A América Latina não escolhe lado: vende minerais críticos aos EUA e à China
A América Latina não escolhe lado: vende minerais críticos aos EUA e à China
Uma onda de governos conservadores na América Latina renovou as expectativas de um maior impulso ao setor de mineração, enquanto EUA e China disputam o acesso aos minerais críticos exigidos pela transição energética.
A BNamericas conversou com Theodore Kahn, diretor de Geopolítica e Risco País da Control Risks, consultoria britânica de gestão de riscos com presença global, sobre como a região está posicionada e as oportunidades e riscos que enfrenta.
BNamericas: Levando em conta a expansão da China, o senhor acha que a América Latina poderia se tornar um bloco estratégico diante da concorrência global por minerais críticos entre esse país e os Estados Unidos?
Kahn: A região já tem um papel estratégico: basta ver os números: Chile e Peru concentram mais de 40% da produção mundial de cobre; Argentina, Bolívia e Chile formam o triângulo do lítio com boa parte das reservas globais; e o Brasil tem uma proporção importante de terras raras. Aqui o importante será se a América Latina pode atuar como bloco para negociar frente aos outros eixos de poder, ou se cada país se alinha mais com os Estados Unidos ou com a China. Isso eu vejo como difícil.
Os esforços de cooperação regional na América Latina têm sido contínuos, mas nunca prosperaram nem se consolidaram de forma sustentada. Isso se reflete no fato de que os governos não querem tomar partido: vemos isso até mesmo em governos de direita muito alinhados com os Estados Unidos, que ainda assim mantêm e ampliam suas relações comerciais com a China.
Quanto ao que os Estados Unidos propõem com suas alianças de minerais críticos, não sei quanto vai se concretizar nos próximos dois anos, sobretudo até que o presidente Donald Trump saia e vejamos a abordagem do próximo governo.
Temos visto avanços concretos —o financiamento de projetos de minerais críticos por parte da Corporação para o Financiamento para o Desenvolvimento dos Estados Unidos (DFC) e do Exim Bank, que provavelmente vai continuar crescendo—, mas não vejo que vá se formar uma aliança permanente ou exclusiva da região com os Estados Unidos ou com a China. Acho que é justamente isso que convém à região: aproveitar o interesse em seus ativos minerais fazendo negócios com todos.
BNamericas: Quais tendências estão marcando o rumo da mineração na região?
Kahn: Estamos em um momento de muita oportunidade para dinamizar o investimento minerador pela confluência de dois fatores principais: o crescente interesse em minerais críticos e o fato de que já se reconhece o papel estratégico que a região pode desempenhar por seus recursos e sua proximidade com os Estados Unidos e a Europa.
Também estamos vendo em vários países a guinada política em direção a governos de direita mais favoráveis ao investimento, com clara intenção de aproveitar esta janela estratégica que representa o setor de mineração.
Como resultado, esperamos mais financiamento privado e multilateral para a indústria.
Há exemplos concretos dessa tendência: o RIGI na Argentina gerou bastante interesse; os Estados Unidos estão modernizando seus mecanismos de financiamento para apoiar projetos na região. No Brasil, os Estados Unidos já concederam mais de US$600 milhões (mi) em financiamento para projetos e veem potencial para apoiar mais de 50 projetos; em fevereiro os Estados Unidos e o Peru assinaram um memorando de entendimento sobre minerais críticos e em março entregaram à Minera Cerro Verde o Prêmio “Bicentenario Estados Unidos-Perú”; em abril os Estados Unidos e o Chile assinaram um memorando de entendimento para impulsionar o desenvolvimento de exploração, explotação e processamento de minerais críticos.
Entre os aspectos positivos também é preciso destacar o nível tecnológico.
BNamericas: Também há grandes desafios, quais são os principais?
Kahn: É isso. Por melhores que sejam as condições políticas e financeiras, todo projeto tem que passar pelo processo de licenciamento —não só ambiental, mas também social— e pelo processo administrativo, que continua sendo a grande barreira em quase todas as jurisdições latino-americanas.
Parte da agenda dos novos governos do Peru e da Colômbia é agilizar esses processos, mas a grande pergunta é quanta influência real têm os governos nacionais sobre essa matéria.
Se alguém observa a agenda de José Antonio Kast no Chile, a de Abelardo de la Espriella na Colômbia e de Keiko Fujimori no Peru, eles falam em facilitar licenças, usar inteligência artificial para ter processos mais rápidos, mas há limitações importantes.
