização insuficiente e riscos à segurança

A ausência de fiscalização eficaz nos portos brasileiros e a falta de cultura de verificação entre os consumidores finais permitem que o material irregular circule livremente. “O consumidor pede o preço mais baixo e não mede a espessura do zinco. Só percebe o problema quando o telhado enferruja em dois anos”, relatou outro distribuidor.

Entidades e especialistas defendem a criação de mecanismos de controle semelhantes aos do Inmetro, que poderiam estabelecer padrões mínimos de qualidade — como a obrigatoriedade do revestimento AZ150 para o aço galvanizado. Propostas incluem campanhas de conscientização, uso de medidores simples de espessura, e exigência de certificações mais rigorosas para o desembarque de produtos siderúrgicos.

Cenário estrutural e histórico de desequilíbrios

A atual crise ecoa dilemas antigos. Há mais de uma década, o setor sofre com o chamado “Custo Brasil” — alta carga tributária, energia cara e baixo investimento —, que limita a competitividade frente aos grandes produtores internacionais. Em 2013, o então presidente do Sindisider, Carlos Loureiro, já alertava que o crescimento tímido da economia brasileira e o excesso de aço global estavam corroendo a rentabilidade das usinas nacionais.

Além da concorrência direta, o Brasil também enfrenta o problema do “aço contido”: a importação de bens manufaturados que incorporam aço estrangeiro, como máquinas e veículos, o que substitui a demanda por aço produzido internamente.

Perspectivas e medidas de defesa

Enquanto o governo avalia novas medidas antidumping — que podem abranger produtos galvanizados e pré-pintados —, empresas como a CSN enxergam oportunidade para recuperar participação no mercado interno. A companhia celebrou recentemente a aprovação de tarifas permanentes contra a importação de folhas-de-flandres chinesas, e defende que casos semelhantes sirvam de precedente para outras categorias.

Para analistas como Lucas Sharau, da iHUB Investimentos, o setor siderúrgico continua sendo uma aposta defensiva nos portfólios, mas exige atenção. “O investidor deve priorizar empresas com presença internacional ou cadeias integradas, que se sustentam melhor em momentos de pressão competitiva”, afirmou.

O consenso entre executivos e especialistas é que o Brasil precisa equilibrar a abertura comercial com políticas de defesa mais ágeis e controles técnicos mais robustos. Caso contrário, a siderurgia nacional — que já foi símbolo da industrialização brasileira — corre o risco de ver sua produção corroída não apenas pelo aço barato, mas pelo aço falsificado.

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 11/11/2025