2025: o ano em que o aço virou arma geopolítica nas Américas (e além)

2025: o ano em que o aço virou arma geopolítica nas Américas (e além)

O ano de 2025 marcou uma virada estrutural para a indústria siderúrgica nas Américas, impulsionada principalmente pelo retorno agressivo da política “America First” de Donald Trump. Tarifas deixaram de ser apenas instrumentos comerciais e passaram a funcionar como ferramentas centrais de reengenharia das cadeias globais de suprimento.

Desde o início do ano, o mercado já antecipava um endurecimento. Executivos de siderúrgicas norte-americanas defendiam abertamente tarifas mais severas, especialmente contra Canadá e México. Em março, essa expectativa se materializou: os EUA reinstauraram tarifas de 25% sobre todo o aço e alumínio, eliminando exceções regionais sob a Seção 232. Poucos meses depois, o patamar dobrou para 50%, fechando de fato o mercado americano às importações.

A escalada não parou aí. Automóveis passaram a ser tarifados, produtos derivados de aço foram incluídos em massa, e tarifas “recíprocas” foram impostas a quase todos os parceiros comerciais, sob poderes emergenciais raramente usados. O efeito imediato foi uma elevação artificial dos preços internos — sustentada por proteção, não por demanda.

EUA: proteção máxima, demanda fraca

Apesar do discurso de fortalecimento da indústria doméstica, a realidade foi mais ambígua. Mesmo com tarifas recordes, empresas como a Cleveland-Cliffs paralisaram usinas por falta de demanda. O setor de tubos OCTG, o automotivo e o agrícola sentiram o impacto direto dos custos mais altos e da retração do consumo.

As montadoras americanas sofreram perdas relevantes em 2025, num setor que responde por quase metade da demanda de aços planos e longos especiais. Ao mesmo tempo, projetos de reshoring avançaram — como o investimento bilionário da Hyundai na Geórgia — evidenciando que as tarifas funcionaram mais como indutoras de localização industrial do que como motor de crescimento imediato.

Canadá e México: danos colaterais severos

Se nos EUA os efeitos foram mistos, no Canadá foram devastadores. Tarifas de 50% praticamente expulsaram o aço canadense do mercado americano. A Algoma Steel tornou-se símbolo da crise: prejuízo bilionário, custos tarifários elevados e paralisação de altos-fornos. O episódio culminou em litígios comerciais e no colapso de contratos históricos.

No setor automotivo canadense, decisões estratégicas das montadoras passaram a privilegiar os EUA, colocando milhares de empregos em risco em Ontário. As relações comerciais entre Washington e Ottawa se deterioraram rapidamente, culminando na suspensão de negociações e novas tarifas adicionais.

Consolidação e sobrevivência

Com margens comprimidas e volatilidade extrema, fusões e aquisições aceleraram. Distribuidores e centros de serviços buscaram escala e proteção, enquanto siderúrgicas recorreram a parcerias estratégicas como tábua de salvação financeira. A aliança Cleveland-Cliffs–POSCO exemplificou esse movimento.

O efeito dominó: Europa e América Latina

O protecionismo americano reverberou globalmente. A União Europeia respondeu com um pacote ainda mais rígido de salvaguardas, cortes drásticos em cotas de importação e uma rede crescente de medidas antidumping. O CBAM adicionou uma camada extra de custo e complexidade, tornando a importação de aço um exercício quase proibitivo.

No Brasil e na América Latina, o temor de desvio de comércio reacendeu políticas defensivas. Ainda assim, o aço chinês continuou a aparecer, muitas vezes por vias informais ou com documentação manipulada — um problema que líderes regionais passaram a tratar como estrutural.

Descarbonização: ambição encontra realidade

Enquanto governos exigem aço verde, a conta não fecha. Custos elevados de energia, permissões de carbono acima de €80/t e hidrogênio verde a preços proibitivos levaram siderúrgicas europeias a rever ou cancelar projetos de DRI. A transição energética segue no discurso, mas o ritmo desacelerou drasticamente.

2026 no horizonte: mais regras, menos clareza

Com novas salvaguardas, CBAM em pleno funcionamento e demanda real ainda frágil, o mercado europeu entra em 2026 mais protegido — e mais caro. Os preços sobem não por consumo, mas por medo regulatório. A pergunta central permanece sem resposta: os produtores vão aumentar a utilização de capacidade, mesmo pagando mais por carbono e energia?

 
Fonte: Infomet
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 09/01/2026