Essas limitações decorrem de reações negativas que podem surgir das comunidades se perceberem que os governos buscam impulsionar projetos ignorando alguns dos processos formais estabelecidos ou direitos constitucionais como a consulta prévia.
Os governos e as empresas precisam ter muito cuidado na forma como lidam com as tensões legítimas das comunidades, pois podem surgir demandas e riscos jurídicos decorrentes dessas tensões.
No Chile, na Colômbia e no Peru vimos vários casos em que os Tribunais foram muito ativos e firmes ao respaldar os direitos ambientais e das comunidades frente à indústria mineradora.
Os litígios sim afetam projetos. O caso de Tía María, no Peru, com um estudo ambiental de 15 anos atrás que continua sendo questionado, é um exemplo. Na Colômbia, uma tentativa do governo de Iván Duque de acelerar a consulta prévia por via executiva foi derrotada nas altas cortes.
As Altas Cortes, nesse sentido, serão um limitador na região. Os governos e as empresas precisam lidar com cuidado com essa tensão entre agilizar projetos e respeitar as preocupações legítimas das comunidades.
A esse risco regulatório e social soma-se o de segurança: a mineração ilegal é um desafio complexo na maioria dos países da região.
BNamericas: Quão difícil será desmantelar as redes criminosas que operam na mineração ilegal?
Kahn: Desmantelá-las e restabelecer o controle do Estado nessas zonas, na maioria dos casos remotas, é um desafio muito grande e, pelo menos, de médio prazo, não de curto prazo.
Nos últimos três a cinco anos, a incursão de grupos criminosos organizados e mais sofisticados na mineração ilegal tornou-se muito mais forte em quase todos os países.
Antes eram redes de garimpeiros artesanais ou redes criminosas muito pouco sofisticadas, mas as dinâmicas da mineração ilegal informal mudaram e hoje estão enquadradas em uma lógica de crime organizado, atraídas pela alta rentabilidade do ouro pelos preços atuais e por sua utilidade como ferramenta para a lavagem de ativos. Seu controle sobre a mineração nem sempre é direto ou tão evidente: às vezes controlam a própria mina, mas com mais frequência controlam o acesso ao território e o movimento de insumos, combustível, produtos químicos e explosivos, como parte de sua expansão territorial e econômica.
BNamericas: Como vê a estratégia contra este delito que será aplicada pelos novos governos da Colômbia e do Peru?
Kahn: Claramente existe a intenção de adotar uma postura mais agressiva e um uso contundente da força militar.
Vamos ver uma resposta dos grupos criminosos que buscarão preservar suas rendas, e o ouro ilegal é uma de suas principais fontes de renda. Por isso, em algumas partes da região poderíamos ver esses grupos reforçarem seu controle sobre a mineração ilegal precisamente como reação à maior pressão militar, ainda mais se houver pressão contra o narcotráfico por parte dos Estados Unidos.
BNamericas: Se a pressão militar aumentar, seria possível ver os mineradores ilegais migrarem para outros países, talvez mais ao sul?
Kahn: Sim, é possível; poderiam pensar talvez no Chile, mas é preciso levar em conta que o ouro é o principal atrativo, embora haja cada vez mais afetação às operações de cobre e furto desse mineral.
Quando aumenta a pressão militar em uma jurisdição, é habitual que esses grupos procurem escapar para zonas com menor presença do Estado; o Chile, com o presidente Kast, estará atento a esse risco.
Veremos mudanças na presença e na distribuição territorial dos grupos criminosos. As zonas mais vulneráveis a sofrer deterioração são as mais remotas, como a fronteira entre Ecuador e Peru, onde já vemos uma presença crescente de grupos armados vinculados à mineração ilegal.
BNamericas: Nos casos específicos da Colômbia e do Peru, a margem de vitória dos novos governos foi muito estreita. Como isso pode influenciar a estratégia de desenvolvimento minerário, considerando que a esquerda continua forte nos dois países?
Kahn: De fato, em ambos os casos as vitórias são muito apertadas, de modo que ambos os governos vão enfrentar muita pressão. No caso do Peru, o vínculo entre a oposição política e as dinâmicas do setor mineral é mais direto: a zona mineradora do sul andino votou com amplas maiorias em Juntos por Perú (JPP) [o partido do candidato de esquerda Roberto Sánchez], e nessas eleições a Confemin [associação nacional de pequenos mineradores e mineradores artesanais] financiou ativamente as campanhas para as eleições de congressistas, apoiou muito fortemente o JPP e fará o mesmo, certamente, nas eleições regionais [de October 4].
BNamericas: Esse apoio será determinante para continuar ou não com o Reinfo?
Kahn: Sim. Esse vínculo permite prever que a reforma do Reinfo [Registro Integral de Formalización Minera] para avançar para outro esquema como a Lei Mape [Lei de Pequena Mineração e Mineração Artesanal] será difícil, pois enfrentará a mesma resistência de sempre por parte dos interesses vinculados à mineração informal que se beneficiam do statu quo.
BNamericas: Poderíamos ver, como já aconteceu no passado, que operações sejam paralisadas ou que minas em produção sejam afetadas no corredor mineiro do sul?
Kahn: É um risco latente. Fujimori provavelmente terá um período inicial tranquilo, como costuma acontecer, mas começa com um déficit de apoio ou legitimidade nessas regiões. Se insistir em encerrar o Reinfo, isso pode desencadear protestos que afetem o corredor minerador.
Teremos de ver como Fujimori se sai, pois também falou em compartilhar 40% dos royalties com as comunidades locais —proposta que deve passar pelo Congresso— que busca justamente suavizar essa reação social, mas depende de quanto capital político ela tenha para impulsioná-la.
BNamericas: Além das eleições regionais — que serão uma espécie de teste para medir quanto se erosiona o capital político de Keiko Fujimori —, que outros riscos é preciso acompanhar de perto no Peru?
Kahn: Em matéria de riscos, além da mineração ilegal —que não é um fenômeno generalizado em todo o país, mas sim importante— há duas frentes-chave a ter em conta.
É preciso entender as expectativas tanto das comunidades quanto das autoridades locais. As empresas enfrentam uma expectativa alta de contribuição para o desenvolvimento local em infraestrutura, emprego, água e energia, e é fundamental deixar claro desde o início o que vão fazer e o que não vão fazer, sem deixar um cheque em branco que gere exigências indefinidas. Gerir essa relação é fundamental.
BNamericas: Deveria haver preocupação em torno da relação Executivo–Legislativo pelas experiências passadas e porque Fujimori não controla o Congresso?
Kahn: A governabilidade legislativa é incerta porque Fujimori não controla o Congresso; as maiorias dependerão muito das negociações.
Fuerza Popular tem uma bancada importante, mas continua sendo minoria e nem mesmo com o apoio do partido de Rafael López Aliaga [Renovación Popular] se alcança uma maioria. Isso ficou evidente nas eleições das duas câmaras, que mostraram o bloco de oposição desde a esquerda até partidos mais de centro, numa espécie de advertência de que é preciso negociar. A questão do Reinfo entrará aí e faz parte da complexidade.
BNamericas: Como vê o cenário eleitoral que se apresenta no momento no Brasil e como uma mudança de governo pode modificar a relação com investidores?
Kahn: O que agora se vê é que parece que Lula continua como favorito para vencer um quarto período.
Quanto aos riscos, um dos mais ativos é a relação entre Brasil e Estados Unidos, que está se deteriorando dia a dia. Estados Unidos voltou a mostrar sua intenção de influenciar o processo eleitoral e a pergunta é até que ponto isso vai chegar, e se Lula, depois de todas essas tensões, poderá reconstruir a relação.
No fim, o que vimos é uma mistura de pragmatismo e de uma postura mais ideológica por parte dos Estados Unidos. A área de pragmatismo são justamente os minerais críticos. O Brasil é o país onde vimos o maior movimento de investimento em minerais críticos por parte de empresas norte?americanas, com apoio das entidades financeiras do governo dos Estados Unidos. Essa parte da relação parece estar, até certo ponto, blindada frente ao deterioro diplomático, embora dependa claramente da manutenção da relação com Lula.
Se houver uma mudança de governo, a dinâmica pode mudar. Com Lula, não se fechou a porta ao investimento privado, ao contrário do que ocorreu com Gustavo Petro na Colômbia; é uma postura mais pragmática.
Mas poderíamos ver uma dinâmica parecida com a de outros governos de direita —já vimos isso com Bolsonaro e sua tentativa de abrir a fronteira mineradora na Amazônia—, e isso poderia exacerbar alguns riscos: já vimos expansão da mineração ilegal nessa região, e facilitar mais investimento ali poderia gerar reações das comunidades e até mesmo um aumento da criminalidade nessas regiões. No caso do Brasil, a Amazônia é o foco principal desse risco.
Fonte: BN Americas
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 17/08/2026